Quando o UM, cedendo à pressão do AMOR, permitiu que houvesse em sua mesma substância o OUTRO, o Filho; nesse aorístico instante, estabelecia-se, no mesmo seio do UM PRIMEIRO E ÚNICO, dois níveis de SER: o SER propriamente dito e o ESTAR.
Jo 1:1 No princípio
era
o Verbo, e o Verbo
estava com Deus, e o Verbo
era Deus.
A primeira observação que devemos fazer é que os verbos todos estão no pretérito imperfeito do indicativo.
Pretérito, porque o que se declara já está no passado. Em termos bem simples: tudo o que estamos vivendo e vamos viver, tudo o em que existimos e vamos existir, tudo isso já passou. Estamos existindo no passado, no passado eterno, do UM.
Imperfeito, porque esse passado ainda não está totalmente acabado, está em trânsito, em eterno trânsito. E está no
indicativo, porque essa é uma afirmação categórica, irrevogável. O que podemos entender é que no princípio
(= αρχη em grego, e que se pode ler como "arque") o Verbo, a Palavra, a Palavra Criadora,
era, existia (por assim dizer) ainda no nível de SER: o UM trazia em sua mesma substância, em potência, o Verbo em sua operacionalização de FAZER, CRIAR. E esse mesmo Verbo
estava com Deus, existia na forma de ESTADO, de algo que necessariamente tem de ser transitório, temporário. Nesse momento, deve ter sido criado o tempo em sua forma mais essencial, a que podemos dar o nome de prototempo
ou protoduração, matriz de todas as modalidades de tempo. Dentro da substância una do UM, que é pura essência, abria-se a possibilidade de uma substância não mais só essente, mas também
existente. Essa palavra significa:
que está fora de. E isso é uma muleta para que possamos refletir sobre um assunto que é para sempre inatingível pela mente do criado. O estar fora de é, na verdade, uma ilusão, pois não há, em verdade, o fora de. Tudo o que existe
está dentro de,
é dentro de. O fora de é uma ilusão, espécie de sonho, que o UM criou para poder manifestar o AMOR que ELE é. Mas o estado não está sujeito ao caos, à randomicidade, ao acaso, pois ele está dentro do UM e é feito de Sua mesma substância. Pois, como diz o texto sagrado, "o Verbo
era Deus".
Abrindo parêntesis.
Façamos agora uma reflexão sobre esse termo que já usamos por diversas vezes. Arquétipo é uma palavra formada de dois elementos gregos:
αρχη, que, como vimos, significa princípio, e τυπος, que significa tipo, modelo, padrão, exemplo. Assim, etimologicamente, arquétipo significa um padrão ou modelo ou regra ou norma que é originada no Princípio, isto é, no momento aorístico cósmico em que o UM se fez o OUTRO, sem deixar de ser o UM, que é o supremo arquétipo. Pois tudo que o UM é, se espelha em imagem em Tudo o Que Existe.
Fechando parêntesis.
Mas não podemos nos esquecer nunca de que jamais entenderemos, em verdade, os grandes mistérios do UM, pois os nossos pensamentos não podem alcançar as excelsas realidades dos pensamentos de Deus. Tudo o que aqui falamos, falamos como aproximações toscas daquilo que realmente é. Não teremos nunca respostas para tudo, pois fomos criados imperfeitos, eternamente imperfeitos, ou melhor dizendo, perfectíveis, eternamente perfectíveis. Como, então, está escrito que:?
Mat 5:48 Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.
O que temos nessa frase é uma exortação (e não uma afirmação de fato) dirigida ao homem. O imperativo nos diz que o conteúdo não é indicativo: não corresponde a uma verdade, mas a um pedido, a uma solicitação, a uma exortação. O conteúdo se dirige obviamente a seres não perfeitos, senão não teria razão de ser. Sendo uma declaração de Deus, ela é válida para todo o sempre: o homem estará para sempre em um estado, por mais elevado que seja, sujeito a essa exortação. O homem tem de se esforçar para ser perfeito, acabado, ultimado. E é isso possível? Sim, se considerarmos o presente nível de causação em que habitamos. Pois, para deixarmos esse nível, precisamos estar perfeitos
em relação a ele; precisamos ter acabado, definitivamente, com todos os comportamentos
e sestros que nos ligam a ele. Temos de estar perfeitos, totalmente feitos em relação a ele,
a este mundo. Temos de estar num estado de espírito que sinta, que saiba, que já não mais queremos o que este mundo pode ofertar. Devemos ter em relação a ele um sentimento de profunda gratidão, mas devemos estar firmes na resolução de deixá-lo para trás, santo na sua santidade
e na sua santa missão. E a primeira coisa que devemos fazer é eliminar a mentira em nossa vida, pois é dela que procedem todos os males que aqui nos retêm. O modelo de perfeição é o nosso Pai celestial: é a Ele que precisamos nos reportar, pois Ele representa o padrão que devemos atingir para sairmos definitivamente deste plano para ingressarmos no Seu seio. Temos de regressar ao Verbo, que nos criou. Mas, não nos esqueçamos de que a perfeição a que venhamos atingir é em relação ao nível em que ainda estamos. A perfeição absoluta pertence
única e exclusivamente ao
UM PRIMEIRO E ÚNICO. Por isso o versículo diz:
como é perfeito o vosso Pai celestial. Essa palavra,
como, denota semelhança, e não identidade,
igualdade. A perfeição no criado, seja ele de que estatura for, é sempre em semelhança, e nunca em identidade plena.
Precisamos, agora, antes de prosseguir, fazer uma reflexão sobre Deus.
sm (lat deus) 1 O Ser supremo; o espírito infinito e eterno, criador e preservador do Universo. 2 Teol Ente tríplice e uno, infinitamente perfeito, livre e inteligente, criador e regulador do Universo. 3 Cada uma das pessoas da Santíssima Trindade.
Tanto em latim (
Gn 1:27 Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
Deus criou o homem à sua imagem, pois o homem traz(ia) em potencialidade tudo aquilo que caracteriza Deus, mas não em identidade, mas em semelhança, para preservação da individualidade do ser. E o homem que foi criado, trazendo em si o Espírito Santo, tinha (como tem) os dois caracteres arquetípicos: o masculino e o feminino. (Não nos interessa refletir aqui sobre a eventual ou provável androginia desse homem recém-formado.)
Gn 2:7 E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.
Deus criou o universo, a partir de Sua mesma substância: o universo é uma manifestação de Deus. E da terra, do chão, de Sua mesma substância feita matéria (Ah! Einstein, como chegaste perto com a tua fórmula E=mc^2!), Deus modelou o corpo do homem. E soprando, nas narinas, o fôlego, o sopro do Espírito Santo, fez com que o homem, a partir de então, dotado de Espírito Santo, se fizesse alma vivente. E até hoje o homem é formado de terra, e mantém o seu corpo com terra, que se manifesta nos alimentos que consome.
Gn 2:16 Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim podes comer livremente;
É de se notar que Deus não proferiu uma frase condicional, mas
temporal.
Deus na verdade estava fazendo uma declaração de um fato futuro que certamente
iria acontecer. Era tudo uma questão de tempo. A palavra de Deus
aqui tem a força de um decreto. O fato é que nesse momento Deus preparava o homem para um grande salto, de catastróficas dimensões. Deus sabia
perfeitamente bem, já que se conhecia perfeitamente, que no homem havia a semente necessária da discórdia (= dotação de corações diferentes), pois esse é um dos caracteres que permitem que um ser seja indivíduo, como vimos acima. E sabia que, cedo ou tarde, o homem experimentaria do fruto proibido: uma experiência tão violenta que o faria sair de si mesmo, para ver o mundo de uma nova perspectiva mais rica. Antes ele não conhecia o que era o bem, o que era o mal. Para ele tudo que (lhe) acontecia era da mesma igualha, pois ainda não se sabia responsável por seus atos. E, para ele assumir de vez o caminho de uma glória sempre maior, era necessário que ele passasse de um ser inimputável para um ser imputável. A responsabilidade potencial que havia dentro dele tinha de se manifestar cabalmente. Deus sabia muito bem que o homem iria lhe desobedecer, pois isso fazia parte de sua mesma essência, como vimos.
Einstein bem o disse: "Deus não joga dados".
Gn 2:18 dixit quoque Dominus Deus non est bonum esse hominem solum faciamus ei
adiutorium similem sui
[Disse também o Senhor Deus: não é bom estar o homem só; façamos-lhe um
adjutor
semelhante a ele]
A Vulgata preserva melhormente um arquétipo básico. O ajudador do homem deveria ser à sua semelhança, do mesmo modo que o homem era à semelhança de Deus. O padrão criador é sempre o mesmo: um um
(sic) gerando um um (sic) à sua semelhança. Frisemos: o Senhor Deus propôs-se a criar a mulher para que esta fosse uma ajudadora do homem, e não uma atrapalhadora. Falharia Deus em seus intentos? Teria falhado Deus em seus intentos?
Gn 2:18 And Jehovah God said, It is not good, the man being alone. I will make a helper suited to him.
[E Jeová Deus disse: Não é bom o homem estar sozinho. Eu farei uma ajudadora apropriada para ele.
]
O Senhor Deus propôs-se a fazer uma ajudadora
apropriada para Adão: uma ajudadora que estaria adequada a cumprir o que o Senhor Deus esperava de Adão. Falharia Deus no seu intento, fazendo-lhe uma atrapalhadora e, além de tudo, inadequada? E o Senhor Deus deixou claro por suas palavras que a presença de uma ajudadora seria bom para o homem. Iria o Senhor Deus,
omnisciente, falhar em seu juízo?
Gn 2:21 Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar;
E, assim, houve a separação em Adão, dos dois caracteres básicos do homem como espécie: o masculino: convexo, positivo, ativo, emissivo, invasivo. E o feminino: côncavo, negativo, passivo, receptivo, invadível. A semente do homem se bipartia em sêmen
e óvulo.
Vejamos o que comenta Barnes a respeito dessa passagem, em que os destaques correm por nossa conta:
Examinemos com bastante carinho e unção o que aí se diz. O Verbo, fazendo-se Estado, existência, nem por isso deixou de ser Deus, mantendo em Si tudo aquilo que o UM é, mas agora não mais no mundo da essência pura, mas no mundo das formas imperfeitas. As formas imperfeitas (não há nessa palavra qualquer conotação negativa, tanto que poderíamos dizer: perfeitamente imperfeitas), geradas pelo Verbo, estão sob a regência eterna do UM,
de quem nada pode fugir ao controle. Uma das qualidades necessárias do UM, como já vimos, é a BONDADE. Se o UM é bom, tudo o que dele se origina também é bom. Os universos (versos do UM) que foram gerados na mesma substância do UM, são todos, por mais elevados que sejam, marcados pela qualidade da imperfeição, do ainda não totalmente feito. Todo ser criado, por mais elevado que seja, é imperfeito, inacabado.
Perfectível.E é exatamente nessa imperfeição básica do criado que reside a sua glória, a sua glória eterna. Pois ele pode sempre e eternamente caminhar dentro de si mesmo em busca de mais e mais maravilhas. E isso sem qualquer possibilidade de se perder irremediavelmente. O UM, cedendo ao impulso do AMOR, criou o Filho imperfeito, para que este pudesse crescer eternamente no seio da glória sem fim. A nossa imperfeição é o maior legado que o UM nos deixou. Somos imperfeitos, seremos eternamente imperfeitos, em busca de uma perfeição que jamais se realizará. Na imperfeição, a criatividade infinita da glória, que está reservada para todo o um que viaja o seu existir
em conforto e segurança, ainda quando tal não pareça. O Verbo não é Deus; o Verbo
era
Deus. Para todos os éons dos éons. O Verbo era Deus. Amém. DEO
GRATIAS!!!
Assim, temos basicamente dois níveis de ser: o primeiro, eterno e imutável em si mesmo; o segundo, eterno e mutável em si mesmo. Ao primeiro nível podemos dar o nome de ABSOLUTO, e ao segundo nível, o de RELATIVO. Isso, para
podermos estabelecer uma comunicação mais eficiente.
E, agora, temos de estabelecer um axioma: tudo que é válido para o Absoluto, também é válido para o Relativo, porque o UM jamais pode se negar ou ser negado em qualquer nível que ELE agasalha em SEU seio. E a diferença básica é que o Absoluto
é, e o Relativo
era. Para todos os sempres dos sempres. Assim, para entendermos em verdade alguma coisa ou fenômeno, teremos sempre de nos reportar ao UM,
ao supremo ARQUÉTIPO.
Quando estivermos no Paraíso (e todos os que aqui estamos estão "condenados" a para lá ir mais cedo ou mais tarde), teremos a sensação de termos atingido a perfeição, o non plus ultra, mas saibamos desde já que ainda teremos muito caminho pela frente. Gozosamente. O nosso Pai é perfeito, mas os que dele são gerados são apenas (?) perfectíveis, pois habitarão eternamente o Imperfeito do Indicativo, sem jamais atingir o Presente do Indicativo. Pois se tal acontecesse, chegaríamos a um fim, atravessando a intransponível barreira que se ergue entre o UM e o criado. E isso é impossível. Aquele que tentou fazer isso, teve o fim que lhe foi dado: cair, cair e cair.
A Bíblia em nenhum momento faz clara menção da origem de Satanás. Segundo McClister, em um excelente artigo, A origem de Satanás, o máximo que se pode dizer dele em termos bíblicos é que ele é o pai da mentira e o príncipe das potestades do ar. Mas sua origem pode ser inferida do arquétipo da Queda. Podemos dizer, do nosso ponto de vista de humanos, que o Relativo representa uma queda em relação ao Absoluto. E, como vimos, essa QUEDA foi ditada pelo AMOR. (Curioso que hoje em língua portuguesa, quando alguém se sente amorosamente atraído por outrem, diz que sente uma queda por esse outrem. E em Inglês a pessoa "falls in love".
Cai no amor.)
E essa Queda, como tudo que ocorre no UM, representou uma individualização, um um
(sic) criado no Relativo. Estando no Relativo, na Depoência, tendo em si o livre-arbítrio, a Queda, sabendo de sua origem, não podia se conformar em ser menos que o UM, e, engendrando um exército de seres que lhe eram semelhantes no sentir e no estar-sendo, se rebelou contra o UM ABSOLUTO. E, sendo Queda, quis-se não-queda, e mentiu, negando a verdade da sua situação. E, como era Queda, foi vencido, como tinha de ser vencido, por ordem de verdade, e caiu, caiu, caiu... multimensionalmente, habitando sempre a parte ínfera de cada plano de causação, exercendo ali o seu mister: provocar a queda.
Falando como homem. Mas o UM, sendo onisciente, sabia dos "riscos" de sua decisão (a palavra
de-cisão, curiosamente, significa, em raiz, cisão de, separação de), que absolutamente não eram riscos, mas conseqüências, coisas que necessariamente haveriam de acontecer em seguida, após a queda. Para o UM não há riscos; o que há são ações cuidadosamente planejadas,
programadas, sem qualquer possibilidade de fracasso.
O UM jamais fracassou, jamais fracassará, pois nada, absolutamente nada, lhe escapa ao controle, porque não de fora, mas, de dentro, ELE monitora todas as coisas, para que se cumpra a SUA vontade, que é uma só: estar com o Filho, para que o Filho esteja cada vez mais próximo dELE. E, no entanto, ELE está mais próximo do Filho, do que o próprio Filho está dele mesmo. Assim, podemos entender que a Queda, que aparentemente se opõe ao SEU plano de AMOR, na verdade, na verdade, o sustenta. Por isso tudo, podemos pensar a QUEDA como o segundo grande arquétipo no seio do UM. Nada, nem ninguém pode se opor ao UM, pois isso é impossível: ELE não tem ninguém à sua altura para isso, pois entendamos: ELE é o UM, o único UM, e no seu plano de SER não há nem haverá nenhum outro que o possa enfrentar. E menos ainda acima dele, pois ELE é primeiro.
De um lado, o UM, eternamente infinito, infinitamente eterno. O ABSOLUTO. Incriado. Imutável. E do outro, o verso do UM, o outro lado do UM, eternamente infinito, infinitamente eterno. O Universo. O RELATIVO. O Criado. Eternamente mutável. Infinitamente mutável.
UNIVERSO.
VERSO do UM.
O OUTRO LADO DO UM.
O POEMA DO UM.
Mas a Queda, por se situar no Relativo, tem necessariamente como companheira indissociável a Ascensão. Uma coisa só pode existir se com ela existir o seu contrário, no Relativo. Uma pessoa está mais abaixo em relação a outra, mas estará mais acima em relação a outra.
O UM, sendo UM, tem de ser justo, absolutamente justo.
Assim, para o UM, Queda é Queda. Ascensão é Ascensão.
Isso quer dizer que quem está em queda, está em queda, e não pode sair desse estado por si mesmo, por mais que queira. Toda tentativa no sentido de se livrar da queda redunda em fracasso. A justiça não permite que uma coisa se transforme na outra, a não ser que haja um motivo de força para isso. E até onde vai essa queda? Até onde o impulso inicial o determinar. Mas há de haver um momento em que o ser individuado, consciente do todo, refreia a queda e se estabiliza, para reiniciar o caminho de volta, ascendendo de plano em plano, de nível em nível, de dimensão em dimensão, ganhando, a cada ascensão, mais consciência de si mesmo e de suas portentosas e maravilhosas possibilidades de existir. O atrito do meio faz com que se cada vez mais individuocentrize, sentindo-se cada vez mais um centro de consciência em si mesmo. Porque a queda tem de ter um objetivo na economia sacrossanta do UM. E quanto maior a distância em relação ao UM (distância que em verdade não existe), menor o grau de consciência do indivíduo. Um animal deve ter mais consciência de si mesmo do que uma árvore, uma árvore mais do que um seixo, um seixo mais do que uma molécula, uma molécula mais do que um átomo, um átomo mais do que um elétron, um elétron mais do que um bóson, um bóson mais do que ... Mas isso tudo são especulações que ditam o possível chamado bom-senso. Para nós, humanos, uma queda é importante: a que Adão sofreu.
Consideremos agora que Adão foi criado à Sua imagem e semelhança, isto é, portando em si os mesmos atributos arquetípicos que eram próprios do Criador. Mas
em semelhança, e não em identidade. Não exatamente os mesmos, porque a individualidade precisava ser salvaguardada. E Adão foi criado trazendo em si, em potencialidade, os dois caracteres: o masculino e o feminino. Mas esses caracteres fazem parte arquetipicamente da mesma essência do
UM PRIMEIRO E ÚNICO?
O UM, sendo UM, traz em si, em potência, em equilíbrio, todos os contraditórios, todos os contrários, todos os alternativos. E no primeiro momento do FIAT primeiro ditado pelo AMOR, além do Pai e do Filho, havia o Espírito Santo, que, como vimos, em outra parte, tinha
necessariamente de trazer em si os dois caracteres que então havia: o do Pai e o do Filho. Dois caracteres que se opunham entre si, para
Eles poderem ter identidade própria, para eles poderem estabelecer uma barreira forte entre o Pai e o Filho, para salvaguarda da identidade de um e de outro. E tudo, no primeiro momento, se passou como se o Espírito Santo fosse o Pai-Filho do Filho. Estando o Pai mais próximo do Filho, e o Filho mais próximo do Pai. O Pai como o elemento gerador, criador, dispensador, doador. O Filho como o elemento gerado, criado, dispensado, doado. Um, o Pai, como doador; o outro, o Filho, como receptor. E o Espírito Santo trazia em si esses dois caracteres: o doador e o receptor. E esses arquétipos geraram os arquétipos complementares macho e fêmea. E, assim, podemos fazer a seguinte leitura do arquétipo representado na ilustração abaixo: o Filho foi gerado de um elemento macho (doador) e de um elemento fêmea (receptor) em equilíbrio de complementaridade, fazendo-se, para esse fim, uma só coisa, um só ser.
Quem é Deus?
O UM PRIMEIRO E ÚNICO é Deus?
Deus é o UM PRIMEIRO E ÚNICO?
Essas duas últimas perguntas representam a mesma coisa, tendo o mesmo significado?
Comecemos, examinando o conceito que de Deus faz um dicionarista, espelhando o consenso comum
refinado. No Dicionário Michaelis Eletrônico de Português, podemos ler:
Deus, sendo um um (sic), Ele tem em manifestação as três Pessoas santas. Como Pai é o criador; como Filho é o criado; como o Espírito Santo, é o preservador e sustentador: a criação, o multiplicador. Esse é o caráter (dizemos em termos mais do que aproximativos) de Deus.
Deus é criador, é criado, é criação. E Deus gera a partir de Sua mesma substância. Da substância única e una do UM, no plano do Relativo.
Assim, chegamos a uma conclusão. Deus é um UM. O UM é Deus. Se Deus é um um
(sic), então há mais de um Deus? Não!!! Sim!!! Não!!! Sim!!! ... E poderíamos realmente prolongar essa seqüência ao infinito, e não chegaríamos a uma resposta definitiva, pois é exatamente nessa tensão do indeterminado que reside a resposta. Mas isso nós não podemos entender: é como uma fórmula de Física Quântica: não é para ser entendida, mas para ser saboreada.
Continuemos a examinar o texto sagrado:
Continuemos nos guiando pelo texto sagrado:
Da terra foi formado, incorporando em si todos os níveis de consciência já existentes e em manifestação. Como vertebrado mamífero foi ele formado.
Mas Adão recebeu além disso, dessa herança do chão, alguma coisa mais, que o diferencia de todos os seres vivos: o sopro divino. O mesmo Espírito que anima o nosso Deus, anima a Adão, a todos os Adãos. Todo homem, tendo herdado a formação básica de Adão, tem em si os mesmos desejos e motivações que o animavam. Adão chegou aqui, vindo de um plano de causação mais baixo, em que tinha consciência do Todo, mas não tinha consciência de si mesmo.
E Deus colocou o homem no Jardim do Éden:
Gn 2:17 mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque
no dia em que
dela comeres,
certamente
morrerás.
Fazia coisas boas, e fazia coisas más, mas não sabia que as estava fazendo. Para ele as coisas aconteciam fora dele, sem ter qualquer nexo com ele. Ele era portador de uma consciência adâmica, situada um pouco acima da dos ditos animais superiores. Ele não tinha a consciência do bem e do mal, embora os praticasse automaticamente, levado por instintos e impulsos interiores. Havia o exterior e havia o interior, mas não havia uma comunicação de duas mãos entre uma coisa e outra. Adão negava
(temporariamente) em si, em manifestação, uma das qualidades básicas, primordiais, arquetípicas do
UM PRIMEIRO E ÚNICO: a RESPONSABILIDADE.
(O UM PRIMEIRO E ÚNICO, sendo UM, tem necessariamente de responder por tudo que é, por tudo que faz, por tudo que quer, por tudo que pode. O UM não teria como se justificar, atribuindo algo a outrem, simplesmente porque não há um outrem. A justificativa não faz parte da essência do
UM PRIMEIRO E ÚNICO. (Como homem falamos.))
E isso era uma impossibilidade cósmica. Adão era, sim, responsável pelos atos que cometia, mas não sabia disso: edênica era a sua consciência. Quem já teve uma experiência onírica (e todo mundo sonha, já sonhou) tem uma boa idéia do que aqui se diz. Sendo filho, trazia em si em dominância o arquétipo QUERER, desta maneira, apenas fruindo a existência, a vida. Adão meramente passava pela vida, não sentindo em si os atritos que a mesma vida suscitava. Adão teria de passar por uma escola para aprender a grande e necessária lição da responsabilidade. Adão precisava cair dentro de si mesmo, cair em si (como hoje dizemos), para, de dentro de si mesmo, poder atribuir a si ou a outrem a ação que fazia a si mesmo. O Senhor tinha preparado para Adão um caminhar longo e heróico em busca de si mesmo. Como despertar um ser sonambúlico do seu estado normal de existir? Tem de ser alguma coisa, algum recurso, que seja próprio do
UM PRIMEIRO E ÚNICO, pois nada existe fora dELE. E que recurso seria esse? Entendamos o problema: um ser de consciência edênica, que meramente assiste às coisas que
se passam ao seu redor, sem jamais atribuir nada daquilo a si mesmo, pois não está dotado dessa capacidade a que podemos dar o nome de consciência moral, precisa de um estímulo externo para começar a fazer a ligação entre o fora e o dentro, entre o ser que meramente frui e a coisa que acontece ao seu derredor. Poderíamos pensar na curiosidade, mas o
UM PRIMEIRO E ÚNICO não (como homem falamos) pode ter arquetipicamente essa qualidade, pois tudo sabe de Si mesmo. O que houve de grandioso no primeiro momento do FIAT ditado pelo AMOR? O que houve foi uma aparente (isso para o
UM PRIMEIRO E ÚNICO) separação dentro dELE, que se fez Pai e o Filho, o que determinou uma relação dinâmica entre um e outro. Para poder dar individualidade ao Filho, o Pai teve de permitir que o Filho se opusesse de alguma maneira a Ele. Pois para ter individualidade, o Filho teve de ter um livre QUERER, que se opunha, ou podia se opor, ao FAZER do Pai.
E foi esse livre QUERER (operacionalização um pouco menor [como homem falamos] do AMOR), que se opôs ao FAZER, gerando a semente da discordância. Eu quero, mas já não quero exatamente o que tu fazes. Nestes termos bem humanos poderia ser colocada a questão que esbarra num arcano sagrado, sacratíssimo. Discordar, significa, apenas, ter um coração diferente
do de outrem, necessariamente diferente, porque, em caso contrário,
o ser humano perderia a individualidade, a mesma identidade de si mesmo. E
de discordar, por desdobramento de arquétipo, gerou opor-se, negar. Para ser indivíduo, o indivíduo, tem necessariamente de negar em si mesmo qualidades e coisas que pertencem a outrem. Se não houver negação, não há individuação. E vimos que o que separa-une o FAZER ao QUERER é o PODER. Temos aí o recurso básico de que dispunha o
UM PRIMEIRO E ÚNICO, arquetipicamente falando: a tendência à oposição e o poder querer fazer próprio do Filho. (E do Pai. E do Espírito Santo.)
Adão, como Filho, estava arquetipicamente aparelhado para principiar a jornada que o Pai lhe preparara. Ele trazia dentro de si, em semente, a possibilidade de se opor e a possibilidade de negar. Ele necessitava agora de um outro ser criado
à sua mesma imagem e semelhança e que estivesse equipado com as suas mesmas potencialidades. Por isso, Deus, sabendo que já não era bom que Adão estivesse só, para dar um empurrão no processo, Ele viu que era bom que o homem tivesse uma ajudadora que lhe fosse idônea. Uma tradução (ARC) do mesmo João Ferreira de Almeida diz: "uma adjutora que lhe esteja como diante dele."
Vejamos o que diz a Vulgata:
Será de proveito examinarmos também a versão LITV (Tradução Literal da Bíblia Toda):
E Deus, continuando com seus altos propósitos fundamentados no AMOR, continuou a sua obra, sempre respeitando o padrão básico: o um gera o dois por meio do três. No caso, Adão gera a Eva por meio de Deus:
Gn 2:22 e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem.
Deus tinha um um (sic) à sua disposição, um um (sic) que trazia em si, em potência, tudo o que o UM é. E era a partir desse um que Deus tinha de continuar a sua obra, pois só o um é princípio. Assim, a partir de uma parte de Adão que Ele selecionou, seja uma costela literal, seja um elemento portador de osso, carne e sangue, seja qualquer outro recurso metaforicamente expresso, que Deus já tinha colocado em Adão provendo
previamente para esse objetivo, Ele formou a mulher. Notemos que o verbo aqui usado é
formar, o mesmo que foi usado para Adão. A mulher já tinha sido criada em Adão, agora Deus lhe dava forma, aspecto, individualidade própria, mas, tal como Adão, um ser a se complementar (restaurando o um) a partir desse ato divino, para que haja no princípio, não dois, mas um
um.
"O segundo passo criativo na constituição do homem como a cabeça natural de uma raça é agora descrito." [...] "O homem aqui passa da solidão para a sociedade, da unidade para a multiplicidade." [...]
Depois disso, de ser apresentado à mulher, que correspondia, em forma e em substância, ao arquétipo feminino de que era (é) portador (agora não mais como caráter dominante), sabendo do que tinha acontecido, pois estava ainda em estado de união, inclusivamente cognitiva, com o Criador,
Gn 2:23 Então disse o homem: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.
O homem, totalmente consciente do que tinha se passado, pois era um com o Senhor, percebeu a necessidade de restaurar o um, para que fosse possível o princípio da geração. E estabeleceu, em sintonia com o Senhor, um decreto eterno:
Gen 2:24 Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne.
[Esse decreto será retomado por Paulo, na epístola aos efésios, conferindo-lhe um sentido mais ... cósmico, mais próximo em relação aos arquétipos primeiros:
Ef 5:31 Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne.
O homem, para se multiplicar, necessita de, deixando quem o gerou, se unir à mulher, para restaurar a unidade, para poder ser princípio de um novo ser. O homem que coabita com uma mulher é com ela uma só carne, um só sangue, podendo com ela dar início a um novo ser de mesma espécie, e sujeito também, por sua vez, à complementaridade. Aquela mesma complementaridade que se acha em arquétipo santo no Espírito Santo. E, como ainda não tinham sofrido a queda, para eles não havia pecado, nem nada que o determinasse.
Gn 2:25 E ambos estavam nus, o homem e sua mulher; e não se envergonhavam.
(O verbo envergonhar no hebraico provém de uma raiz (bush), que significa propriamente, segundo Strong, empalidecer e, por implicação, ter vergonha de, estar envergonhado e, também, causar vergonha a. E esse último sentido está bem de acordo com o espetáculo terrível que estamos presenciando neste momento da nossa história.)
Como não tinham noção do bem e do mal, não conhecendo essas categorias ético-morais em sua vida, não mostravam qualquer sinal de vergonha, agindo naturalmente diante de sua nudez, tal como o fazem os animais.
Gn 3:7 Então foram abertos os olhos de
ambos, e conheceram
que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si
aventais.
E que fruto foi esse que lhes abriu os olhos, de modo que vissem com novo modo de olhar, que antes não tinham? O que se diz é que foi um fruto, algo produzido pelo fruir, pelo querer, pelo livre-querer de que eram dotados, já que eram filhos.
E ao Filho pertence o arquétipo QUERER, como já o vimos. E o primeiro conhecimento que tiveram era que estavam nus, um diante do outro. Pela primeira vez perceberam que tinham revelado um ao outro algo que não era bom, do bem. Perceberam que tinham desobedecido a uma ordem expressa de Deus. Perceberam que o seu querer não estava de acordo com o fazer do Pai. Tinham feito algo que não deviam ter feito, e sentiram o impacto disso, um em relação ao outro, e procuraram ocultar um do outro o que tinham feito. Mas isso era impossível em verdade, pois um bem conhecia o que o outro tinha feito. E isso foi motivo de vergonha para eles, que buscavam ocultar um do outro as suas vergonhas. E essa ocultação da verdade para o outro foi a semente da hipocrisia, que logo haveriam de conhecer, em toda a sua
realidade. Os aventais são usados na frente do corpo, do lado onde estão os olhos. O outro lado, o oculto, não é necessário esconder. Assim, esconderam o manifesto, mas não ocultaram o oculto, com esse ato reconhecendo que já não eram totalmente conhecidos um do outro. O primeiro conhecimento foi a semente da hipocrisia. E já não se achando dignos de ser conhecidos um pelo outro, sentiram vergonha um diante do outro. Já não eram inocentes, pois pela primeira vez faziam a ligação entre um ato exterior e o seu interior, percebendo que havia uma relação entre eles, e isso provocou o sentimento em face de algo exterior a eles. Antes sentiam, mas não conseguiam atribuir esse sentir a si mesmos. Agora uma nova possibilidade se abria diante de suas consciências: a possibilidade de sentir em relação a alguma coisa exterior a eles. Agora
conheciam a vergonha. Antes talvez até soubessem que ela existia. Mas grande distância há entre o saber e o conhecer! Um é de caráter mental, atuando com imagens da realidade; o outro é de caráter vivencial, atuando com as mesmas realidades em si.
A mentira, ou meia-verdade, já fazia parte consciente dos seus seres individuocentrados.
Gn 3:12b A mulher que me deste por companheira deu-me
a árvore, e eu comi.
Adão responde, transferindo a culpa diretamente para Eva e indiretamente para Deus. Estava inaugurado o recurso da justificativa para o homem.
È de se notar que Adão já não tem mais o compromisso com a verdade, pois mente
quando diz que comeu a árvore. Na verdade, ele comeu da árvore! Então Deus volta-se para Eva.
Gn 3:13 Perguntou o Senhor Deus à mulher: Que é isto que fizeste? Respondeu a mulher: A serpente enganou-me, e eu comi.
E a mulher se justifica, atribuindo a culpa à serpente, que tinha sido criada por Deus.
Gn 3:22 Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente.
Deus conhece o bem e o mal: Deus pratica o bem e o mal, sabendo bem o que está fazendo. Deus se utiliza do bem e também do mal para atingir os seus propósitos, pois para Deus tanto o bem como o mal operam em Seu favor: não há nada no universo manifesto por Deus que não esteja a Seu serviço. Não nos esqueçamos: o universo (e tudo aquilo que ele contém) é o verso do UM, que o engendrou. O homem passou a conhecer o bem e o mal: a ter a possibilidade de praticá-los tendo consciência do ato praticado. Mas Deus não queria - e isso não podia acontecer, porque estava fora de seus propósitos - que o homem vivesse eternamente no estado em que ele estava. Não era esse o estado final do processo que Deus preparara com tanto carinho e sabedoria para o homem. Deus não queria que o homem vivesse eternamente sufocado pelos males que haveriam necessariamente de se abater sobre ele: tinha buscado o mal; logo o mal o haveria de buscar. Era preciso que o homem morresse, deixasse esse plano de prática. Para que, alijando-se da justificativa (que só servia, só serve, para encobertar o mal, perpetuando-o, pois estando no plano da Ilusão, toda mentira o alimenta e o sustenta), desenvolvesse lentamente, embora, o sentimento de
responsabilidade. Por que esse sentimento é tão valioso na economia do Cosmos? Porque ele é um dos caracteres inalienáveis do UM primeiro único, de Deus, e é desejável que o homem o desenvolva em alto nível.
Gn 3:23 O Senhor Deus, pois,
o
lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado.
Isso quer significar que Deus só lançou fora do jardim a Adão? Certamente
que não. Então haveria aí um cochilo de expressão? Certamente que não:
Deus é plena consciência, e jamais cometeria um erro de expressão desse tamanho!
É que aí está uma mensagem criptografada, e que só pode ser entendida com base
nos arquétipos aí envolvidos. Deus lançou fora, por não poder pertencer ao Éden
o caráter masculino: o de fazer, o de invadir, o de agir contra outrem. O
caráter feminino, o de receber, de aceitar, obedecer, e outros que tais, podem e
devem atuar no Éden.
Gn 3:24 E havendo lançado fora
o homem,
pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins, e uma espada flamejante que se
volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida.
Expulsa o homem, e não expulsa a mulher? Aqui podemos entender o termo
homem como genérico, cobrindo tanto o varão como a varoa. Mas outro sentido mais profundo existe nessas palavras. Ele expulsa o homem, o elemento doador, fazedor, invasivo. Ma não expulsa o elemento a quem é doado, o elemento receptor. Ao homem (termo genérico agora) não é bom o fazer, a presunção de fazer; ao homem é bom o receber, pois é isso que corresponde à verdade para quem habita um universo: tudo lhe é dado, e nada pode fazer que já não tenha sido feito. Isso faz parte da própria substância do universo, que é a substância de Deus.
Jo 1:3 Todas as coisas foram feitas por
intermédio dele, e
sem ele
nada do que foi feito se fez.
Esse versículo já foi bem examinado em mensagem anterior.
Mt 7:16 Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
Não existe conseqüência sem causa.
Lá [Gn 1:27] "afirma-se que o homem foi primeiramente criado à imagem de Deus, e então que ele foi criado macho e fêmea. Desta presente passagem aprendemos que estes dois atos de criação foram distintos em relação ao tempo. Primeiro, vemos que o homem foi realmente
um em sua origem, e continha em esta
unidade
a perfeição da humanidade. Não parece, contudo, que o homem fosse assim constituído por natureza para dar parto a
um
outro da mesma espécie através de seu inerente poder. De fato, se fosse assim, o outro teria sido não uma fêmea, mas
um outro ser humano em todo respeito como ele mesmo; e ele assim semelhado às plantas, que são capazes de serem propagadas por um botão. Além disso, ele teria sido dotado com um poder diferente do da sua posteridade; e, assim, a cabeça não teria correspondido com os membros da raça."
"A narrativa, contudo, opõe-se a esta maneira de ver a natureza do homem. Pelo contrário, a maneira pela qual a mulher entra na existência, é diretamente imputada ao
Fazedor original. Uma parte do homem é tirada para esse propósito, uma que pode ser utilizada sem interferir na integridade de sua natureza. Não se constitui manifestamente uma mulher pelo mero ato da separação, como se diz que o Senhor Deus construiu-o em uma mulher. É desnecessário, portanto, especular se a parte tomada era literalmente uma costela, ou alguma outra parte do lado designadamente colocada ali pelo providente Criador, para o propósito de se tornar o rudimento de uma mulher adulta. É expressamente chamada, não uma costela, mas uma das costelas dele; e isso evidentemente implica que ele tinha tinha outras partes similares. Isto nos liga, pensamos, à costela literal de osso e carne. E, assim, de acordo com o relato, temos, primeiramente, o homem solteiro criado, o representante pleno de fonte potencial da raça; e, então, a partir desse
um, da maneira descrita, temos o macho e a fêmea criados."
"A unidade
original do homem constitui a estrita
unidade da raça. A construção da costela em uma mulher estabelece a
individualidade da pessoa do homem, antes, bem como depois, da remoção da costela. A seleção de uma costela para formar-se em uma mulher constitui-a, em um alto sentido, como companheira de ajuda para ele, em pé de igualdade com ele. Ao mesmo tempo, a construção posterior da parte em uma mulher determina a personalidade e
individualidade
distinta da mulher. Assim, percebemos que a raça inteira, e mesmo a mesma primeira dela, tem sua
unidade
essencial e representativa no primeiro homem."
Ef 5:32 Grande é este mistério, mas eu falo em referência a Cristo e à igreja.]
Por isso está escrito:
Mas... No capítulo três de Gênesis vemos o que aconteceu. A serpente enganou a Eva, dizendo-lhe que podia comer do fruto, que ela não morreria (como Deus lhes tinha dito), apenas ficaria conhecendo o bem e o mal. E ela sucumbiu ao encanto do fruto, vendo que era de aparência agradável e bom para dar entendimento, e comeu dele. E deu para Adão, que também comeu dele, sem qualquer protesto ou objeção.
Reflitamos. A serpente mentiu para Eva? Sim, parcialmente. Disse verdade quando disse que conheceriam o bem e o mal. Disse mentira, omitindo o fato de que com isso também conheceriam a morte. Tentou-a, usando da verdade num contexto de mentira. Esse o grande trunfo do Tentador: falar meia-verdade, ou meia-mentira. E ele sabe muito, muito bem usar este binômio: verdade + mentira! Acautelemo-nos, pois das meias-verdades.
E o que atraiu a Eva em face do fruto? A aparência e a certeza de que a árvore era boa para dar entendimento. De onde ela teria tirado esse entendimento? Como era uma com Deus através de Adão, ela já sabia todas as coisas, mas não as conhecia. E, como não sabia o que era conhecimento, pois isso implica praticar alguma coisa com consciência centrada do fato, achou que lhe ia dar entendimento. Confundiu entendimento com conhecimento, e nisso se deixou enganar. Conhecer alguma coisa é diferente de entender uma coisa. Conhecer uma coisa é praticar essa coisa tendo consciência da coisa praticada. Entender uma coisa é estender-se em direção a essa coisa para ter dela uma melhor imagem mental,
noética. (E compreender, apenas para fixar conceitos básicos, é abranger a coisa, cercá-la, tendo dela todo entendimento. Compreender é só para Deus.) A serpente provocou em Eva essa confusão de conceitos, e ela se deixou apanhar pelo engano. E Adão também deixou-se levar pelo engano, não contestando, porque não podia contestar, tanto quanto Eva, a respeito do assunto, já que eles não tinham conhecimento de nada, sendo totalmente inocentes. E a serpente, achando-se superior aos desígnios de Deus, agiu exatamente do modo como Deus queria que ela agisse.
Adão caía em si.
Eva caía em si.
Quando Deus se encontra novamente com eles, pergunta a Adão onde está. Ele diz que teve medo, porque estava nu e tinha se escondido. Deus lhe pergunta como sabia que estava nu, e se tinha comido da árvore proibida, e Adão responde:
O sentimento de culpa buscava sua atenuante na justificativa. O pecador buscava uma justificação, como busca desde então.
Adão e Eva estavam prontos para viver fora do Paraíso da inocência. E assim são expulsos de lá para que não houvesse um dano maior do que Ele estabelecera em Seus propósitos.
O homem já tinha adquirido as seguintes qualidades comportamentais: a
desobediência, a temeridade, a dúvida, a justificativa, a capacidade de acusar a
outrem, a hipocrisia, a mentira,
a vergonha. Ele já estava devidamente equipado para seguir o seu caminho
em busca de si mesmo.
(Desse assunto, para não abrirmos um parêntesis muito grande, falaremos em uma próxima mensagem.)
E, assim,
Por isso está escrito, como já vimos acima:
Mas frisemos um ponto. Tudo já foi feito por Ele. E nada do que foi feito sem Ele se fez. Nada, absolutamente nada! O homem, quando pensa estar fazendo alguma coisa, na verdade, não está fazendo: ele está apenas escolhendo, pois, sendo filho, isso é a única coisa que ele pode fazer: não fazer, mas receber. Apenas e tão somente receber. O homem escolhe ou o bem ou o mal, e arca com as conseqüências da sua escolha. Se escolher o bem, bem lhe irá a vida; se escolher o mal, mal lhe irá a vida. Porque no grande celeiro da existência, cada item é uma semente de si mesmo. Como disse o Senhor Jesus:
Voltando ao eixo da questão.
E ao homem como agora está, conhecedor (praticador consciente ou
semiconsciente) do bem e do mal, é impossível retornar ao Éden. Pois agora outro é o seu caminho. Com novas possibilidades que não havia manifestas no Éden. Para ganhar uma nova dimensão de existir, o homem precisa de saber-se não fazedor, mas escolhedor. Com essa noção, buscar o perdão de Deus por todos os males que tenha provocado. E
receber, aceitar, o Senhor como seu Salvador e Redentor.
E preparar-se para partir para uma nova morada mais gloriosa.
Com ósculo santo,
o peregrino