O olho simples

   

                                                                 

 

                                                                

 

 

 

Lucas, 11:33  -  E ninguém, acendendo uma candeia, a põe em oculto, nem

debaixo do alqueire, mas no velador, para que os que entram vejam a luz.

 

Em grego:

 

ουδεις  δε  λυχνον  αψας  εις  κρυπτον  τιθησιν  ουδε  υπο  τον  μοδιον  αλλ'  επι  την  λυχνιαν , ινα  οι  εισπορευομενοι  το  φως  βλεπωσιν.

 

Quando alguém acende uma vela ou uma lamparina, não o faz para ocultá-la, mas

para colocá-la em um lugar adequado para iluminar o ambiente em que está.  Assim,

os que entram podem ver a luz que dela se irradia.

Jesus, aqui, não se preocupa com os que já estão dentro, mas com os que estão de fora

e já estão entrando.  Não exatamente para os que querem entrar, mas para os que entram. 

O entrar aqui aparece divorciado do querer.  O entrar

é apresentado como um fato autônomo, natural, necessário.  Quem são os que entram?

Como são eles?  Isso não é definido.  Quantos são eles?  Poucos?  Muitos?  Todos? 

Nada está definido.  A resposta vai depender do coração de cada um.

Então, a preocupação toda com a candeia não tem como finalidade facilitar a entrada,

ou permitir a entrada.  O problema não reside aí: a porta de entrada está sempre aberta. 

A finalidade da luz que se acende é dar luz, alumiar, clarear, diluir as trevas.  A

finalidade da luz que alguém venha a acender é dar luz   -  não a si mesmo   -  mas

àqueles que entram, para que esses vejam as coisas que estão

ao seu redor à luz da luz.  Não à luz  das trevas, não à luz da ignorância, não à luz

do engano.

A finalidade da candeia que alguém conseguiu fazer dar luz não é a candeia, não é

o acendedor, mas a luz que alumia, para que todos que entram VEJAM.  E como deve

ser este VER  colocado assim tão absolutamente?

Vejamos o que o Senhor diz:

 

Lucas, 11:34  -  A candeia do corpo é o olho. Sendo, pois, o teu olho simples,

também todo o teu corpo será luminoso, mas se for mau, também o teu corpo

será tenebroso.

 

Em grego:

 

ο  λυχνος  του  σωματος  εστιν  ο  οφταλμος  σου.    οταν  ουν ο  οφταλμος  σου  απλους  η  και 

ολον  το  σωμα  σου  φωτεινον  εστιν  επαν  δε  πονηρος   η  και το  σωμα  σου σκοτεινον.

 

Em grego, temos:  A candeia do corpo é o teu olho.  Quando (se) pois o teu olho

for simples, então todo o teu corpo é luminoso.  Mas, se for mau, então o teu corpo,

tenebroso.

 

O trecho é constituído de três frases. A primeira representa uma declaração absoluta, de

abrangência universal, de tônus categórico, e está direcionada para aquele que esteja

ouvindo o que Jesus está dizendo, seja ele quem for.

Todo homem, porque é homem, está  naturalmente inserido na declaração. E Jesus nos

diz aqui que todo homem está dotado desse instrumento, que representa para cada

um muito mais do que aquilo que tradicionalmente se pensa.  O olho é muito mais do

que um órgão passivo de detecção e apreensão da realidade. 

É um órgão que pode se apresentar infinitamente modulado, calibrado para ver o mundo

de infinitas maneiras.  O mundo pode ser visto com pessimismo, com otimismo, com

senso de proporção, com esperança, com desespero, com justiça, com misericórdia,

com complacência, com severidade...

Para continuarmos nosso arrazoado, examinemos agora a segunda frase. É ela formada

de dois membros:

1)  οταν  ουν ο  οφταλμος  σου  απλους  η

Nesta cláusula condicional-temporal, o verbo (η)  está no subjuntivo, o que

denota contingencialidade.

O que aqui se declara está sujeito à condição, à volição, ao arbítrio de cada um: é aqui

que se situa a capacidade de escolher do homem, e essa escolha se refere, no trecho,

não àquilo que ele faça ou deixe de fazer, mas à maneira como ele deve olhar para

as coisas do mundo.

Aqui, Jesus nos diz que nosso olho (no singular) deve ser simples.  E quando uma coisa

é simples?

- Quando é uma, uma em si mesma, una  em si mesma.  Por isso, não pode haver

dois olhos, mas um olho: o olho da direita deve ser uma réplica exata do olho

da esquerda, e o olho da esquerda deve ser um clone exato do olho da direita.  Não há

um olho que veja o torto, e um olho para ver o direito; não há  um olho para ver o mau,

e um olho para ver o bom.

Há, deve haver, um só olho, que não veja aceptivamente, mas que veja tudo de

uma mesma maneira básica, unificada, em que cada um seja visto exatamente como

cada um, pois todo um é um em si mesmo, é um, feito de uma só substância, a

mais simples de todas.  O olho, para se adequar harmonicamente ao um, que todo um é,

ao Um em que todo um é, precisa ser  simples

(απλους)απλους  é um adjetivo formado de dois elementos: o primeiro indica negação,

ausência; o segundo duplicação, variação, desdobramento, multiplicação, diversificação.

O que Jesus está dizendo em sua maneira simples, altamente arquetípica e econômica

de falar, é que o homem, para ser digno de ser imagem e semelhança de Deus, o Um,

deve ter um olho que se abstenha de ver o vário, as contingências do nível

de manifestação em que o ser viaja o seu destino, o seu caminho.

Quando olhar para um santo, não verá o santo, mas o um que aquele santo está sendo;

quando olhar para um crápula, não verá o crápula, mas o um que aquele crápula

está sendo, pois, para além das aparências e das contingências transitórias da Viagem,

tanto um como outro são um só, como que faces temporariamente divorciadas de

um mesmo ser que enveredaram por aceptivas sendas, em obediência ao seu querer. E

um recolherá fachos de luz, e o outro brasas de fogo. E ambos armazenarão em seu ser,

seu único ser, de que se esqueceram, o mesmo acervo: raios de puríssima luz.  E é

preciso que todo homem, cada homem, saiba dessas coisas, para abreviar o período

das brasas candentes, para si e para todos os que viajam sua glória nos infinitos universos

do Cosmos.  Variado é o caminhar, único o caminho.  Todos trilham, mais ou

menos inscientemente, o mesmo caminho, mas cada um tem o seu jeito de caminhar,

de andar, de demorar-se ou aligeirar-se. 

E uns se encantam com as pocilgas, e outros com os palácios; e uns

riem desbragadamente, e outros choram desesperadamente, e muitos se alegram com

o caminhar, e uns poucos se gloriam pelo fato de existir o caminho...  Mas, todos eles,

sem exceção, estão apenas e tão-somente desempenhando um papel no grande drama

em que todos atuam seriamente neste palco de ilusão, envolvidos todos por um

mesmo manto de co-responsabilidade.  E o que vai atrás, chapinhando na lama,

é responsável pelo que caminha lá na frente, imerso em luz, e este é responsável por

aquele outro que se demora mais ilusionado em alguma ínvia senda do caminho...

 Por isso tudo, o olho tem de ser simples, não pode ser turvado por nada: nem

pela santidade, nem pela malignidade, nem pela presunção, nem pelo zelo de justiça...

Àquele que vê, não cabe elogiar, não cabe condenar, não cabe expender juízos vários

de razão.  Cabe apenas ver.

 

Somente com os teus olhos olharás, e verás a recompensa dos ímpios.

                                                                                                                (Salmo 91:8)

 

A quem olha o que se passa no mundo, a esse  cumpre olhar de uma maneira simples,

só com os olhos, sem quaisquer coisas que possam turvá-los.  E, olhando, verá,

simplesmente verá, a recompensa que cabe  aos ímpios, aos que não entenderam ainda

o sentido da santidade, da simplicidade.  Porque há uns que precisam muito experimentar,

para começar a sentir a mesmice que em tudo há, e há outros que já fruíram da festa,

desta festa, e se preparam para novos júbilos. 

A diferença básica é essa entre um e outro: ambos buscam uma maneira de mais

se alegrar, só que uns colocam o seu querer na reiteração, e outros na inovação.  Um

quer se prender, o outro - seja lá isso o que for - quer se libertar.  E cada um terá

a recompensa automática determinada pelo seu querer.

Assim, há de olhar para as coisas e para os homens com isenção, sem falsos moralismos,

sem pretensa santidade, vendo, em tudo, aquilo que realmente é: algo

essencialmente bom, porque vindo do Bom.  Ou teria alguma coisa, algum ser,

algum homem, uma origem diversa daquela que ele tem?

Aquilo que é originado do Bom, tem de ser bom, não pode ser mau.

Isso o que pobremente podemos inferir do verbo altamente denso do Senhor,

na primeira parte da segunda frase.

Examinemos, agora, a segunda parte:

 

και  ολον  το  σωμα  σου  φωτεινον  εστιν

 

O primeiro que notamos é que o verbo, nesta cláusula, a principal, tem o verbo

no indicativo, que é o modo da declaração categórica.  O que se declara aqui tem

validade universal.  Vale para todo ser, para cada ser, para cada homem, para

cada mulher, de todos os tempos, de todos os lugares, de todas as condições. Vale

para uma ameba, para um neutrino, para um devasso, para um santo, para um que

cai, para um que se refestela no charco, para um que levanta, para um que ascende, para

um ascensionado. E ainda aqui Jesus faz questão de assinalar que ele está falando

do corpo da pessoa a quem ele se dirige, a quem ele esteja se dirigindo, seja

esse interlocutor quem for.  Não há nesse tu qualquer preocupação aceptiva. 

Mesmo porque Jesus falava mais para os enfermos, para aqueles que se sabiam

enfermos, do que para os sãos...

 

E sucedeu que, estando ele em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram

e tomaram lugares com Jesus e seus discípulos.

Ora, vendo isto os fariseus perguntavam aos discípulos:  Por que come o vosso Mestre

com os publicanos e os pecadores?

Mas, Jesus, ouvindo, disse:  Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes.

                                                                                            (Mateus, 9: 10 a 12)

 

Continuando.

E o verbo aponta para o presente εστιν  (nas versões mais conhecidas ou aceitas) ou para

o futuro εσται (em algumas versões). O fato categórico focado se refere ou ao presente,

imagem do eterno, ou ao futuro, ponto de chegada a que todos um dia aportarão. 

Como presente, retrata um fato inexorável, improrrogável, situando o ser num contexto

e destinação; como futuro, retrata algo que ainda há de vir, situando o ser num

contexto de evolução.  Ë aqui teríamos duas faces do ser: o que ele essencialmente é

e aquilo que ele virá predestinadamente a ser.  O ser não é algo estático,

pronto, acabado, eis o sentido da evolução; o ser é algo estático, acabado, pronto,

perfeito, eis o sentido da destinação.  O ser está destinado a crescer infinitamente em

pós de si mesmo.  Só o paradoxo pode dar conta ligeira do sentido do ser:  o homem,

todo homem, é um ser perfeito que se esqueceu de sua perfeição, para mergulhar

no caminho da perfectibilidade em busca do sentido único e verdadeiro de si mesmo. 

E qual o sentido primeiro e último dessa como encenação?  Esse, um dos

supremos mistérios do Um...  Não sabemos, não podemos responder à pergunta,

mas podemos ter uma certeza:  seja esse o sentido que seja, tem de ser necessariamente

bom e aprazível para todo ser, para todo o ser.

   

 

Em “todo o teu corpo”, a palavra todo é representada por ολον, ou por παν, em algumas

variantes. 

A diferença básica é que ολον denota inteireza e παν, universalidade.  Assim,

respectivamente:

-    o teu corpo todo, o teu corpo como um todo, o teu corpo inteiro;

-         todo corpo teu, todo corpo que é teu, todo e qualquer corpo que é teu.

Sutilezas de estilo, poderíamos dizer.  Maneiras diferentes de dizer a  mesma coisa.  Mas

 se são diferentes, como poderão ser a mesma coisa, ou se referir à mesma coisa?  No

 plano da manifestação, poderão ser aparências de uma mesma coisa.  Mas, em termos

 essenciais, em termos simples?  Sem “enrolações”, sem excrescentes sofisticações?  Cada

 coisa é apenas e tão-somente cada coisa.  Para quem busca a verdade, é importante não

 se esquecer de que a realidade só pode ser entendida mais verdadeiramente se

atentarmos para o fato de que  (para que nada se perca!), nada deve ser desprezado, ou

levado em conta menor.  Tudo   -   sejam incongruências, sejam contradições, sejam

 paradoxos   -   deve ser levado na devida conta.

E os dois sentidos acima são válidos.  O Senhor está-se referindo ao homem com todos os

 seus corpos, com todos os seus veículos multidimensionais de manifestação: o

iluminar-se de um corpo reflete-se necessariamente no iluminar-se de todos os seus

 corpos, pois é o homem, como tudo que existe, como tudo que é, uma unidade-igreja: é

 um e é muitos, concomitantemente.  Um, para jamais se perder; muitos, para o mais

 economicamente possível, promover-se a escalões cada vez mais altos no caminho de

 glórias que para ele está estabelecido.  É o ser uma entidade solitária e solidária

que navega o cosmos em busca dum maior conhecer, dum mais pleno conhecer-se.  O

corpo foco-personativo-consciente que ora me sou é único, singular, sagrado, eterno,

eterno, eternamente eterno, eternamente idêntico apenas a si mesmo, e será diante dele

 mesmo eternamente diferente de si mesmo: não há na economia plenipotenciária do

 cosmos lugar para a monotonia, para a repetição.  E este corpo

foco-personativo-consciente está estreitamente ligado a outras igrejas que navegam,

solidárias e solitárias, a sua glória, em outros planos, em outros níveis e dimensões

 infinitamente infinitas, eternamente eternas, do SER.

O olho simples deste foco tem o dom necessário e improrrogável de iluminar todos os

demais corpos-igrejas a que ele pertence, que ele em essência é.  O que faço aqui hoje

retumba no infinito, e em todo o percurso (em que o ser que sou multidimensionalmente

 habita...) que faço até esse lá inatingível.

 O olho simples tem o dom também inalienável de iluminar o foco que me sei, que me

 (pouco) conheço: aquilo que suponho ser a porção mais consciente ou autoconsciente de

 mim mesmo. 

Aquela parte de mim mesmo que ora labuta em glória (que nem sempre consegue

detectar) neste plano de causação em que ora jornadeamos o nosso adamismo.

E é por isso (e por muito mais, que apenas  podemos vislumbrar, que não conseguimos

 verbalizar), que se trata de παν e de ολον.

 

οταν  ουν ο  οφταλμος  σου  απλους  η  και  ολον  το  σωμα  σου  φωτεινον  εστιν

 

A frase se organiza de dois membros:

-         οταν  ουν ο  οφταλμος  σου  απλους  η                               e

-     και  ολον  το  σωμα  σου  φωτεινον  εστιν (εσται)

 

 

O primeiro membro tem como verbo a forma  η, subjuntiva, e o segundo membro εστιν,

 indicativa presente ou então, em algumas variantesεσται,  indicativa futura.

Assim, a primeira parte se refere ao plano do arbítrio, da ação, do ético, do viver, do

 dualismo.  A segunda parte se prende ao plano do categórico, da causação, do cósmico,

da teoria, da vida.  O primeiro nível é o das possibilidades da existência; o segundo é o

das necessidades da essência.  Um, o da ilusão, o outro, o do real.  E é óbvio que o plano

maior prevalece sobre o menor: o ético se sujeita ao cósmico, o arbítrio cede, acabará

 cedendo, diante dos desígnios do UM.  O subjuntivo representa o campo da possibilidade,

da experimentação, do desejo, do contingente, do temporário, do transitório. Nele não

cabe o eterno eternamente eterno.  Um homem poderá se prender a este nível em que ora

existe, por um mesmo motivo, por  vezes sem conta, mas não poderá se prender para

sempre: a expiação, seja ela de que envergadura for, jamais se sobreporá à destinação

categórica determinada pelo  UM. Um homem pode se enredar por muitos motivos: o

desejo carnal, a concupiscência, a maldade, o egoísmo, o roubo, a traição, a crueldade, o

 espírito de vingança, o assassínio..., e ser capturado pela perpetuante roda da carne, e ser

 submetido a longos períodos de reeducação e de expiação, mas jamais deixará de pairar

 sobre ele, como atrator irresistível, a amorosa condenação da salvação.  Todo homem,

seja ele qual for, seja ele o mais devasso dos devassos, seja ele o mais cruel dos cruéis,

seja ele um empedernido genocida: não importa quem ele seja, ele está inexoravelmente

condenado a ser salvo, a ser resgatado do plano mais baixo a que se prendeu. E toda

operação de resgate representa para o resgatando um parto extremamente doloroso

e demorado. Aquele que já entendeu um pouquinho essa articulação entre o ético e

o cósmico precisa se precaver, precisa tornar-se mais responsável diante de seus atos,

precisa começar a eleger a

boa conduta, os bons sentimentos, as boas emoções, precisa viver para o amor

desinteressado e verdadeiro.

Voltando ao texto mais diretamente.  O subjuntivo, o plano da eleição e do arbítrio está,

aqui, relacionado com o olho; e o indicativo, o plano da dispensação, da destinação, está

 relacionado com todo (o) corpo.  A escolha feita sobre o olho reflete-se diretamente, em

 termos conseqüentes, sobre o estado do corpo. Esta é uma primeira leitura, que se prende

ao nível moral. 

Vejamos o que ali  se diz do corpo. Que ele é luminoso, que ele será luminoso.  O corpo,

não importando a aparência que possa ter, tem como característica essencial sua ser

 luminoso.  Todo corpo, todo o corpo, tem como atributo seu indescartável o ser luminoso

 e, assim, um dia, atingirá no nível da manifestação essa realização. A iluminação do corpo

 não é algo que se conquista, é algo que se inalienavelmente tem. Isso, para o ponto de

 vista da essência.  Para aquele que está a viajar pelos infinitiformes páramos do cosmos,

é, para todos os efeitos de gozo, uma conquista. Às vezes, uma penosa conquista.

E a respeito do olho, diz o Senhor que ele deve ser simples: απλους.

Para entendermos melhormente o que isso significa, examinemos Lucas, 11:40, passo em

 que o Senhor Jesus se dirige aos fariseus:

 

“Loucos! O que fez o exterior não fez também o interior?”

 

O exterior e o interior do homem, aquilo que ele vê fora de si, seja o que for, aquilo, que

tem dentro de si, seja o que for, tudo isso foi feito por um só, e, portanto, procedendo de

um mesmo criador, goza tudo do mesmo privilégio, da mesma origem, do mesmo destino.

Da mesma natureza essencial que está a revelar-se em cada ser.  A revelar-se, a

desvelar-se.  A única coisa que distingue um homem do outro é a quantidade de matéria

dita estranha que ainda tem apegada em torno de si.  Estranha, porque não faz parte

essencial do ser. 

E uns se deixam envolver por coisas materiais, e outros por outras coisas: sede de poder,

orgulho, gloríolas, invejas, concupiscências, traições, genocídios, bebedices, drogas,

mentiras, crueldades, adultérios, filantropias, méritos, medalhas, honrarias.  Imensa é a

 quantidade de formas de que se reveste a matéria que é estranha à essência da luz.  Que

parece ser estranha  à essência da luz!  É esta matéria estranha   -  não em si mesma   -

que permite que o ser vá adquirindo consciência de si mesmo, de sua origem, do seu

 destino: o UM, a LUZ INEFÁVEL.

Mas para aquele que passa a ter um maior grau de consciência do universo que ele está

sendo, das infinitas potencialidades que jazem latentes em sua seidade, do caminho de

infinda glória que ele está destinado a percorrer; para esse, porque antevê a entrada em

liberdade em novas naves de mais autonomia, de mais maneabilidade, de mais limpeza, de

mais alegria; para esse é importante que tenha pela nave que vai deixar um profundo

sentimento de gratidão, de bênção, de solicitude. 

Ele precisa olhar para tudo com olho simples, e isso para que todo (o) seu corpo seja

luminoso, leve, livre.

Mister é que, transcendendo o nível de aparência das redes e enredamentos do mundo,

veja em tudo e em todos aquilo que são por destinação cósmica: uma potente semente de

 luz viajando seguramente em pós de um desvelamento seu cada vez pleno, em demanda

 de seu glorioso destino ... a que sempre chegará ... a que nunca chegará. Para o homem,

neste plano de ser-estar, há a expectativa da festa, há a festa, e há o vazio de depois da

festa.  Mas, para o ser em demanda do Um, jamais haverá o vazio da completude absoluta

e final atingida.  Haverá sempre e sempre um mais além.

E dentro dessa perspectiva dada pelo olho simples, que só pode ver o um, o mundo, com

 seus cenários, com seus dramas, comédias e espetáculos, terá de sofrer uma interpretação

 diferente, um julgamento diferente, uma avaliação diferente.

Os homens, as mulheres, as pessoas envolvidas, quer em representações de felicidade,

quer em representações de tristeza, quer desempenhando heroísmos, quer desempenhando

 vilipêndios;  todos eles devem ser considerados como essencialmente bons, como bons

 em origem e em destinação.

        Uma pessoa trai o companheiro, provocando-lhe uma grande dor, eis um drama comum

        em nosso século. 

        Ora, o mundo já me ensinou como analisá-lo: o traidor será o vilão, o ofensor; o traído

        será o “mocinho”, 

          o ofendido.  Para um, olhos de repulsa, de condenação; para o outro, olhos de compaixão,

       de  comiseração.

       Aquele que assim age ainda não está se preocupando em ter um olho simples;  ainda

       quer, em verdade,  fazer parte daquele drama; ainda faz parte daquele drama: a

       energia-luz que traz dentro de si sofre uma divisão: trevifica-se para o traidor, lucifica-se

       para o traído. E preso está nas malhas do dualismo, da dualidade, do relativo, do

       arbítrio, do juízo. 

Aquele que se preocupa em ter um olho simples não poderia ter a mesma atitude e

sentimentos em relação àquele drama.  Teria de agir diferentemente, unificando a divisão,

identificando a dualidade, tornando idêntico aquilo que o olho dúbio separou.

Assim, o traidor será o traído; o traído será o traidor.  Mais que isso: o traído é a um só

tempo o traído e o traidor; o traidor é a um só tempo o traidor e o traído.  Ambos trazem

em si o gérmen da traição, o gosto mórbido de encenar o drama, e um ora faz o papel do

traidor, ora faz o papel do traído.  E, assim, vão alternando os papéis na longa turnê

reencarnacional...

Dentro dessa perspectiva não há o digno de compaixão, não há o digno de

 censura. E assim é com todos os dramas.  Com todos os atores, sejam eles

assassinos-assassinados,

espoliadores-espoliados, ofensores-ofendidos, violentadores-violentados,

invasores-invadidos....

O que mantém o drama em cena é em primeiro lugar o empenho dos atores-autores, e em

segundo lugar a energia que recebem dos espectadores, ou melhor, dos árbitros, dos

juízes.

Àquele que se preocupa em ter o olho simples, melhor lhe caberia o papel de espectador

imparcial: não  há que indignar-se contra o malvado, não há que compadecer-se do

ofendido.

A única coisa que o olho simples pode fazer é ver o bem, declarar que tudo está bem, é

dizer bem de tudo e de todos.  A única coisa boa que pode fazer é bendizer a tudo e a

todos.  É abençoar o ofendido e o ofensor.  E poderá chorar com os que choram, e poderá

indignar-se com os que se indignam.  Mas que seja uma indignação santa, sem ofensa,

sem a preocupação de ofender, de julgar.  Poderá indignar-se contra o mal, mas não

contra o mau.

E quando se vir enredado em alguma situação de tristeza, de penúria, de desgraça, de

doença, que deverá fazer o que se preocupa em ter o olho simples?   Mister ainda aqui é

 que veja tudo com olho simples. O olho simples só pode ver o um.  Assim, não poderá

ver o dois, o outro.  Para ele, só ele deve contar.  Já viu que não pode culpar nada, nem

ninguém, pelo que lhe aconteça.  Já viu que  o único responsável por tudo que lhe

 advenha é ele mesmo.

Se alguém o ofende, ele também é ofensor.  Se alguém o trai, ele também é traidor. Ele já

sabe que tudo aquilo que caia sobre ele, foi disparado por ele mesmo.  Pode não se

lembrar do momento do disparo, mas já não tem dúvidas: se algo se manifesta em seu

 universo, é porque foi ele que o provocou.

E assim deve ter diante do problema ou da situação uma maneira diferente de agir. Deve

ter uma atitude humilde, de reconhecimento de culpa, e pedir perdão a Deus por isso, pois

 ele já sabe, mesmo sem o entender profundamente, que ele é o responsável por aquele

 estado de coisas. 

Mas sabe mais: sabe-se co-responsável, pois não foi ele quem o fez, foi ele quem o

escolheu.  Ele é responsável pela escolha que fez: esse o tamanho verdadeiro da sua

culpa.  Ninguém poderá condená-lo por ter feito alguma coisa, mas poderá condená-lo por

ter escolhido aquela coisa. 

E exatamente nesse particular reside a sua possibilidade de libertação.  Deve entregar tudo

o que o assalta, que o fere, que o condena, que o maltrata, nas mãos piedosas e santas do

Senhor Jesus, que tem condições para assumir vicariamente a total responsabilidade por

aquilo que o homem esteja escolhendo.

Ele já veio e demonstrou que já não há mais a necessidade de ninguém arcar mais com os

seus erros.

Basta confessá-los, reconhecendo-se pecador, e afastar-se da linha de escolha que vinha

seguindo.  Em o Senhor Jesus, a completa libertação, a possibilidade de assunção.  Só

nEle, e em mais ninguém, pois foi Ele quem se deu a si mesmo em favor do homem, de

todo homem que o aceita como Salvador.

Todos hão de entrar: isso é necessário.  Mas cada um entrará a seu tempo, e uns com

alegria, e uns com dor, e uns com muita dor. Pois o entrar é necessário, e tudo será feito

para que ele se cumpra cabalmente para cada um de nós, que nos demoramos por essas

paragens da Viagem.

Sejamos sábios, sejamos sensatos: adotemos desde já um padrão de viver digno de nossa

destinação em Cristo Jesus. Tenhamos um olho simples, que só pode ver o bem,

primeiramente em nós mesmos.

E logo o bem se manifestará pleno em nossa vida.

 

1Ts 5:18 Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para

 convosco. 

 

Por isso, temos de dar graças em tudo, em tudo. Por tudo sim, mas principalmente em

tudo. Em todas as situações, sejam elas as mais confrangedoras e intoleráveis.  O início de

toda libertação começa por esse ato extremamente poderoso: dar graças em tudo.  Se

estou doente, devo dar graças, não por estar doente, mas porque em verdade, em verdade,

eu não estou doente: a doença, como todo mal que nos aflige não passam de uma mera

ilusão, de uma mentira básica.  Se estou em situação de penúria, devo dar graças, não

porque estou nessa situação, mas porque em verdade, em verdade, estou em situação de

abundância, não passando a miséria de uma ilusão, de uma mentira básica.  Se me

lamento, se me entrego ao desespero, alimento a ilusão, se declaro a verdade verdadeira

da situação, espanco a ilusão, e ela tem de ir embora.

Isso tudo, graças à Previdência e à Providência de Deus, de nosso Deus. Pois a vontade

dEle em Cristo Jesus é que demos graças. E ninguém pode dar graças em vão!

Alguém em situação desesperadora (para os homens) poderia declarar em sã verdade:

"Dou-te graças, Senhor, nesta situação que estou vivendo, porque sei que ela é passageira,

pois não passa de uma ilusão.  A tua verdade, Senhor, a única verdade, me garante que

estou são diante de Teus santos olhos, e é isso o que importa.  Dá-me forças, Senhor, para

que eu não me deixe levar por essa ilusão, por mais essa ilusão, pois, Senhor, eu quero

viver na Tua verdade santa e maravilhosa.

Amém.

Em verdade.

Assim é.

Assim seja."