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Soares
Feitosa
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Antífona |

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II - PARTE SEGUNDA
Do medo
de apagar o Arco-Íris
"O olho não se cansa de ver
nem o ouvido se sacia de ouvir"
(Eclesiastes, 1:8)
1
Peneirava,
manhãzinha,
uma chuva clara,
entre a serra da direita, Canabrava,
entre a serra da esquerda, São José do Frade,
(tinha um frade, de pedra)
quando mestre-Sol mandou
o menino Chuvisco armar uma rede
para tirar um cochilo,
de tão cansado,
longa a viagem de todos os dias.
2 Era de um cerro ao outro a rede de mestre Sol,
a tolda recobria todo o vale,
vasta rede de muitas cores,
vastas franjas, vastas varandas, vastos punhos,
sete,
sete-cores,
sete-raios,
sete-listras,
sete
e a lira!
3 Era um arco a rede,
parecia cada ponta esconder-se
ao pé de cada morro,
onde diziam os mais velhos,
naquele logar,
pela raiz,
ao tronco,
onde nascia em arco,
como se fora um grande armador-de-rede,
morava
ali:
encantado
um pote
de mel-de-engenho, da Serra Grande;
outro de farinha;
um terceiro, d’água,
bem friinha.
4 Aliás, outros diziam que era um pote só,
apenas um,
porém,
de-ouro
ouro-líquido,
fumegante,
resplandecente o pote.
5 Outros diziam:
não há pote algum,
apenas o perigo de que passes por baixo do arco
e mudarás de homem
ou mudarás de mulher
6 (foi assim com Tirésias,
depois de apartar as serpentes;
primeira vez que apartou, virou mulher;
na segunda, virou homem)
7 pois também quem cortar o arco,
quem lhe apartar as listras,
passando por baixo, passando por dentro
se mulher, vira homem;
se homem, vira mulher,
vira também adivinhão, como Tirésias,
cego fica depois.
8 Cuidado, cuidado
e ninguém ia lá;
mesmo assim, diziam que dona Durica, de
barba,
valentia e cachaça cuspida,
passara por baixo e falava grosso.
9 Adivinhar ?
10 Estavam
esperando.
11 Diziam que o compadre Mané Aceno também passara,
não virara em mulher;
pelo contrário,
achara o pote,
de ouro:
moedas, patacões do império, libras esterlinas,
muita prata e muito cobre,
eu vi capitão!
12 “Veja, comadre Anísia —
disse mestre Mané (pedreiro) Aceno —
guiei-me num sonho,
era uma mulher:
13 (Alice, sua comadre, não sabe disso,
nem pode saber, cuidado, comadre!)
14 grande cabeleira de uma égua melada,
entre as crinas e o rabo, da égua, mas era mulher,
bonita,
tão bonita quanto nossa comadre
Dica,
bonita,
não deu para ver se era casada,
bonita;
era um coque que ela ia soltando
devagarinho,
eu seguindo,
avançando,
cautela,
muito medo, 15 comadre,
da porta da igreja até aquele morro — e apontou —
igualzinho às estrelas de presépio
que têm um caído de banda,
(um cometa, cauda do cometa, compadre)
disse minha mãe.
16 Era assim mesmo, comadre,
esse tal de cometa;
lá eu cheguei,
na casa do coronel,
abandonada,
debaixo de neblina,
e muito
pois o arco e muito raio
quando ouvi a Voz:
17 “É na casa velha,
do engenho,
no fecho da
forquilha,
basta
cavar.”
18 Latiam uns cães,
era o Cão, comadre,
benzi,
rezei para o finado Otacílio.
19 Continuaram a latir.
20 Aí me lembrei e perguntei:
21 “— quem pode mais do que
Deus?”
22 perguntei trinta e três
vezes,
é a idade de Cristo, comadre,
mas os bichos continuaram
latindo, ganindo.
23 Aí falei, cinco vezes,
nas chagas,
Chagas de Cristo, comadre;
de São Francisco do Canindé também, comadre,
as Chagas.
24 Os bichos calmaram.
25 Era o Cão.
26 Fedeu.
27 Cavei, comadre, veja!
28 Riquíssimo pote de ouro,
prosaica cabaça de mel com farinha,
apenas um arco-íris, para mestre Sol tanto faz,
alumeia, tanto faz,
mas
naquele dia, balançava um
pouquinho,
só um pouquinho,
acalanto fugaz de quem cansou,
e triscava o dedão do pé no paredão defronte,
onde de manhã bem cedo
ainda menino,
Sol-menino,
apoiara o queixo,
rasgara as mãozinhas,
na hora de nascer.
29 Era,
ali,
uma brisa leve, um balançar suave,
eis que assustava o tempo um silêncio pesado,
e um vaqueiro velho,
quase também um arco
e silêncio,
Adolfo, de tão velho, silêncio,
foi indagado:
30 Por que era que mestre Sol
não botava todos os dias
aquela roupa nova,
da feira, talvez fosse,
da missa,
da festa de domingo?
31 O velho disse:
32 "É o arco-íris,
só tem quando chuvisca,
não é todo dia que chuvisca
se não, não tem sol-quente
e sem sol-quente
a momona num estrala, o
feijão num bageia,
num amarela o milharal”.
33 O velho disse:
34 “Precisa!”
35 O velho disse:
36 “Quando tem arco-iris
é mode os bichos,
p’aprenderem a cantar,
eles esquecem;
você não viu
o canário-da-terra,
como ele andava capiongo?"
37 Eu vi, capitão, eu vi,
ou meu testemunho:
38 Durante o cochilo de mestre
Sol,
os bichos-de-pena se acalmavam,
talvez ensaiassem
as lições,
talvez de medo
de apagarem o arco-iris.
39 Logo depois,
mal mestre Sol acordava e partia,
despregavam o bico,
fúria nos céus,
todos os outros bichos também,
mas os bichos-de-pena cantavam um canto,
estrofes de um novo cântico:
40 Um gravetinho bem pequeno,
um saltitar
achegante,
um pula-daqui,
um pula-dali,
roçavam-se,
mais um saltitar
ligeiro,
um fiapinho de algodão,
uns gravetinhos
eram ciscados no bamburral,
no manjericão também,
para cheirar,
de amor e flor,
talvez,
mobília de casa nova
montavam,
acho que era.
41 E mais um vôo, capitão, parecia
o ritual de uma devoção meio aflita,
42 “o amor é
sempre aflito”,
disse o
velho, Adolfo.
43 mostravam-se — eram dois —
retornavam-se bico a bico, emplumavam-se;
o descompasso de um contágio de penas,
um arrepio de cores,
mais gravetos, mais cantares
e a brisa leve...
44 Eu vi, capitão:
era um fiar de cores,
um tinir de beijo e canto;
quase pairavam sob um gorjeio
miúdo,
instantes
pareciam desejavam algum silêncio:
calmavam-se
si
si
si lêncio.
45 O material, parece,
era aquele mesmo material
da deusa Mater Matuta
suprema deusa do alvorecer, quando tece
a pupila de todas as auroras,
as sete-cores do arco,
tece também a íris dos teus florais, amor,
os ninhos,
os lírios do campo
...
despreocupadamente,
passarinhos.
46
Despreocupadamente,
passarinhos,
era uma vez um
rabo-de-cavalo
e uma franja:
47 E se fazia a ordenação geral de todas as medidas,
ritmo e batimento de todos os traços,
de todos os gestos,
de todas as linhas,
finíssimas linhas das palmas,
uma palma por entre as palmas,
uma mão por entre as mãos,
a buscada irrepreensível de espinhos inexistentes,
48 (quando tinham os espinhos,
tiravam-se,
agulha e álcool que não ardiam;
arranca mais outro, amor!)
pois concílio de falanges,
a combustão tátil às portas de
todos os dígitos:
mão
entre mãos,
pétala a
pétala.
49 Perseguia-se,
às mãos, o que das mãos já se sabia;
50 Buscava-se,
na pupila, a luz que não cansava de olhar;
51 Ouvia-se,
na raiz do gesto, o som do gesto:
52 Somente as rosas falavam, pois
do perfume da estrela, pois
do silêncio das nascituras folhas,
da sinergia das borbulhas às forquilhas da mata
renovada,
rebento de coisa nova,
igual à semente túrgida, à erva úmida, o chão,
o chão profundo,
o estalar da flor: abrindo-se,
alborecendo-se o sol,
sol da manhã, o pássaro, a flor: estávamos...
si...
si...
silêncio.
53 Si,
silêncio -
sim,
meu senhor,
posto que, nem m esmo Lá
alguém jamais ouviu
o batimento dos céus;
alguém jamais colocou um chocalho
no riscar da estrela rápida;
nem conseguiu medir
o metro do firmamento;
pois muito menos
ouviu o refulgir dos astros.
54 De longe,
ouvir de longe,
como assim, meu capitão
?
55 Só se for às conchas
do mar salgado;
isso também conto.
Conto depois.
Esvoaçavam
franja
penumbra
apenas.
56 De que falas afinal, forasteiro?
Enlouqueceste?!
Queres um calmante?
57 Falo
de Maria Helena, capitão,
parece, o senhor não a conhece,
Ela,
Helena,
e era Antônia,Antônia Helena,
Helena Antônia, aquela,
da guerra geral de todos os sentidos,
Ilion,
Tróia.
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