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O olho simples |
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Lucas, 11:33 - E ninguém, acendendo uma candeia, a põe em oculto, nem debaixo do alqueire, mas no velador, para que os que entram vejam a luz.
Em grego:
ουδεις δε λυχνον αψας εις κρυπτον τιθησιν ουδε υπο τον μοδιον αλλ' επι την λυχνιαν , ινα οι εισπορευομενοι το φως βλεπωσιν.
Quando alguém acende uma vela ou uma lamparina, não o faz para ocultá-la, mas para colocá-la em um lugar adequado para iluminar o ambiente em que está. Assim, os que entram podem ver a luz que dela se irradia. Jesus, aqui, não se preocupa com os que já estão dentro, mas com os que estão de fora e já estão entrando. Não exatamente para os que querem entrar, mas para os que entram. O entrar aqui aparece divorciado do querer. O entrar é apresentado como um fato autônomo, natural, necessário. Quem são os que entram? Como são eles? Isso não é definido. Quantos são eles? Poucos? Muitos? Todos? Nada está definido. A resposta vai depender do coração de cada um. Então, a preocupação toda com a candeia não tem como finalidade facilitar a entrada, ou permitir a entrada. O problema não reside aí: a porta de entrada está sempre aberta. A finalidade da luz que se acende é dar luz, alumiar, clarear, diluir as trevas. A finalidade da luz que alguém venha a acender é dar luz - não a si mesmo - mas àqueles que entram, para que esses vejam as coisas que estão ao seu redor à luz da luz. Não à luz das trevas, não à luz da ignorância, não à luz do engano. A finalidade da candeia que alguém conseguiu fazer dar luz não é a candeia, não é o acendedor, mas a luz que alumia, para que todos que entram VEJAM. E como deve ser este VER colocado assim tão absolutamente? Vejamos o que o Senhor diz:
Lucas, 11:34 - A candeia do corpo é o olho. Sendo, pois, o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso, mas se for mau, também o teu corpo será tenebroso.
Em grego:
ο λυχνος του σωματος εστιν ο οφταλμος σου. οταν ουν ο οφταλμος σου απλους η και ολον το σωμα σου φωτεινον εστιν επαν δε πονηρος η και το σωμα σου σκοτεινον.
Em grego, temos: A candeia do corpo é o teu olho. Quando (se) pois o teu olho for simples, então todo o teu corpo é luminoso. Mas, se for mau, então o teu corpo, tenebroso.
O trecho é constituído de três frases. A primeira representa uma declaração absoluta, de abrangência universal, de tônus categórico, e está direcionada para aquele que esteja ouvindo o que Jesus está dizendo, seja ele quem for. Todo homem, porque é homem, está naturalmente inserido na declaração. E Jesus nos diz aqui que todo homem está dotado desse instrumento, que representa para cada um muito mais do que aquilo que tradicionalmente se pensa. O olho é muito mais do que um órgão passivo de detecção e apreensão da realidade. É um órgão que pode se apresentar infinitamente modulado, calibrado para ver o mundo de infinitas maneiras. O mundo pode ser visto com pessimismo, com otimismo, com senso de proporção, com esperança, com desespero, com justiça, com misericórdia, com complacência, com severidade... Para continuarmos nosso arrazoado, examinemos agora a segunda frase. É ela formada de dois membros: 1) οταν ουν ο οφταλμος σου απλους η Nesta cláusula condicional-temporal, o verbo (η) está no subjuntivo, o que denota contingencialidade. O que aqui se declara está sujeito à condição, à volição, ao arbítrio de cada um: é aqui que se situa a capacidade de escolher do homem, e essa escolha se refere, no trecho, não àquilo que ele faça ou deixe de fazer, mas à maneira como ele deve olhar para as coisas do mundo. Aqui, Jesus nos diz que nosso olho (no singular) deve ser simples. E quando uma coisa é simples? - Quando é uma, uma em si mesma, una em si mesma. Por isso, não pode haver dois olhos, mas um olho: o olho da direita deve ser uma réplica exata do olho da esquerda, e o olho da esquerda deve ser um clone exato do olho da direita. Não há um olho que veja o torto, e um olho para ver o direito; não há um olho para ver o mau, e um olho para ver o bom. Há, deve haver, um só olho, que não veja aceptivamente, mas que veja tudo de uma mesma maneira básica, unificada, em que cada um seja visto exatamente como cada um, pois todo um é um em si mesmo, é um, feito de uma só substância, a mais simples de todas. O olho, para se adequar harmonicamente ao um, que todo um é, ao Um em que todo um é, precisa ser simples (απλους). απλους é um adjetivo formado de dois elementos: o primeiro indica negação, ausência; o segundo duplicação, variação, desdobramento, multiplicação, diversificação. O que Jesus está dizendo em sua maneira simples, altamente arquetípica e econômica de falar, é que o homem, para ser digno de ser imagem e semelhança de Deus, o Um, deve ter um olho que se abstenha de ver o vário, as contingências do nível de manifestação em que o ser viaja o seu destino, o seu caminho. Quando olhar para um santo, não verá o santo, mas o um que aquele santo está sendo; quando olhar para um crápula, não verá o crápula, mas o um que aquele crápula está sendo, pois, para além das aparências e das contingências transitórias da Viagem, tanto um como outro são um só, como que faces temporariamente divorciadas de um mesmo ser que enveredaram por aceptivas sendas, em obediência ao seu querer. E um recolherá fachos de luz, e o outro brasas de fogo. E ambos armazenarão em seu ser, seu único ser, de que se esqueceram, o mesmo acervo: raios de puríssima luz. E é preciso que todo homem, cada homem, saiba dessas coisas, para abreviar o período das brasas candentes, para si e para todos os que viajam sua glória nos infinitos universos do Cosmos. Variado é o caminhar, único o caminho. Todos trilham, mais ou menos inscientemente, o mesmo caminho, mas cada um tem o seu jeito de caminhar, de andar, de demorar-se ou aligeirar-se. E uns se encantam com as pocilgas, e outros com os palácios; e uns riem desbragadamente, e outros choram desesperadamente, e muitos se alegram com o caminhar, e uns poucos se gloriam pelo fato de existir o caminho... Mas, todos eles, sem exceção, estão apenas e tão-somente desempenhando um papel no grande drama em que todos atuam seriamente neste palco de ilusão, envolvidos todos por um mesmo manto de co-responsabilidade. E o que vai atrás, chapinhando na lama, é responsável pelo que caminha lá na frente, imerso em luz, e este é responsável por aquele outro que se demora mais ilusionado em alguma ínvia senda do caminho... Por isso tudo, o olho tem de ser simples, não pode ser turvado por nada: nem pela santidade, nem pela malignidade, nem pela presunção, nem pelo zelo de justiça... Àquele que vê, não cabe elogiar, não cabe condenar, não cabe expender juízos vários de razão. Cabe apenas ver.
“Somente com os teus olhos olharás, e verás a recompensa dos ímpios.” (Salmo 91:8)
A quem olha o que se passa no mundo, a esse cumpre olhar de uma maneira simples, só com os olhos, sem quaisquer coisas que possam turvá-los. E, olhando, verá, simplesmente verá, a recompensa que cabe aos ímpios, aos que não entenderam ainda o sentido da santidade, da simplicidade. Porque há uns que precisam muito experimentar, para começar a sentir a mesmice que em tudo há, e há outros que já fruíram da festa, desta festa, e se preparam para novos júbilos. A diferença básica é essa entre um e outro: ambos buscam uma maneira de mais se alegrar, só que uns colocam o seu querer na reiteração, e outros na inovação. Um quer se prender, o outro - seja lá isso o que for - quer se libertar. E cada um terá a recompensa automática determinada pelo seu querer. Assim, há de olhar para as coisas e para os homens com isenção, sem falsos moralismos, sem pretensa santidade, vendo, em tudo, aquilo que realmente é: algo essencialmente bom, porque vindo do Bom. Ou teria alguma coisa, algum ser, algum homem, uma origem diversa daquela que ele tem? Aquilo que é originado do Bom, tem de ser bom, não pode ser mau. Isso o que pobremente podemos inferir do verbo altamente denso do Senhor, na primeira parte da segunda frase. Examinemos, agora, a segunda parte:
και ολον το σωμα σου φωτεινον εστιν
O primeiro que notamos é que o verbo, nesta cláusula, a principal, tem o verbo no indicativo, que é o modo da declaração categórica. O que se declara aqui tem validade universal. Vale para todo ser, para cada ser, para cada homem, para cada mulher, de todos os tempos, de todos os lugares, de todas as condições. Vale para uma ameba, para um neutrino, para um devasso, para um santo, para um que cai, para um que se refestela no charco, para um que levanta, para um que ascende, para um ascensionado. E ainda aqui Jesus faz questão de assinalar que ele está falando do corpo da pessoa a quem ele se dirige, a quem ele esteja se dirigindo, seja esse interlocutor quem for. Não há nesse tu qualquer preocupação aceptiva. Mesmo porque Jesus falava mais para os enfermos, para aqueles que se sabiam enfermos, do que para os sãos...
“E sucedeu que, estando ele em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e seus discípulos. Ora, vendo isto os fariseus perguntavam aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e os pecadores? Mas, Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes.” (Mateus, 9: 10 a 12)
Continuando. E o verbo aponta para o presente εστιν (nas versões mais conhecidas ou aceitas) ou para o futuro εσται (em algumas versões). O fato categórico focado se refere ou ao presente, imagem do eterno, ou ao futuro, ponto de chegada a que todos um dia aportarão. Como presente, retrata um fato inexorável, improrrogável, situando o ser num contexto e destinação; como futuro, retrata algo que ainda há de vir, situando o ser num contexto de evolução. Ë aqui teríamos duas faces do ser: o que ele essencialmente é e aquilo que ele virá predestinadamente a ser. O ser não é algo estático, pronto, acabado, eis o sentido da evolução; o ser é algo estático, acabado, pronto, perfeito, eis o sentido da destinação. O ser está destinado a crescer infinitamente em pós de si mesmo. Só o paradoxo pode dar conta ligeira do sentido do ser: o homem, todo homem, é um ser perfeito que se esqueceu de sua perfeição, para mergulhar no caminho da perfectibilidade em busca do sentido único e verdadeiro de si mesmo. E qual o sentido primeiro e último dessa como encenação? Esse, um dos supremos mistérios do Um... Não sabemos, não podemos responder à pergunta, mas podemos ter uma certeza: seja esse o sentido que seja, tem de ser necessariamente bom e aprazível para todo ser, para todo o ser.
Em “todo o teu corpo”, a palavra todo é representada por ολον, ou por παν, em algumas variantes. A diferença básica é que ολον denota inteireza e παν, universalidade. Assim, respectivamente: - o teu corpo todo, o teu corpo como um todo, o teu corpo inteiro; - todo corpo teu, todo corpo que é teu, todo e qualquer corpo que é teu. Sutilezas de estilo, poderíamos dizer. Maneiras diferentes de dizer a mesma coisa. Mas se são diferentes, como poderão ser a mesma coisa, ou se referir à mesma coisa? No plano da manifestação, poderão ser aparências de uma mesma coisa. Mas, em termos essenciais, em termos simples? Sem “enrolações”, sem excrescentes sofisticações? Cada coisa é apenas e tão-somente cada coisa. Para quem busca a verdade, é importante não se esquecer de que a realidade só pode ser entendida mais verdadeiramente se atentarmos para o fato de que (para que nada se perca!), nada deve ser desprezado, ou levado em conta menor. Tudo - sejam incongruências, sejam contradições, sejam paradoxos - deve ser levado na devida conta. E os dois sentidos acima são válidos. O Senhor está-se referindo ao homem com todos os seus corpos, com todos os seus veículos multidimensionais de manifestação: o iluminar-se de um corpo reflete-se necessariamente no iluminar-se de todos os seus corpos, pois é o homem, como tudo que existe, como tudo que é, uma unidade-igreja: é um e é muitos, concomitantemente. Um, para jamais se perder; muitos, para o mais economicamente possível, promover-se a escalões cada vez mais altos no caminho de glórias que para ele está estabelecido. É o ser uma entidade solitária e solidária que navega o cosmos em busca dum maior conhecer, dum mais pleno conhecer-se. O corpo foco-personativo-consciente que ora me sou é único, singular, sagrado, eterno, eterno, eternamente eterno, eternamente idêntico apenas a si mesmo, e será diante dele mesmo eternamente diferente de si mesmo: não há na economia plenipotenciária do cosmos lugar para a monotonia, para a repetição. E este corpo foco-personativo-consciente está estreitamente ligado a outras igrejas que navegam, solidárias e solitárias, a sua glória, em outros planos, em outros níveis e dimensões infinitamente infinitas, eternamente eternas, do SER. O olho simples deste foco tem o dom necessário e improrrogável de iluminar todos os demais corpos-igrejas a que ele pertence, que ele em essência é. O que faço aqui hoje retumba no infinito, e em todo o percurso (em que o ser que sou multidimensionalmente habita...) que faço até esse lá inatingível. O olho simples tem o dom também inalienável de iluminar o foco que me sei, que me (pouco) conheço: aquilo que suponho ser a porção mais consciente ou autoconsciente de mim mesmo. Aquela parte de mim mesmo que ora labuta em glória (que nem sempre consegue detectar) neste plano de causação em que ora jornadeamos o nosso adamismo. E é por isso (e por muito mais, que apenas podemos vislumbrar, que não conseguimos verbalizar), que se trata de παν e de ολον.
οταν ουν ο οφταλμος σου απλους η και ολον το σωμα σου φωτεινον εστιν
A frase se organiza de dois membros: - οταν ουν ο οφταλμος σου απλους η e - και ολον το σωμα σου φωτεινον εστιν (εσται)
O primeiro membro tem como verbo a forma η, subjuntiva, e o segundo membro, εστιν, indicativa presente ou então, em algumas variantes, εσται, indicativa futura. Assim, a primeira parte se refere ao plano do arbítrio, da ação, do ético, do viver, do dualismo. A segunda parte se prende ao plano do categórico, da causação, do cósmico, da teoria, da vida. O primeiro nível é o das possibilidades da existência; o segundo é o das necessidades da essência. Um, o da ilusão, o outro, o do real. E é óbvio que o plano maior prevalece sobre o menor: o ético se sujeita ao cósmico, o arbítrio cede, acabará cedendo, diante dos desígnios do UM. O subjuntivo representa o campo da possibilidade, da experimentação, do desejo, do contingente, do temporário, do transitório. Nele não cabe o eterno eternamente eterno. Um homem poderá se prender a este nível em que ora existe, por um mesmo motivo, por vezes sem conta, mas não poderá se prender para sempre: a expiação, seja ela de que envergadura for, jamais se sobreporá à destinação categórica determinada pelo UM. Um homem pode se enredar por muitos motivos: o desejo carnal, a concupiscência, a maldade, o egoísmo, o roubo, a traição, a crueldade, o espírito de vingança, o assassínio..., e ser capturado pela perpetuante roda da carne, e ser submetido a longos períodos de reeducação e de expiação, mas jamais deixará de pairar sobre ele, como atrator irresistível, a amorosa condenação da salvação. Todo homem, seja ele qual for, seja ele o mais devasso dos devassos, seja ele o mais cruel dos cruéis, seja ele um empedernido genocida: não importa quem ele seja, ele está inexoravelmente condenado a ser salvo, a ser resgatado do plano mais baixo a que se prendeu. E toda operação de resgate representa para o resgatando um parto extremamente doloroso e demorado. Aquele que já entendeu um pouquinho essa articulação entre o ético e o cósmico precisa se precaver, precisa tornar-se mais responsável diante de seus atos, precisa começar a eleger a boa conduta, os bons sentimentos, as boas emoções, precisa viver para o amor desinteressado e verdadeiro. Voltando ao texto mais diretamente. O subjuntivo, o plano da eleição e do arbítrio está, aqui, relacionado com o olho; e o indicativo, o plano da dispensação, da destinação, está relacionado com todo (o) corpo. A escolha feita sobre o olho reflete-se diretamente, em termos conseqüentes, sobre o estado do corpo. Esta é uma primeira leitura, que se prende ao nível moral. Vejamos o que ali se diz do corpo. Que ele é luminoso, que ele será luminoso. O corpo, não importando a aparência que possa ter, tem como característica essencial sua ser luminoso. Todo corpo, todo o corpo, tem como atributo seu indescartável o ser luminoso e, assim, um dia, atingirá no nível da manifestação essa realização. A iluminação do corpo não é algo que se conquista, é algo que se inalienavelmente tem. Isso, para o ponto de vista da essência. Para aquele que está a viajar pelos infinitiformes páramos do cosmos, é, para todos os efeitos de gozo, uma conquista. Às vezes, uma penosa conquista. E a respeito do olho, diz o Senhor que ele deve ser simples: απλους. Para entendermos melhormente o que isso significa, examinemos Lucas, 11:40, passo em que o Senhor Jesus se dirige aos fariseus:
“Loucos! O que fez o exterior não fez também o interior?”
O exterior e o interior do homem, aquilo que ele vê fora de si, seja o que for, aquilo, que tem dentro de si, seja o que for, tudo isso foi feito por um só, e, portanto, procedendo de um mesmo criador, goza tudo do mesmo privilégio, da mesma origem, do mesmo destino. Da mesma natureza essencial que está a revelar-se em cada ser. A revelar-se, a desvelar-se. A única coisa que distingue um homem do outro é a quantidade de matéria dita estranha que ainda tem apegada em torno de si. Estranha, porque não faz parte essencial do ser. E uns se deixam envolver por coisas materiais, e outros por outras coisas: sede de poder, orgulho, gloríolas, invejas, concupiscências, traições, genocídios, bebedices, drogas, mentiras, crueldades, adultérios, filantropias, méritos, medalhas, honrarias. Imensa é a quantidade de formas de que se reveste a matéria que é estranha à essência da luz. Que parece ser estranha à essência da luz! É esta matéria estranha - não em si mesma - que permite que o ser vá adquirindo consciência de si mesmo, de sua origem, do seu destino: o UM, a LUZ INEFÁVEL. Mas para aquele que passa a ter um maior grau de consciência do universo que ele está sendo, das infinitas potencialidades que jazem latentes em sua seidade, do caminho de infinda glória que ele está destinado a percorrer; para esse, porque antevê a entrada em liberdade em novas naves de mais autonomia, de mais maneabilidade, de mais limpeza, de mais alegria; para esse é importante que tenha pela nave que vai deixar um profundo sentimento de gratidão, de bênção, de solicitude. Ele precisa olhar para tudo com olho simples, e isso para que todo (o) seu corpo seja luminoso, leve, livre. Mister é que, transcendendo o nível de aparência das redes e enredamentos do mundo, veja em tudo e em todos aquilo que são por destinação cósmica: uma potente semente de luz viajando seguramente em pós de um desvelamento seu cada vez pleno, em demanda de seu glorioso destino ... a que sempre chegará ... a que nunca chegará. Para o homem, neste plano de ser-estar, há a expectativa da festa, há a festa, e há o vazio de depois da festa. Mas, para o ser em demanda do Um, jamais haverá o vazio da completude absoluta e final atingida. Haverá sempre e sempre um mais além. E dentro dessa perspectiva dada pelo olho simples, que só pode ver o um, o mundo, com seus cenários, com seus dramas, comédias e espetáculos, terá de sofrer uma interpretação diferente, um julgamento diferente, uma avaliação diferente. Os homens, as mulheres, as pessoas envolvidas, quer em representações de felicidade, quer em representações de tristeza, quer desempenhando heroísmos, quer desempenhando vilipêndios; todos eles devem ser considerados como essencialmente bons, como bons em origem e em destinação. Uma pessoa trai o companheiro, provocando-lhe uma grande dor, eis um drama comum em nosso século. Ora, o mundo já me ensinou como analisá-lo: o traidor será o vilão, o ofensor; o traído será o “mocinho”, o ofendido. Para um, olhos de repulsa, de condenação; para o outro, olhos de compaixão, de comiseração. Aquele que assim age ainda não está se preocupando em ter um olho simples; ainda quer, em verdade, fazer parte daquele drama; ainda faz parte daquele drama: a energia-luz que traz dentro de si sofre uma divisão: trevifica-se para o traidor, lucifica-se para o traído. E preso está nas malhas do dualismo, da dualidade, do relativo, do arbítrio, do juízo. Aquele que se preocupa em ter um olho simples não poderia ter a mesma atitude e sentimentos em relação àquele drama. Teria de agir diferentemente, unificando a divisão, identificando a dualidade, tornando idêntico aquilo que o olho dúbio separou. Assim, o traidor será o traído; o traído será o traidor. Mais que isso: o traído é a um só tempo o traído e o traidor; o traidor é a um só tempo o traidor e o traído. Ambos trazem em si o gérmen da traição, o gosto mórbido de encenar o drama, e um ora faz o papel do traidor, ora faz o papel do traído. E, assim, vão alternando os papéis na longa turnê reencarnacional... Dentro dessa perspectiva não há o digno de compaixão, não há o digno de censura. E assim é com todos os dramas. Com todos os atores, sejam eles assassinos-assassinados, espoliadores-espoliados, ofensores-ofendidos, violentadores-violentados, invasores-invadidos.... O que mantém o drama em cena é em primeiro lugar o empenho dos atores-autores, e em segundo lugar a energia que recebem dos espectadores, ou melhor, dos árbitros, dos juízes. Àquele que se preocupa em ter o olho simples, melhor lhe caberia o papel de espectador imparcial: não há que indignar-se contra o malvado, não há que compadecer-se do ofendido. A única coisa que o olho simples pode fazer é ver o bem, declarar que tudo está bem, é dizer bem de tudo e de todos. A única coisa boa que pode fazer é bendizer a tudo e a todos. É abençoar o ofendido e o ofensor. E poderá chorar com os que choram, e poderá indignar-se com os que se indignam. Mas que seja uma indignação santa, sem ofensa, sem a preocupação de ofender, de julgar. Poderá indignar-se contra o mal, mas não contra o mau. E quando se vir enredado em alguma situação de tristeza, de penúria, de desgraça, de doença, que deverá fazer o que se preocupa em ter o olho simples? Mister ainda aqui é que veja tudo com olho simples. O olho simples só pode ver o um. Assim, não poderá ver o dois, o outro. Para ele, só ele deve contar. Já viu que não pode culpar nada, nem ninguém, pelo que lhe aconteça. Já viu que o único responsável por tudo que lhe advenha é ele mesmo. Se alguém o ofende, ele também é ofensor. Se alguém o trai, ele também é traidor. Ele já sabe que tudo aquilo que caia sobre ele, foi disparado por ele mesmo. Pode não se lembrar do momento do disparo, mas já não tem dúvidas: se algo se manifesta em seu universo, é porque foi ele que o provocou. E assim deve ter diante do problema ou da situação uma maneira diferente de agir. Deve ter uma atitude humilde, de reconhecimento de culpa, e pedir perdão a Deus por isso, pois ele já sabe, mesmo sem o entender profundamente, que ele é o responsável por aquele estado de coisas. Mas sabe mais: sabe-se co-responsável, pois não foi ele quem o fez, foi ele quem o escolheu. Ele é responsável pela escolha que fez: esse o tamanho verdadeiro da sua culpa. Ninguém poderá condená-lo por ter feito alguma coisa, mas poderá condená-lo por ter escolhido aquela coisa. E exatamente nesse particular reside a sua possibilidade de libertação. Deve entregar tudo o que o assalta, que o fere, que o condena, que o maltrata, nas mãos piedosas e santas do Senhor Jesus, que tem condições para assumir vicariamente a total responsabilidade por aquilo que o homem esteja escolhendo. Ele já veio e demonstrou que já não há mais a necessidade de ninguém arcar mais com os seus erros. Basta confessá-los, reconhecendo-se pecador, e afastar-se da linha de escolha que vinha seguindo. Em o Senhor Jesus, a completa libertação, a possibilidade de assunção. Só nEle, e em mais ninguém, pois foi Ele quem se deu a si mesmo em favor do homem, de todo homem que o aceita como Salvador. Todos hão de entrar: isso é necessário. Mas cada um entrará a seu tempo, e uns com alegria, e uns com dor, e uns com muita dor. Pois o entrar é necessário, e tudo será feito para que ele se cumpra cabalmente para cada um de nós, que nos demoramos por essas paragens da Viagem. Sejamos sábios, sejamos sensatos: adotemos desde já um padrão de viver digno de nossa destinação em Cristo Jesus. Tenhamos um olho simples, que só pode ver o bem, primeiramente em nós mesmos. E logo o bem se manifestará pleno em nossa vida.
1Ts 5:18 Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.
Por isso, temos de dar graças em tudo, em tudo. Por tudo sim, mas principalmente em tudo. Em todas as situações, sejam elas as mais confrangedoras e intoleráveis. O início de toda libertação começa por esse ato extremamente poderoso: dar graças em tudo. Se estou doente, devo dar graças, não por estar doente, mas porque em verdade, em verdade, eu não estou doente: a doença, como todo mal que nos aflige não passam de uma mera ilusão, de uma mentira básica. Se estou em situação de penúria, devo dar graças, não porque estou nessa situação, mas porque em verdade, em verdade, estou em situação de abundância, não passando a miséria de uma ilusão, de uma mentira básica. Se me lamento, se me entrego ao desespero, alimento a ilusão, se declaro a verdade verdadeira da situação, espanco a ilusão, e ela tem de ir embora. Isso tudo, graças à Previdência e à Providência de Deus, de nosso Deus. Pois a vontade dEle em Cristo Jesus é que demos graças. E ninguém pode dar graças em vão! Alguém em situação desesperadora (para os homens) poderia declarar em sã verdade: "Dou-te graças, Senhor, nesta situação que estou vivendo, porque sei que ela é passageira, pois não passa de uma ilusão. A tua verdade, Senhor, a única verdade, me garante que estou são diante de Teus santos olhos, e é isso o que importa. Dá-me forças, Senhor, para que eu não me deixe levar por essa ilusão, por mais essa ilusão, pois, Senhor, eu quero viver na Tua verdade santa e maravilhosa. Amém. Em verdade. Assim é. Assim seja."
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