Sobre o "Ma fi Alah!"

 

Li com carinho o relato-conto-prospecção em que o real se confunde com o virtual.

Em que a realidade, o factual, se intermixa com o fictício, com o fingimento.

Em que a arte se confunde com o relato do quotidiano.

Em que o prosaico se funde com o poético, com o místico.

Depois que Pessoa disse que "Tudo é símbolo e analogia", não importa saber onde

termina o real e começa o imaginado.

Por isso, vou partir de um exame de alguns nomes que ocorrem no texto.

Primeiramente o principal: Youssef, que significando José, significa "Deus

proverá."

Não sabemos se Youssef sabia disso ou não. Mas isso não é importante, pois em

sua vida íntima era exatamente isso que ocorria.  Youssef vivia na busca de algo

que ele não podia partilhar com ninguém. Primeiro, porque não queria

escandalizar a ninguém; segundo, porque era um assunto que só poderia ser

entendido dentro de uma visão de processo, e isso era não era viável de ser

transmitido a outrem. 

Vou parar de falar em Youssef, para falar do Profeta, cujo nome Camundo, já

pode nos dizer alguma coisa sobre o tema.  Camundo se desdobra em Ca + mundo.

Ca é cá, aqui.  Neste mundo, neste século.  E mundo significa limpo.  E profeta

é aquele que faz uma leitura de realidade com base em arquétipos que se

manifestam de alguma coisa.  É aquele que  pode ver o que é senha e o que

não é, e ler o que as senhas estão querendo obviamente dizer.

Porque como disse Pessoa "O mistério das coisas é elas não terem mistério

nenhum."  (Estou citando de memória, por isso as palavras podem não ser

exatamente essas, mas esse é o teor do que ele dizia.)

A melhor maneira de se esconder uma coisa é não escondê-la: é deixá-la patente,

à vista de todos.

O  Profeta, tendo uma visão límpida de mundo, tem condições para penetrar em

mistérios muito mais do que uma pessoa que busca o que não deve buscar porque

estimulado pelas coisas marçanas deste mundo: tesouros,  fórmulas, patentes.

O viés do lucro ou do proveito impediu que se fizesse uma leitura mais adequada

do testamento do tio.

O seu testamento, estando num Livro Sagrado, tinha de ser algo relacionado com

o Sagrado, com as coisas produto de uma reflexão diuturna voltadas para um mais

além. 

O Profeta estava onticamente equipado e noeticamente assestado para produzir

uma leitura mais em consonância com a vida de Youssef: uma vida de meditação,

de busca, de reflexões voltada para um só tema: a existência ou não de Deus.

E, como era uma vida-leitura, uma leitura-vida eivada de conflitos, de altos e de

baixos, ele piedosamente não quis que os outros partilhassem de seus cismares,

de seus graves cismares.

O Profeta, sintonizado em outra dimensão, a mesma que envolvia os ideamentos

de Youssef, teve condições de fazer uma leitura mais adequada daquilo que

Youssef tinha deixado escrito: "Ma fi Alah!", e chegar à conclusão de que ele

tinha-se salvado, estando gozando as delícias do seio de Abraão.  Em completa

contradição em relação aos demais, que o criam condenado.

O Profeta logo descobriu que o tio apenas escrevia e apagava a cada dia uma só

palavra: "ma" , não, em árabe.  Ele lia ou se recordava de uma passagem

bíblica e refletia nela, e chegava à conclusão de que Deus existe. Outro dia,

refletia sobre outra passagem e chegava à conclusão de que Deus não existe.

E usava sempre o mesmo espaço, no final do Livro: consciente ou

inconscientemente ele registrava um processo, em que ,a cada reescrita, ele se

aprofundava mais no assunto.  E isso me faz lembrar a atitude dos monges 

orientais em relação à questão do que é Deus. Eles apontam para um objeto e

dizem: "É isto". E logo em seguida: "Não é isto." E em seguida: "É isto." E assim,

sucessivamente.  E a cada declaração vão se aprofundando no entendimento de

o que (quem)  é Deus.

Assim, a cada dia Youssef deveria ter um entendimento mais aprofundado acerca

da existência ou não de Deus.

O Profeta raciocinou bem, chegando à conclusão de que o tio estava salvo, e não

condenado.

Mas ainda resta uma outra possibilidade de entendimento do fato.  Goethe,

quando estava morrendo, disse para o serviçal de quarto: "Licht, noch mehr

Licht!" - "Luz, ainda mais Luz!"  Isso nos faz pensar que Goethe tivesse em vida

a noção de que Deus é Luz.  Nas vascas da morte, ele retificou-se, dizendo para

o serviçal que  o devia acompanhar e devia saber das suas reflexões de 

moribundo, que Deus é ainda muito mais Luz do que ele supunha.

E o que tem isso a ver com o relato sobre o tio José?

Youssef deve ter chegado a uma conclusão, por aprofundamento de conceitos,

de que Deus não existe: não tem manifestação física ou extrafísica.  Deus está

além, muito além do existir, num plano de existir, que não é existir.  Pois existir

significa estar fora.  Ora, Deus jamais está fora de qualquer coisa, pois Ele

é o Dentro de todas as coisas.   O mais Dentro de todas as coisas.  E esse plano

de existir não tem palavra para ser expresso.  Deus realmente não existe!

Deus é!

Mas mesmo essa declaração está sujeita à atitude dos monges acima citados.

Deus está além, muito além de ser!

Deus ... !

E a propósito da palavra truncada pela morte só pode ser mesmo clarão. 

"Clarão, ainda mais clarão!"

 

Casa Branca, 23 de outubro de 2006

o peregrino