Da necessidade da ascensão


Mensagem 9


Partamos de um texto já várias vezes examinado nessas mensagens, com vistas à reflexão de um assunto de fundamental importância para entendermos melhormente o que somos, e o para que vivemos e existimos. Somos, cada um de nós, homens, um um (sic) que se relaciona com muitos outros uns, estabelecendo com eles relações de input e de output:

ora, recebemos estímulos de fora e de outros; ora emitimos impulsos para fora e para os outros. O esquema acima sugere um equilíbrio, um ritmo correto, sempre o mesmo, mas na realidade não é isso que acontece: às vezes, interferimos demais nas coisas e nas pessoas, às vezes somos invadidos demais pelas coisas e pelas pessoas. O homem, de maneira geral, vive em total desequilíbrio em relação ao input e ao output. Mas esse não é o problema maior para o homem. O problema maior é que ele, enquanto atua, está criando situações para si e para os outros. Tudo o que o homem faz, já que ele é um um (sic) , ele faz primeiramente para si, e secundariamente para a pessoa com que esteja relacionado naquele ato. O homem atua na realidade e na relação com os outros homens usando para isso o corpo, os sentidos, os sentimentos, as imaginações, os pensamentos, as palavras. E todos esses recursos, sendo ele um um (sic), são basicamente criativos. Enquanto o homem atua, ele está modificando a realidade que o envolve e a si mesmo. Aquilo que faço a outrem ou de bem ou de mal é altamente criativo, já que transforma o meu universo de manifestação, incorporando-se aquele ato no meu viver. Se eu ferir um homem, na verdade, não o estou ferindo, estou ferindo a mim mesmo. Pois tudo que um um (sic) faz, ele o faz para si mesmo. Se sinto repulsa por alguém, na verdade, estou sentindo repulsa por mim mesmo, e algo há de acontecer na minha vida para que eu seja repulsivo a outrem. Se desprezo a alguém, estou desprezando a mim mesmo e logo toparei na minha vida com uma situação em que eu sou desprezado. Se falo mal de alguém, estou falando mal de mim mesmo, e logo terei a surpresa de saber que estão falando mal de mim. Se eu desejo mal a alguém, estou desejando mal a mim mesmo, e logo receberei aquele mal, num momento talvez de que não me lembre de o ter provocado, mas ele não deixará de se lembrar de mim. Se imagino uma situação ruim para mim ou para alguém de quem gosto, estou na verdade criando essa situação para mim e para aquele de quem gosto. Se me preocupo demais com as coisas que acontecem ao meu filho, logo receberei uma situação que confirma aquelas preocupações. O homem é um ser essencialmente criativo (cocriativo, em verdade), e cria através de todos os recursos de que dispõe para se comunicar com o mundo exterior ou interior.
Por isso, porque somos criativos vinte e quatro horas por dia, precisamos vigiar com cuidado os nossos pensamentos, os nossos atos, as nossas imaginações, as nossas palavras. Quem gosta de dizer palavras impróprias, ou as usa para desabafar, ou para tornar mais picante o seu dizer, está atraindo para si o que aquelas palavras significam. Por isso, Jesus Cristo nos alertou:

Mt 5:22 Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno.

Muitos dizem que dizem por dizer, sem estar realmente ligado naquilo que dizem, mas isso não existe: todo um é totalmente responsável por tudo que diz, e dele será cobrada a conta, num momento em que não espera. Para o um, que cada um de nós é, não há desculpa, não há justificativa que possa sanar o problema. Entendamos de uma vez por todas: todo output gera um input correspondente, que se há de manifestar no nosso universo, no ponto de onde ele saiu. E esse ponto não pode ser outro senão aquele que emitiu o output.
Não podemos culpar nada nem ninguém pelas mazelas que nos atingem. Nós, como um um (sic) que somos, somos totalmente responsáveis por tudo aquilo que se manifesta em nossa vida, em nosso viver. Se alguém levou uma facada de outra pessoa, em sã consciência ele não pode culpar a outra pessoa, ele tem de saber que o culpado primeiro e único é ele mesmo, por mais duro que isso possa parecer. A verdade é que não há coitadinhos neste mundo, pois não existe conseqüência sem causa. Se alguém está doente, ele deve se tratar, para se curar, mas seria muito bom que ele soubesse, sem qualquer análise ou consideração prévia, que ele é o culpado daquilo, o responsável por aquilo. Essa é uma verdade dura de receber, mas é assim que opera o UM em sua infinita sabedoria.
O UM não quer coitadinhos, e não os aceita: o UM quer pessoas responsáveis, pessoas que assumam varonilmente a responsabilidade que lhes é inerente por direito de herança. Vimos que o UM PRIMEIRO E ÚNICO  é totalmente responsável por tudo aquilo que acontece em TUDO O QUE É. O homem é responsável por tudo aquilo que acontece no universo em que ele está. Vamos agora esclarecer melhor esse ponto. O homem é responsável por sua vida, por sua existência, e por tudo que acontece nela. Se a mulher trai o marido, o maior responsável não é a mulher, mas o marido, e o melhor que ele faz é atrair para si essa responsabilidade. A mulher também é responsável, mas isso em relação ao seu universo de existência. Cada um deve assumir a responsabilidade por tudo que lhe acontece, sem pensar ou se preocupar com o fato de a outra pessoa assumir ou não tal responsabilidade. Aquele que pretende caminhar no caminho da verdade, precisa estar bem ciente do que ele significa em face das coisas que lhe acontecem. Até onde vai a responsabilidade de alguém? Até onde ele conseguir chegar. Quanto maior a responsabilidade que alguém assumir, maior é a sua realização como um um (sic). Se eu conseguir me sentir responsável por um massacre que ocorre na China, isso é um sinal de que estou mais próximo de ser eu mesmo com toda a integridade possível. O homem precisa saber-se responsável por tudo o que acontece no seu universo de manifestação, para poder se livrar das conseqüências dessa responsabilidade, que lhe é inalienável.
Todo um é responsável pelo seu universo de manifestação.
Vivemos em um universo que foi criado pelo Verbo, pela Palavra, conforme nos relata João. E quem é esse Verbo? João mesmo nos revela:

Jo 1:10 Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu.

Ele estava no mundo. O verbo no pretérito imperfeito do indicativo nos diz que o estar dele ainda não se cumpriu integralmente, e jamais se cumprirá: Ele esteve, está e estará para sempre no mundo, ao menos enquanto este mundo for mundo, o mundo que ele é. Jesus não meramente esteve no mundo, e foi embora. Não é isso que está dito ali. Ele realmente ascendeu ao Céu, mas continua ainda aqui conosco, pois o passado ainda não se acabou: continua em processo.
E o mundo foi feito por ele. Agora o verbo está no pretérito perfeito do indicativo. E isso nos diz que a ação em foco foi totalmente realizada, nada ficando por se fazer. Tudo já está acabado, pronto, consumado. E nada, nem ninguém, pode mudar qualquer coisa que seja. O "destino" de cada ser humano já está perfeitamente determinado, e não há nada que ele faça que pode mudar isso. O mundo e tudo aquilo que ele contém já está no passado perfeito de Deus, de nosso Deus. E não pode ser mudado. Temos de entender: tudo o que estamos vivendo e vamos viver já aconteceu! Isso é algo que não cabe no nosso pensar, pois, sendo um um (sic), o Filho, temos livre-arbítrio. Mas maior que qualquer arbítrio é o decreto divino que nos diz que já aconteceu. O homem não consegue conciliar o já ter acontecido com o livre-arbítrio, mas não nos deixemos enganar pela limitação de nossos pensamentos.
E o mundo não o conheceu. O mundo não conheceu aquele que esteve, está e estará aqui. O verbo outra vez está no pretérito perfeito do indicativo, e isso nos diz que o declarado é algo acabado, consumado, definitivo, sem possibilidade de ser negado. O homem, por mais que cresça, jamais chegará a conhecer plenamente o Deus deste universo, pois Deus é infinitamente infinito. Transcendentalmente infinito. O homem poderá em uma viagem infinita assintotar o Senhor Deus deste universo, mas jamais o atingirá, porque todo um que viaja no seio do UM PRIMEIRO E ÚNICO  é transcendental, sendo mais a cada momento, sem jamais deixar de ser o mesmo eternamente. O nosso Deus se manifestou em seu universo como Jesus Cristo, para cumprir aquilo que o seu Pai lhe mandara fazer.
Mas todo um manifestado em universo de existir é necessariamente polarizado, repetindo em si o padrão do Arquétipo Segundo. Ele apresenta uma região mais leve, a que se volta para o UM de quem o Universo é Filho. E uma região mais pesada, que se volta para o UM de quem o Universo é Filho. Todo Universo, sendo o verso do UM, tem como referenciais básicos o Pai, de onde veio, e o Pai, para onde irá. O Universo em que vivemos e existimos foi criado por um Demiurgo, para agasalhar em si uns que vinham de um plano mais distante do UM. Esse SER a quem chamamos Demiurgo, por ser criador e organizador de universo, é o mesmo Filho primeiro e único do Pai primeiro e único. Vimos em outra parte que só existe um Filho, que se manifesta, multidimensionalmente, em Igreja, em todos os níveis de causação que existem no seio do UM PRIMEIRO E ÚNICO
. O objetivo do Filho, em todo plano de causação em que está é fazer com que os uns de todo plano avancem em consciência egocentrada de si mesmos, para atingirem a glória que lhes está inalienavelmente reservada.
E em todo plano de causação, há em referência a ele um plano que lhe é superior, que é a sua meta (provisória), e um plano que lhe é inferior, que é a fonte dos desafios que deve enfrentar para ser promovido do plano em que está para o plano que lhe é superior. Assim, todo universo de causação tem em relação a ele mesmo dois referenciais: o de baixo, que é dominado pela Queda, e o de cima, que é dominado pelo Pai. (Tenhamos em mente que no seio do UM PRIMEIRO E ÚNICO todo ser se manifesta em Igreja, em pluralidade de seres de mesma espécie e estatura. E assim também a Queda.)

Mar 5:9 E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu-lhe ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos.

E, como derivação direta do Arquétipo Segundo, em que sob uma substância mais leve, mais luminosa, se sobrepõe uma substância mais pesada, menos luminosa, mais penumbrosa, mais trevosa, assim também no nosso plano de causação se manifestaram duas regiões: uma superior, mais leve, mais luminosa e uma mais pesada, mais trevosa. E, assim, no nosso universo de causação, existe a região dos seres de mais luz e a região dos seres de menos luz: cada qual com seu mister: uns atraindo para o baixo, outros atraindo para o alto. E no meio dessas forças antagônicas entre si, o homem, navegando o seu destino.


Em um universo de causação encontramos seres representativos de todos os demais universos de causação, havendo nele como uma espécie de hierarquia, em que todos colaboram para a promoção dos uns mais elevados na escalada da consciência própria.
Atualmente, neste universo de causação em que ora existimos, temos duas forças a nos atrair: uma de baixo para nos reter aqui, e outra de cima para nos fazer ascender deste plano. A de baixo é representada pelo Diabo e seus sequazes, a de cima é representada por Jesus Cristo e os seus exércitos e  iniciados (Não haja qualquer conotação mística nessa palavra). A de baixo nos tenta com tudo que é prazer ancorante; a de cima nos oferece a alternativa do gozo liberante. E no embate dessas duas forças poderosas vive o homem atualmente, desde que Adão entrou nesse mundo.
A parte de baixo, ínfera, é o Inferno. A parte alta, súpera, é o Céu, o Reino dos Céus.
Como vimos, Adão chegou inocente, tendo pouca consciência de si mesmo e de suas potencialidades. De holocêntrico, precisava passar a egocêntrico, a individuocêntrico. E isso já foi conseguido há muito tempo. Essa era a primeira fase do processo, que já se cumpriu plenamente, já não tendo razão para continuar a operar. Mas para cumprir a primeira fase, o homem se enredou nas teias da justiça em tal grau que já não podia mais delas se libertar de motu proprio.
Atingida a madureza do tempo, tornava-se necessário o início da segunda fase: recolher o fruto do individuocentrismo no holocentrismo. O homem já estava pronto, equipado, para, sem perder a sua consciência egocentrada, adquirir a consciência do UM de quem viera.
Era o momento ótimo da intervenção direta do Demiurgo no Seu Universo, carne da Sua carne, substância da Sua substância.

E qual teria sido a finalidade da Sua vinda a este mundo, criação do seu Verbo? João nos diz com todas as letras:

Jo 1:29 No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Jesus veio como um Cordeiro, que se deixa matar sem soltar um balido. Como o cordeiro que era sacrificado como expiação para os pecados de Israel. Mas o que devemos, no momento, enfatizar é que Ele veio para tirar o pecado do mundo. Aqui não diz que veio simplesmente para libertar ou muitos ou todos pecadores, mas para livrar o mundo como um todo do pecado, da possibilidade de pecar. Ele veio, na verdade, para extirpar o pecado pela raiz e todas as suas conseqüências. Ele não veio para um povo escolhido, ou para os seus escolhidos, Ele veio para o mundo! A sua missão era eliminar o pecado, e não o pecador. E tinha Ele poder para tão grande obra? Tinha, pois, sendo o criador, o fazedor de tudo que existe neste imenso universo, Ele podia atrair sobre si a responsabilidade de tudo que nele havia acontecido, estava acontecendo e iria acontecer. E em verdade! E o Diabo sabia disso. E procurou por muitos meios desviá-Lo do Seu intento. Como o UM criador deste universo, Ele podia assumir a responsabilidade de tudo que havia, há ou ainda havia de haver no Seu universo.
E, como homem, sujeito a todas as tentações a que o homem está sujeito, Ele poderia oferecer-se inocente como pagamento de todo débito contraído por todo homem, de todo tempo, de todo lugar. Tendo sobre si os pecados de todos de todos os tempos e todos os lugares, mas estando inocente de cada um deles, não os tendo praticado diretamente, Ele teria de morrer, porque quem peca tem de morrer, para tentar pagar o débito cármico contraído em outra(s) vida(s). Mas, como era inocente, não tendo débito cármico nenhum direto, Ele não poderia ser preso pela roda da carne. A morte não teria qualquer poder sobre ele, tendo de o libertar. E Ele ficaria exatamente como veio: vivo, eternamente vivo, com completo domínio sobre a morte e sobre a Queda. Mas com uma diferença básica: agora Ele era o Redentor, pois tinha pagado  o preço de pecado com o seu próprio sangue.
E Ele, como homem, se libertou da morte, ingressando na vida eterna.
E Ele, como o UM, como Filho de homem, de quem todos viemos, pode agora recolher em si aqueles que o aceitarem como Redentor e Salvador.

Ef 5:31 Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne.
Ef 5:32 Grande é este mistério, mas eu falo em referência a Cristo e à igreja.

Logo depois de Adão ser apresentado à mulher que saíra de uma costela sua, ele, ainda um com o UM deste universo, como já vimos, proferiu um decreto:

Gên 2:24 Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne.

Um decreto que agora Paulo retoma, dando-lhe o sentido mais profundo, que antes era apresentado em sua formulação arquetípica. Quem é pai para Adão? Quem é a mãe para Adão? Porque naquele momento ele estava se referindo primeiramente a ele mesmo e à sua situação. Antes ele não tinha mulher. Agora que passava a ter mulher, ele proferiu esse estranho decreto, tomando como ponto de partida, logicamente, a situação em que se encontrava naquele momento. Eva (que assim será nomeada mais tarde) passou a ser para Adão, o seu complemento, a parte sem a qual ele não seria inteiro, não seria um um (sic) completo. E Adão ajuntando-se a Eva, teve de deixar seu pai e sua mãe. O pai, nós já vimos, é o arquétipo que representa o elemento positivo, criador, gerador, doador, fazedor, emissor. E a mãe, sendo mulher, representa unida com o varão, o elemento negativo,  receptor. O que distingue a esposa do esposo é que um é o doador (Adão deu da sua carne para que Eva fosse formada), e a esposa o receptor (Eva recebeu da carne de Adão para ser formada). Assim, o pai e a mãe, representam para o filho, o elemento gerador, que em complementaridade funcionam. Todo filho, sendo homem, deve procurar uma mulher com a qual há de se unir, para se restaurar a unidade na complementaridade, para poderem gerar a um filho, e assim sucessivamente no quadro histórico do desenvolvimento do homem como espécie. A espécie do homem, como de todo ser animado, se perpetua obedecendo a esse padrão arquetípico. O macho doa a semente, e a fêmea a recebe e a complementa, para gerar o macho e a fêmea.
Mas Paulo nos diz aqui que esse decreto, proferido por Adão, tem um alcance muito maior, inserindo-se na categoria de mistério, de algo que só pode ser revelado boca a boca, para aquele que o possa entender. Na madureza do tempo, quando os arquétipos florescem e produzem frutos, já é dado ao homem penetrar um pouquinho mais os grandes mistérios que velam a obra do UM PRIMEIRO E ÚNICO. Essas são as pérolas a que Jesus se referiu e que não podem ser distribuídas ao léu, pois trazem em si um poder revelador tão grande que pode suscitar a violência daqueles que não podem aceitá-las ou assimilá-las em sua vida. Por isso que Ele nos alertou:

Mt 7:6 Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem.

Um fato que sempre me chamou a atenção é que Jesus não se dirigia à sua mãe chamando-a de mãe, mas de mulher. Seria isso uma indelicadeza da parte do manso Jesus de coração? Certamente que não. Jesus estava querendo nos passar uma mensagem fundamental com esse fato. Ele não queria sua mãe como mãe, como geradora complementar, de novas pessoas; Ele a queria como mulher, como o sagrado arcano da aceitação. Ele não queria sua mãe como perpetuadora do canal da encarnação; Ele queria sua mãe liberta desse mister; Ele queria a sua mãe e toda mulher apenas como mulher: como um ser capaz de aceitar, de receber. De aceitar a quem? A seu Esposo.
Da mesma forma Jesus não queria o seu pai como gerador, criador, fazedor complementar, como uma das bases sustentadoras do canal da encarnação; ele queria o seu pai, que é o Espírito Santo, liberto, como é. E queria que todo pai fosse como homem: como um ser capaz de doar, de fazer, de criar. Para doar a quem? Ao seu Esposo.

Lc 14:26 Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo.

O verbo traduzido por aborrecer é no original grego, μ ι σ ε ι (missei), e significa odeia, tem ódio por, e se opõe frontalmente a amar.
Aquele que vai a Jesus, e não aborrecer (odiar) a pai e mãe (princípios complementares de geração), a irmãos e irmãs (princípios potenciais geradores), e ainda também à própria vida (as coisas da vida que o retêm nesse plano de causação), não pode ser seu discípulo, não pode aprender com ele, pois seu ensinamento lida exatamente com esses arquétipos, que têm a ver com a perpetuação do sistema que se opõe frontalmente ao Seu querer, à Sua ação, à Sua missão, que é em última análise livrar o homem dessa carne corruptível que ele ainda está vestindo. O homem precisa entender que todos os que o cercam são seus irmãos e assim deve considerá-los, amando-os a todos como tais. Os laços de sangue produzem relações que atraem o indivíduo para a carne, para a necessidade de reencarnar. E Jesus Cristo veio exatamente para nos livrar do inferno que isso representa. Até a madureza do tempo o processo era econômico porque contribuía para o indivíduo se egocentrar. Agora já não é mais necessário, porque o indivíduo está mais do que egocentrado, como podemos testemunhar com nossos próprios olhos nos dias de hoje.
Mas voltemos ao decreto verbalizado por Adão e parcialmente aberto por Paulo, inserindo-o no contexto.

Ef 5:29 Pois nunca ninguém aborreceu a sua própria carne, antes a nutre e preza, como também Cristo à igreja;
Ef 5:30 porque somos membros do seu corpo.
Ef 5:31 Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne.
Ef 5:32 Grande é este mistério, mas eu falo em referência a Cristo e à igreja.

1. Assim como o homem nutre e preza à sua carne, assim também Cristo nutre e preza à Igreja.
2. Por isso, porque Cristo nutre e preza à Igreja, assim como o homem nutre e preza à sua própria carne; por isso, o homem deixará a seu pai e a sua mãe, e se unirá à mulher, tornando-se os dois uma só carne.
O homem é o que toma a iniciativa, sendo o elemento positivo, unindo-se à mulher, o elemento receptivo, como vimos. E os dois, complementando-se um ao outro, far-se-ão uma só carne, uma só unidade material.
3. E nisso que foi dito acima reside um grande mistério, em nível arquetípico, e que Paulo nos desvela um pouquinho. O que se diz acima é em relação a Cristo e à igreja. Paulo está dizendo que Cristo deixará o pai e mãe para se unir com a igreja, para se tornar uma só substância com ela. Cristo, ungido de Deus para uma missão, para um propósito determinado pelo Pai, deixará o pai (a capacidade geradora masculina, positiva, doadora) e a capacidade complementar geradora feminina, (negativa, receptora) para se unir à Igreja, tornando-se com ela uma só substância. Esse mistério, colocado nesses termos de desdobramento ainda velado de arquétipos, não está se reportando a Jesus Cristo, mas a Cristo, estabelecendo uma clara distinção categórica entre um e outro ser. Jesus Cristo é o que tira o pecado do mundo, libertando-o da conseqüência do pecado, que é ter de morrer, como já vimos. Jesus Cristo veio e quebrou a roda da carne. Então quem é Cristo? Todo aquele que se souber Cristo, que se conhecer Cristo, que se souber um ungido do Senhor, um emissário do Senhor, um agente a serviço do Senhor. Cristo é, em potencial, todo discípulo de Jesus Cristo. Todo aquele que aprende com Ele, e pratica as coisas que ele mandou que fossem praticadas. Refere-se a todo homem, que tendo-se desapegado das coisas deste mundo e das pessoas deste mundo, amando-as porque já sabe que tudo foi feito por Ele, e nada do que foi feito sem Ele se fez. Ele ama ao mundo, não como mundo, mas como a mesma substância do Deus que o criou. Desapega-se do mundo como algo transitório, para amar o mundo como substância eterna do Senhor Deus. Ele ama o mundo não pelas coisas que ele pode lhe oferecer, não pelas coisas que ele pode lhe dar, mas por aquilo que o mundo é: a manifestação sacrossanta da mesma substância do UM deste universo. Todo homem, morada do Espírito Santo, tem dentro de si, em sua mesma substância eterna, e é, o Cristo que está para nascer. Revelar-se Cristo, esse o destino de todo homem, de todo indivíduo que já viveu, vive e viverá nesta terra. Para isso, o homem tem de morrer para o mundo uma só vez, a vez que congloba a igreja que ele é.
E o que é essa igreja, que Paulo diz ser parte de um mistério?
A palavra em grego é εκκλησια, que é formada de dois elementos: εκ, fora de, para fora de e κλησια, forma derivada do verbo καλεω, chamo. Assim, significa, em raiz, chamado para fora de.
Thayer nos dá uma ótima definição: gathering of citizens called out from their homes into some public place, an assembly.
[Ajuntamento de cidadãos chamados para fora de seus lares para algum lugar público, uma assembléia, um ajuntamento.]
Igreja, então, é uma reunião de indivíduos chamados para fora de onde estavam. Assim, a cada homem está ordenado de maneira irrevogável, deixar os seus laços cármicos para se integrar ao UM a que ele pertence, desde que o mundo é mundo. ISSO É IRREVOGÁVEL!
É de se notar que os verbos estão no futuro do presente do indicativo, significando que é algo que acontecerá categoricamente, sendo um futuro em relação ao presente. Temos de assumir logo o presente do nosso ser, e deixar o passado no passado. E o UM acima referido é a Igreja, de que as igrejas do mundo são apenas um tipo imperfeito, uma imagem. E Jesus Cristo é o Caminho para se chegar à Igreja. Jesus Cristo é a Igreja. Jesus Cristo é a Igreja única, o primeiro Adão, que se dispersou em muitos; o último Adão, que se ajuntará em muitos. Viemos do seio de Jesus Cristo, o Verbo divino; voltaremos ao seio de Jesus Cristo, o Verbo divino.
E com Ele continuaremos o nosso Caminho.
Graças a Deus, que tudo proveu, que tudo planejou, que tudo fez.

Jo 19:30 Então Jesus, depois de ter tomado o vinagre, disse: está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

Jesus o disse: Está consumado.
Τετελεσται!
Esta forma do verbo τελεω (terminar, cumprir, consumar) está no perfeito passivo do indicativo. Esse verbo é derivado de τελος, que significa fim (término), fim (finalidade). Como ocorre em Português.
Tinha sido terminado. Tinha sido cumprido. O propósito para o qual Ele encarnou aqui na terra. A partir daquele momento, algo novo acontecia: Ele tinha passado por todos os testes e tinha vencido. Venceu por nós, para nos entregar de graça a possibilidade de não mais termos de nascer e morrer, nascer e morrer...
Foi uma ação realizada no passado perfeito. Uma ação totalmente feita, totalmente acabada. Irrevogável.
Missão cumprida, plenamente cumprida!
Vicariamente. Por nós todos que ainda deambulamos nossa viagem nesse plano de causação.
Obrigado, Senhor Jesus!
Agora, irmão, agora, irmã, o momento é de aceitar o presente, converter-se, e encetar uma nova vida, sem ter de pecar; pois já estamos potencialmente livres, para morrer para este plano para sempre, para todo o sempre.
E, cada um como Cristo redivivo, ingressar na vida eterna, na vida sem interrupções marcadas, sem o ter de passar pelo ter de morrer.
Com  ósculo santo,
o peregrino