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Mensagem 17


Tendo lido na Internet um artigo, Judas Iscariotes e seu Evangelho, cuja leitura recomendo a você (antes de continuar a leitura dessa mensagem), lembrei-me de um fato: quando ia traduzir o verbo em grego, παραδιδωμι, eu sempre vacilava, pois tanto pode ser traduzido por trair, como por entregar, sendo este o seu sentido primitivo, como podemos ver, examinando as suas raízes. παρα é um prefixo que acumula as idéias de vicinalidade, proximidade lateral, proximidade, frontalidade, oposição. E διδωμι significa dar. Assim, o sentido de raiz do verbo é dar estando próximo de, ou ao lado de, ou em frente de. De aí o sentido de entregar, de dar algo que está com (o dador) a alguém. Nesse caso, poderíamos traduzir por transferir, passar para. No seguinte trecho, em tradução de João Ferreira de Almeida, notamos um momento crucial, cruciante na vida de Jesus:

Jo 13:21 Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espírito, e declarou: Em verdade, em verdade, vos digo que um de vós me há     de trair.
Jo 13:22 Os discípulos se entreolhavam, perplexos, sem saber de quem ele falava.
Jo 13:23 Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava.
Jo 13:24 A esse, pois, fez Simão Pedro sinal, e lhe pediu: Pergunta- lhe de quem é que fala.
Jo 13:25 Aquele discípulo, recostando-se assim ao peito de Jesus, perguntou-lhe: Senhor, quem é?
Jo 13:26 Respondeu Jesus: É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado. Tendo, pois, molhado um bocado de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.
Jo 13:27 E, logo após o bocado, entrou nele Satanás. Disse-lhe, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa.
Jo 13:28 E nenhum dos que estavam à mesa percebeu a que propósito lhe disse isto;
Jo 13:29 pois, como Judas
tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe queria dizer: Compra o que nos é necessário para a festa; ou, que desse alguma coisa aos pobres.

Quando Jesus diz que alguém entre eles o há de trair, todos ficam em polvorosa: cada um quer saber se não é ele o indigitado. Jesus indica o traidor a todos, entregando a este um naco de pão molhado no vinho. E todos se acalmam, e ficam sabendo quem era o traidor.  E Satanás entra em Judas, e Jesus lhe diz que fizesse depressa o que estava fazendo.
 

Há alguns pontos de estranhamento:
1. Os apóstolos se acalmam e não vociferam contra Judas, como era de se esperar.
2. Jesus, que sabia, sabe, de todas as coisas, sabia naquele momento que Satanás tinha entrado em Judas. Por que, então, não o expulsou?
3. Jesus usa o Presente Ativo do Indicativo, o que indica um fato presente ativo categórico. Poderíamos traduzir o verbo por: estás fazendo. E ao invés de demovê-lo, exorta-o a fazê-lo, e fazê-lo logo. Como ele era (é) o Senhor, o imperativo - faze - tem muito mais a força de um mandamento, de uma ordem.  Jesus
ordena a Judas que faça logo o que já está fazendo intimamente.
4. Mesmo depois de toda demonstração, em que ficam sabendo a identidade do traidor, os apóstolos não entendem o sentido do que Jesus está dizendo, achando que o que Judas
devia fazer era algo pertinente à sua função de tesoureiro do grupo.
5. O verbo, na sua forma futura presente do indicativo - παραδωσει  (entregará ou trairá ) - parece ter perdido sua força, depois da revelação, pois os discípulos se esqueceram do fato relacionado com ele, pois não fazem ligação entre o que Jesus diz no verso 13:27 com o que se diz no verso 13:21.

A impressão que se tem é que os apóstolos sabiam que alguém tinha de trair Jesus, e que sua curiosidade ou indignação não se repousava sobre esse fato, mas sobre o fato de (não) saber quem tinha sido escolhido para ser o autor da entrega. Resolvida essa questão, não se indignam, não se voltam contra Judas, não blateram contra ele. Sabem que Judas será o entregador de Jesus, mas não conseguem ligar o que Jesus diz a Judas a este fato. A impressão que se tem é que os apóstolos atuam como atores de um grande drama, em que cada um já tem a sua parte pré-estabelecida. Combinado que seria Judas o entregador, todos se acalmam em relação a esse ponto, pois esse ponto já não é mais sujeito a debates ou discussões.
E Jesus diz: o que fazes, e não: o que farás, como seria de se esperar. Judas já tinha sido escolhido para desempenhar esse papel infamante e crucial no drama da crucificação. Intimamente, Judas já o tinha assumido e preparava-se para desempenhá-lo no momento oportuno, no momento lhe-requerido. No momento da deixa para a sua entrada no palco. Examinemos essa fala de Jesus no original:
 

  ο   ποιειες    ποησον    ταχιον
  o que    fazes    faze    depressa

Jesus não procurou demover Judas, porque Ele sabia que tal demoção seria impossível, pois já estava em andamento na psique de Judas. E Jesus só mostrou uma preocupação em relação a isso: que o fato se cumprisse depressa, para todos ficarem livres do ato. A atitude de Judas era algo necessário para o drama, para que se cumprisse um decreto do UM primeiro e único, inscrito em arquétipo no Livro do Cosmos.
E que é isso que está inscrito em tal alta instância? Tem de ser algo necessário, pois Jesus usou a expressão:
em verdade, em verdade, reservada para as coisas necessárias. Examinemos o assunto ponto por ponto.
1.  Houve a queda do homem por uma traição da serpente, e isso trouxe a morte ao mundo.
2.  O que a serpente
entregou a Eva e que estava com ela, a serpente?
Resposta: O dizer que a fruta era boa para o entendimento. E isso era verdade. O dizer que não morreria aquele que comesse daquela árvore. E isso era mentira. Meia verdade é mentira.
3.  O fato de a queda ser necessária, como já vimos em mensagem anterior, tornava esse fato extensível a todo o Relativo. E, por inclusão, ao homem.

4.  O homem já tinha caído, já no Éden, mas não tinha tomado consciência disso, pois sua psique não era capaz de estabelecer a relação eu x outro, já que era holocentrada, centrada no todo, mas não em si mesma.
5.  Era necessário que ele tomasse consciência disso, pois esse era o passo primeiro de uma longa jornada em demanda da egocentração.
6.  A serpente, no caso, foi um instrumento utilizado pelo Senhor para que o homem caísse em si, tendo consciência egocentrada desse fato.
7.  O homem já tinha caído, mas ainda não tinha caído em si em relação ao fato de ser ou estar-sendo um centro egóico, um eu centrado em si mesmo e separado das demais coisas. O que é necessário ter de se cumprir ou cedo ou tarde. E isso, já que representa uma queda, só poderia ser representado por um ato de entrega da Queda (= por um ato de traição da Queda, de Satanás).
8. Por um ato feito de verdade e de mentira, de luz e de trevas, o homem caiu, tomando consciência de si mesmo.
Examinemos com cuidado a seqüência cósmica abonadora desse fato:
a. O UM primeiro e único, por AMOR, gera o AMADO, fazendo-se AMANTE. O AMADO, para ter uma identidade sua, lhe-própria, sofre uma espécie de atenuação da freqüência, uma
queda de freqüência em relação à freqüência do AMANTE,  o PAI  ALTÍSSIMO.


b. O AMADO, para entrar em manifestação, sofre, portanto,  uma tenuíssima queda de freqüência em relação ao UM primeiro e único.
c. Essa  queda se personaliza, passando a constituir uma entidade, a Queda, Satanás, o Diabo, aquele que é lançado em descenso, através da substância do AMANTE.  O Diabo é um fruto necessário da Queda.  É ele que preside, que comanda toda espécie de queda do AMADO.
d. Assim, a  queda que se verificou no movimento de cima para baixo, da luz para a treva, passa a se manifestar sempre que ocorre tal instância, tal fenômeno.

e. O homem estava parado, no seio da evolução, tendo atingido o ápice do estágio anterior (consciência edênica) , em que não havia o pecado, porque ele não tinha condições conscienciais de assumi-lo. Um leão, que mata um homem, não comete pecado, pois não é dotado de consciência moral.  Algo semelhante a isso se passava com o homem no estágio de onde ele veio.  Tinha uma consciência amoral, despida de qualquer senso de moralidade.  Matava, feria, mas não lhe era imputado qualquer pecado ou transgressão, pois para ele não havia o conceito-prática da transgressão.  Ele era dotado de uma consciência edênica: aquela que é capaz de colher a satisfação, seja ela de que tipo  for, sem entender o sentido moral da coisa.  Matava, feria, mas não mentia, pois isso não lhe era necessário para sobreviver.  Não tinha qualquer tipo de maldade, de malícia.  Era totalmente irresponsável por seus atos, que eram cometidos em atendimento aos instintos básicos: comer, procriar, sobreviver, fugir.
f. Atingido o ápice do tipo de consciência edênica, o próximo movimento tem de ser  de descida, para chegar ao ponto mais baixo da curva (ponto ótimo em que se dá a intervenção de Jesus Cristo. Qual a lição básica para se iniciar o processo de queda, de egocentração?  A lição básica é: mentir, coisa que animal nenhum consegue fazer.  E como conseguir isso de um ser totalmente instintivo?  Apelar para uma coisa que os animais também têm em certo grau variado, de acordo com a espécie.  Os macacos têm-na em grau bem desenvolvido: a curiosidade.   Esse era o único ponto de partida para o Demiurgo iniciar o novo estágio do processo de egocentração. E foi exatamente isso que o Demiurgo utilizou: colocou uma árvore bem no centro do Jardim, num lugar de bastante destaque, por onde Adão tinha de passar muitas vezes, na sua lide de colher frutos para sua sobrevivência, e lhe disse que daquela árvore ele não poderia comer.  Se comesse, morreria.  Adão nem se tocou.  O Senhor teve de apelar para um outro recurso, dar-lhe uma ajudadora.  Ajudadora em quê?  Ajudadora para ele logo transgredir, desobedecer e ter de morrer, ter consciência de que morria.  Pois antes disso ele já morria, pois tinha de voltar ao pó de onde fora tomado.  Morria, mas não tinha a consciência disso.  Eva, um ser feminino, tirado da androginia de Adão, tinha como principal característica arquetípica o ser recebedora, receptora.  Eva não poderia falhar, pois estava bem equipada com  o caracter psíquico necessário para a empreitada: desobedecer à ordem do Senhor.  Eva, como toda mulher,  melhor, como todo caracter feminino, tinha naturalmente mais desenvolvido o senso da curiosidade, que consiste basicamente em receber, por algum sensor de realidade, algo de outra coisa.  Não deu outra: Eva, usando os olhos, viu que a fruta era agradável e própria para dar conhecimento. E logo colocou em ação outro sensor, o paladar, e completou a obra.  E como a fruta realmente era gostosa, ela deu a Adão, que dela provou. Ufa!  Cumprido o primeiro momento do despencar da consciência para dentro de si mesma.  Agora o Senhor tinha algo em que pegar os dois.  E logo Adão se justificou (ôps! isso é uma forma de mentira), e em seguida Eva também.  E justificou, jogando a culpa na serpente, e indiretamente em Deus, pois ele criara a serpente!
g.  Com essa vitória básica em mãos, o Senhor expulsou os dois do Paraíso. E logo Eva teve um filho, a que deu o nome de Aquisição, de Caim.  Isso mostra que a sua consciência já estava se egocentrando.  E logo depois a Abel.  E Caim mata a Abel.  Pronto!  Estava armado o grande palco da egocentração do homem.  Depois disso, a mentira floresceu e gerou a hipocrisia, o fingimento, a dissimulação, o maquiavelismo, etc.  E o assassínio também deu seus frutos preciosos.  E logo o homem estava totalmente egocentrado, já conhecendo e praticando todas as maldades que hoje tão bem conhecemos.
 h.  O homem, tendo atingido o fundo do poço da degradação, da queda de grau, já poderia ser submetido a um novo processo, pois o Velho Testamento já tinha produzido todos os frutos que poderia produzir.  Daí para frente era chover no molhado: já   não havia um sentido construtivo para a maldade.
i. O homem tinha caído dentro de si,e tornado  um núcleo egosciente.
j. A serpente foi o instrumento da queda. E da diáspora.  E do espalhamento do homem, que já não conseguia se sentir parte de uma unidade a que todos pertenciam.  O sentimento de unidade tinha sido quase eliminado pelo egoísmo, pelo egocentrismo, pelo discricionismo, pela discriminação.
E o homem caiu, caiu, caiu. Até se tornar um ser vivente  totalmente egosciente, egoísta, egocêntrico. O homem ficou se sabendo indivíduo, isto é, um ser indiviso, separado dos demais, totalmente separado dos demais. O fruto da queda tinha maturado e já estava passando do ponto.
Chegava a hora de reverter a direção da evolução.

Parêntesis de abertura.

Usamos a palavra evolução, sem prendê-la a Darwin e a suas conclusões.  Somos criacionistas, porque cremos na Palavra do Senhor.  Nada obsta, entretanto, a que haja uma como evolução no processo de crescimento, de despertamento  da consciência humana.  Isso se deve ao atributo da perfectibilidade, que apanagia a toda criatura.

Parêntesis de fechamento.

O homem já estava pronto para poder subir, ascender.
Mas para cair, ele se enredou em incontáveis laços cármicos que o prendiam a este nível de causação, que lhe foi muito útil, mas que já se lhe tornava prejudicial.
Para a queda, a serpente influenciou primeiro o elemento feminino, naturalmente receptor. E o elemento receptor, sendo uma carne com o doador, o influenciou, e ambos caíram.
A serpente entregou a Eva uma meia verdade e eles caíram. Se a serpente tivesse entregado uma verdade inteira eles não teriam caído, e estariam vegetando até hoje... Para o homem ascender teria de haver uma reversão: a serpente deveria entregar a verdade ao homem. E o  mal (?) que ela provocara tinha de ser desfeito por ela!

A justiça no Relativo funciona em função enantiomórfica, em espelhamento. Para descer, a mentira. Para subir, a verdade.
Na inspiração, o homem caíra.
Na expiração, o homem ascenderia. 

Estamos aqui nos reportando ao seguinte arquétipo:


 

Macrocosmicamente falando, notamos claramente que na inspiração o homem se centra em si; e na expiração, o homem se descentra, se aloconscientizando, se holoconscientizando.  Deixa o seu senso de mesquinhez egóica e passa a assumir um senso de grandeza filantrópica.  De um ser preocupado com suas coisas, passa a ser uma pessoa preocupada com o próximo. É exatamente esse sentimento de amor pelo outro que faz com que o homem busque uma novidade de vida, expandindo a sua consciência. 

Examinemos a questão do enantiomorfismo.

 

  QUEDA        -->   A serpente   entrega   a mentira   a um receptor:   pecado   e   morte   ao homem.
  ASCENSÃO -->   A serpente   entrega   a verdade   a um receptor:   não pecado   e   não morte   ao homem.

No primeiro momento, o da Queda, Eva foi o receptor, por ser elemento feminino.

No segundo momento, o da Ascensão, Judas foi o receptor, por ser tesoureiro, o recebedor de espórtulas.

A serpente, que possuiu   Eva,     entregou    a mentira     a Adão,    elemento doador .  A doação: o pecado e         a morte.

A serpente, que possuiu  Judas, entregou    a verdade      a Pilatos, elemento doador. A doação:  o não pecado e a não morte.

Jesus se autodefiniu como a Verdade.  Judas era o  tesoureiro do grupo, portanto um receptor de espórtulas, doações e colaborações.   E foi o que Judas, o Iscariotes, o de muitas cidades, aparentado de Caim, o edificador de cidades, fez. (Iscariotes significa de Kerioth, de cidades). Entregou, tendo entrado a serpente nele, a Jesus, a Verdade, ao homem. Judas foi uma peça necessária do drama cósmico: sem ele, sem a sua atuação influenciada pela serpente, o drama não teria se realizado em inteireza, como exige a justiça inarredável do UM primeiro e único, do nosso UM, do nosso Deus, do nosso Pai.
Entregue ao homem, aos judeus, a Verdade tinha de expirar! Jesus tinha de morrer! E tinha de morrer como Filho do homem, para que o seu sacrifício aproveitasse a todo aquele que pudesse ser nomeado como filho do homem. Você é um filho de homem? E quem não é filho de homem? Só Adão.
Jesus Cristo se fez Adão e encarnou como Filho de homem, de Maria, que era filha de homem. Adão espargira. Adão tinha de reagrupar.  Tinha de reunir o rebanho e trazê-lo para o um aprisco.
Judas, visto dentro dessa óptica necessária, não é um bandido; é um herói que se sacrificou pelo bem de todos nós.
E Jesus, entregue pela serpente, foi morto pelo homem. Jesus expirou pelo homem! A favor do homem! Eva inspirara e caíra, e junto com ela Adão. Jesus expirava, e junto com Ele a Adão, e junto com Adão, todos os da sua semente.  Vale dizer: todos os homens e mulheres de todos os tempos e de todos os lugares.

Um outro ponto de não pequena monta: Judas foi escolhido por Jesus Cristo, que sabia (sabe) tudo a respeito de tudo e de todos neste Seu universo de manifestação.  Ele bem conhecia o coração de Judas, e sabia muito bem da sua índole.  Ainda assim, o convocou, dando-lhe tratamento igualitário em relação aos demais.  Sendo o Deus deste universo, Jesus sabia que Judas o iria trair.  Mas não (?) levou isso em conta no momento de montar o Seu elenco.  Teria Jesus errado mais do que normalmente erra um montador de elenco em nossos dias?  Não tinha Ele condições para escolher alguém mais limpo, mais honesto, menos ambicioso?  Sabendo de todas essas coisas, ele, assim mesmo, escolheu Judas, porque era mister que assim acontecesse.  Os doze tinham sido escolhidos desde antes de todos os tempos para desempenhar sua função.  A convocação não pode ter sido gratuita; deve ter sido propositada; devia haver, embutido nela, algum propósito, alguma finalidade, que não poderia deixar de acontecer.  Um homem comum pouco sabe de um outro, mas Jesus conhecia o coração de todos; portanto Ele não falhou, não pode ter falhado.  Ele não falhava nunca, pois sempre fazia a vontade do Pai.  Judas foi escolhido com o assentimento do Seu Pai.  Essa escolha deve ter sido uma das mais difíceis, tanto para o que escolhia, como para o escolhido.  E, como Jesus revelava muito mais em secreto com seus discípulos do que revelava aos demais, eles certamente deviam estar a par da necessidade da traição, e, ipso facto, do traidor.  Tudo aponta para um plano necessário concebido necessariamente em condições necessárias.  Nada nele podia falhar sob pena de o Senhor não poder falar ao fim do drama: "Está consumado."  Tudo, tudo, sem faltar qualquer detalhe, tinha sido cabalmente cumprido. Foi depois dessa última palavra  (τετελεσται), que Jesus expirou. E abriu o caminho de uma liberdade ampla, total, irrestrita, a todo aquele que o quiser.

(É penosamente difícil falar sobre esse drama cósmico, que alguém ainda há de entender em toda a sua inteireza, mas, dentro das imensas limitações de que sou dotado, falo o que posso, para, eventualmente, abrir uma picada para alguém com mais discernimento poder trilhar com mais segurança.)
Judas foi uma peça chave no grande drama cósmico da Redenção. Olhemos para ele não mais com indignação, não mais com ares de condenação, pois pouco sabemos dos grandes arcanos.
Eu sei que há muito mais para falar a partir da exploração dos sagrados arquétipos, mas não me sinto capaz de caminhar mais avante.
É minha esperança que alguém retome o assunto com mais propriedade.
Eu sei que não foi por acaso que encontrei aquele artigo na Internet. Sei também que já é hora de não termos em nosso coração atitude ou de julgamento ou de condenação por quem quer que seja.
Se dependesse de mim, Judas estaria salvo, gozando o gozo merecido em paga do  horrendo papel que ele teve de desempenhar.
Judas está salvo, pois faz parte da Igreja a que pertencemos!
Deo gratias!
Com ósculo santo,
o peregrino.


P.S.: Muito vacilei antes de colocar essa matéria no ar.
Quem quiser que se manifeste: estou pronto para receber o que vier.
E, se necessário for, reescrever a minha esperança.

P.S. do P.S.  Tirei do ar e tentei dar-lhe uma redação mais especificante e mais clara.

Nota do dia 11 de dezembro de 2008, cerca de dois anos após a primeira publicação da matéria:
Hoje, relendo e revisando o texto do ponto de vista do leitor, a minha avaliação é que o texto toca em uma verdade de difícil formulação, pois depende de arquétipos sobre os quais é muito difícil refletir com nossa lógica nos-inerentemente binária.  Sinto que falta ainda algo a acrescentar ou a explicitar, mas não consigo atinar com o que isso seja.  Essa maneira de encarar  Iscariotes está plenamente de acordo com uma visão universalista da doutrina de Jesus Cristo.  Ele, tanto quanto o Seu Pai, não queria que ninguém se perdesse! E poderiam  Eles falhar no Seu intento, no Seu desejo, na Sua vontade? E em pontos tão criticamente delicados do Seu planear?  E poderia ter eu ou qualquer outra pessoa, seja de que coturno for, mais misericórdia e sabedoria do que o mesmo AMOR?  Deus, por força, tem de ser mais misericordioso do que qualquer de suas criaturas!  E Aquele que professa o perdão poderia deixar de perdoar?  E o Omnisciente, o Omnipotente, o Omnipresente, poderia ser menos -- em qualquer aspecto ou questão que seja -- do que a criatura?