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- 25.05.2000:
1.
Relatório do impacto inicial
Um poema
intenso, provocativo.
Patético, sem
pessimismo.
Dramático,
sem pieguismo.
Uma
interrogação belíssima.
Um clamor da
alma.
O gemer do
espírito prometeicamente acorrenatado à rocha do solene e
fleugmático desconsolo?...
2.
Relatório de navegação:
O poema,
distribuído em 14 estrofes, faz-nos lembrar dos 14 passos da cruz.
A verdade
crucificada 14 vezes... Infinitas vezes?
E a sede
causticante do saber, do buscar a resposta.
Uma resposta
que pode machucar, ferir, queimar.
A verdade
buscada - e sempre fugidia? - que moveu a Inquisição com seus
torquemadas, que imolou tantos Brunos.
Em nome dEle?
Em nome de um
fanatismo megalômano, teomiminizante.
E onde
buscar a verdade?
Nos lábios
que se teriam calado diante da pergunta de Pilatos?
Nos
palheiros, nos infindáveis e labirínticos meandros do fogo da
paixão, da reflexão, do inebriar-se?
E a quem
dirigir a pergunta?
A ouvidos
incertos, alheados, transcendentemente surdos?
E qual o
preço a pagar?
Qual a taxa
alfandegária para liberar as verdades?
A verdade?
A Verdade?
O alicate - a
prisão?
A unha - a
tortura?
O desterro -
o exílio, o isolamento?
A tenaz - a
angústia, a opressão?
E
crucificou-se a verdade. A Verdade?
E a
conseqüência disso no coração do homem?
A piedade? A
misericórdia? A solidariedade?
Não!
O fanatismo,
as perseguições, a cristianização etnocida, as guerras santas, as
santas guerras.
As
catequizações esterilizantemente maquiavélicas, maniqueístas...
Em vão o
seu sacrifício?
Em vão o ter
ingerido o cálice até a última gota?
E este
cálice? Como ingeri-lo?
E este
cale-se? Como tolerá-lo?
E o que
nos ficou?
Uma verdade
que, se existe, não conhecemos.
Extraviou-se,
perdeu-se.
(Para
sempre?)
E nós nos
perdemos com ela.
E nós nos
extraviamos com ela.
E se não
há, accessível, pronta para uso, essa verdade que nos conforte, que
nos oriente, que nos ensine o que fazer de nossa vida, de nossa
existência?
Fruste o
enlace?
Eros e
Psique, divorciados... até quando?
Como acelerar
otimamente o alquímico processo?
Não
estaríamos investindo, por insciência, num terrível adiamento?
3.
Relatório de impacto final:
O poema,
denso, nos maravilha, pela intensidade do patético desse ser que se
sonda, pavidamente impávido, à beira do abismo - sem fundo, sem fim?
- ... De si mesmo?
Notável!
Grandioso! Transtelúrico!
Do
admirador,
Romero.
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II -
03.06.2000:
ECOANDO
O PENÚLTIMO CANTO...
Entrada:
O poema, cal virgem nas águas da emoção, da sensibilidade...
Turbulência... Calor... Fogo....
Causticou! Inquietou! Arrebatou!
E eis-me de volta, eco pálido do seu verbo forte.
Garimpagem:
(Alguns
comentários punctuais)
. "O que
mais terei deixado de esconder?"
O tempo:
um passado em relação ao futuro.
A
preocupação: o esconder, o ocultar, o não revelar.
O
referencial: este poema;
o poema da busca;
a vida;
a existência.
Depois de
lido o referencial, o que mais ainda ficou por revelar?
E esse
caminho do revelar, do revelar-se, seria ele infinito?
Infinitamente
infinito?
Por isso,
também, o "Penúltimo Canto":
o penúltimo poema;
a penúltima vida;
a penúltima existência;
.................................
É de se
notar, também, a ambigüidade do termo mais.
1) O que
ainda haverá a esconder?
2) O que é
que terá ficado mais escondido?
. "Uma
resposta
.....................
uma
indignação silenciada pode ser."
A boa
resposta, a que nos plenamente satisfaça, tem de ser:
1) rápida,
captura instantânea de um átimo de deslumbramento.
E, acima
de tudo, o tempo urge, o tempo voa!
2) roubo. Tem
de ser uma apropriação-transgressão.
Ela precisa invadir, precisa ousar,
precisa abeirar-se das fímbrias do ainda-proibido.
O botim a que todo Prometeu aspira...
3) "uma
indignação silenciada" "pelo silêncio".
A boa
resposta indigna, escandaliza,
fere a
sensibilidade de muitos.
E
precisa ser silenciada, calada.
Pelo
silêncio, pelo desprezo,
pela
indiferença, pela desqualificação .
Isso, o
menos.
Pelo
silêncio, pelo silenciamento,
pela
mordaça, pela tortura,
pelo
extermínio, pela aniquilação.
O ter
achado, algo plenificante.
O falar,
algo temerário, insensato, perigooso.
Mas...
. "Falar é
compulsivo"...
Falar para
quê?
Para
"fazer
retornar o eco
e as
palavras retornar"...
Quem busca,
quem acha,
ou quem acha
que achou,
precisa
falar, ainda que sozinho,
na esperança
doida, doída,
de encontrar
um eco,
que faça as
palavras de origem
retornar mais
límpidas, mais claras, mais suas.
O símbolo
para aquele que o profere
também é um
símbolo:
um símbolo do
qual ele viu uma faceta,
uma
profundidade, um sentido.
Mas sabe que
quando fala,
fala de
coisas que (bem) entende,
de coisas que
intui,
de coisas
que, também, para ele,
estão
envoltas em densas brumas.
De aí, a
importância do retorno,
uma e muitas
vezes.
. "que
retornadas"
......................
"nos
resguardam das respostas
jamais
dadas."
As
palavras, quando retornam de sua jornada
às alfândegas
do Verbo,
nos
resguardam, nos protegem...
De quê?
Resposta
insólita:
Das respostas
jamais dadas.
(Trecho
ultradenso, de difícil penetração!)
Há respostas
que jamais foram dadas.
Qual o prazo
de validade da assertiva?
Há respostas
que talvez jamais nos sejam dadas.
E isso, para
nossa proteção.
Há respostas
que nos chegam, e delas falamos
("Falar é
compulsivo").
E uns a
recebem com alegria.
Outros, com
indiferença.
Alguns com
espírito de contradição.
E há aqueles
outros possuídos
de grande
zelo-copyright de Deus...
E a fogueira
da execração quando se apagará?
E há
respostas que - negadas - nos defendem de nós mesmos.
E há
respostas que - negadas - nos defendem do mundo.
(Mas tudo
isso que temos falado é pouco
para se levar
a um entendimento, ainda que leve,
do que
aquelas densas palavras acobertam
com um
diáfano e espesso véu.
A
resposta, aquela, é qual
"cal virgem
que n'água incendeia."
Linda e
intrigante imagem!
A resposta,
aquela, é virgem:
inaudita,
inédita, quase inefável!
A resposta,
aquela, é cal:
calor, fogo,
turbulência,
na água da
emoção, da sensibilidade!
A resposta,
aquela, incendeia.
Calcina,
reduz a cinzas: a Fênix à espera...
(O que
mais falar diante de tanta densidão?)
Para
finalizar, a terceira estrofe, núcleo, no meu entender,
de todo o
poema.
É aqui que os
arquétipos se mostram mais primais.
Por isso, o
verbo é aqui especialmente denso,
exigindo do
leitor um tremendo esforço
para dele
vislumbrar uma mera - e grandiosa - sombra.
. "Roçar
dois paus, bater um ritmo de noite inteira,"
Dois paus:
um será o excitador, o ativo, o masculino.
Aquele que busca.
: o outro será o excitado, o receptivo, o esperativo, o feminino.
Aquela que é buscada.
Eros e
Psique.
E há entre
os dois um roçar, um leve tocar, quase imperceptível.
E todo o
processo de produzir o fogo está afeito a um ritmo,
feito de sons
e de pausas intercalados.
E há de durar
uma noite inteira, um período inteiro
em que o que
tenta produzir fogo (Quem é ele?)
está
mergulhado em densas trevas. E os dois paus também.
. "ajuntar
a chama ao leve sopro"
Chama: fogo,
paixão, arrebatamento.
Sopro:
espírito.
O Batismo de
Fogo?
O Batismo do
Espírito Santo?
O encontro em
enlace do eu com o Eu?
Mas quanto
tempo, quantas vindas isso requer!
E eu "preciso
da resposta aqui, ligeira, o lingüeirão de longo fogo,"
"camaleão de
língua vasta,"
Camaleão:
transformações, metamorfoses,
mascaramentos, personações.
Por quantas
vindas, por quantas vidas, por quantas metanóias,
é mister
passar,
até chegar a
Hora?
"e o
enlace
agora, agora,
pois
daqui a pouco
serei a lembrança distante de um homem,
mera
lembrança de quem:
já morreu."
Aqui o
Poeta fala da preocupação central que anima,
com vívido
fogo,
o seu viver,
o seu
viver-em-buscar,
o seu
buscar-em-viver.
Ele já sabe
que está predestinado - inexoravelmente - a experimentar
- como ele ou
como o outro ele? -
um momento de
imane glória:
aquele
momento sagrado, em que os dois pólos
complementares de si mesmo
irão se unir
em transcendentais núpcias.
Mas ele
deseja isso para agora,
enquanto ele
é ele mesmo,
vestindo a
personalidade que atualmente atua
no palco do
seu ser,
no palco do
seu estar-sendo.
Amanhã ele
será ele mesmo,
mas será
também aquele que hoje ele está-sendo?
Essa, talvez,
a pergunta
(ou uma das
perguntas)
de cuja
resposta estamos resguardados...
E encerra
o poema (pois é aqui que está o clímax de tudo):
"Terei eu
sido cúmplice de alguma vagareza,"
Cúmplice
de quem?
- Dele mesmo,
de uma parte
dele mesmo que rejeita e acolhe
a um só
tempo.
(E aqui
teríamos material para farta reflexão.)
O fato é que
percebe que, de alguma maneira,
ele está
contribuindo para adiar o tão esperado momento,
coroamento do
seu longo jornadear.
"louco de
alguma pressa"
Ou teria, de
alguma maneira, apressado de mais o processo,
perdendo com
isso alguns dados fundamentais
para o seu
mesmo realizar-se?
Como
sabê-lo?
Como agir de
maneira a optar pela estratégia ótima,
aquela que o
liberte, desta vez?
" - e a
resposta -
onde,
onde a
resposta?"
______________________
Soares
Feitosa:
Desculpe-me por ter invadido, atabalhoadamente, os escaninhos
do seu
sagrado.
O discursivo,
ao se deitar sobre o poético, tem esse dom
de
deformá-lo, de apequená-lo.
Mas esse
mesmo discursivo, depois de ter mostrado uma nesga
de sombra do
poema, tem de se recolher a sua pequenez e
remeter o
leitor para uma viagem mais nítida.
Essa a sua
desculpa.
Tive de
voltar ao poema, uma e muitas vezes.
E agora o
ecôo.
É que a
palavra, quando é forte,
penetra
fundo, provocando ecos
que não podem
ser sufocados.
Exatamente
como você disse!
Obrigado,
grande vate!
Do seu
admirador,
Romero.
Abraços
cordiais.
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