Soares   Feitosa

  Psi, a Penúltima  
                                                                       um poema heróico   

Em sendo maiúscula

Y

é candelabro

fogo, luz, glória!

luz, glória 

 

Em sendo minúscula 

y

é mandacaru,

sofrimento, 

resistência

 

 

 

Já se sabe:

para uma notícia justa

há léguas de cacofonias,

de confusões verbais e de incoerências

[Jorge Luís Borges, in A Biblioteca da Babel]

 

 

a Gerardo

 

 

.

Tirinete de abrir

A CITAÇÃO   
à maneira de mote:  
  

 

 

(...) a tua verde mão   
terra de aurora   
pois te cerca e me cerca    
a aurora com suas coisas:    
e são coisas da aurora   
a estrela morredoura   
a nascedoura rosa   
e sob o azul azul   
do céu o boi mijando   
fervoroso no curral   
o relincho do cavalo erecto    
sobre as ancas da égua   
estas são — parece — coisas da aurora   
e a aurora é coisa minha   
...................................   
...................................   
quem sabe deste infante?   
a coronha do rifle   
o percorrido mapa   
e um promontório de ouro   
— ó musgos de Isabela —   
e esses musgos de fêmea   
são coisa minha   
só tenho as minhas coisas   
e as minhas coisas são   
o cavalo a égua o touro   
o bode o rifle esta dama de copas   
este gibão de couro   
e a rosa que te colho:   
e essas coisas trabalho   
e também a viola e o mapa-múndi.

A OFERENDA

no mesmo tom do mote, 

a Gerardo, Poeta

 

 

Mandei campear

nas minhas sesmarias

 

 

Soares

&

Feitosa

 

 

 

o meu melhor novilho

para soltar nos teus Mourões

que também são coisa minha!

 

 

 

Um guapo garrote,

linhas tão finas,

tão gentis

——————»—»—» e tão guerreiras!

 

 

 

Era a minha melhor rês,

geometria tão pura

do Agrimensor!

[De Gerardo Mello Mourão, 

fragmento do primeiro poema 

de Peripécia de Gerardo]

Francisco José Soares Feitosa,

(Terras de Siarah),
  12 de 12,  Seca do 93

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da notícia

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

III Semana da Raiva no Maciço tenta obter controle da doença

 

O surgimento de 11 casos positivos de raposas com raiva, em municípios do maciço de Baturité fez a Secretaria Estadual de Saúde promover uma reunião de emergência, no Seminário de Guaramiranga. Aberto ontem de manhã, com término previsto para as 18 horas de hoje, a III Semana da Raiva de região pretende capacitar profissionais para implementar o controle da doença. Dez mil cartilhas serão distribuídas pelos agentes de saúde, ensinando a população como agir no caso de mordida dos animais, e como evitá-los. 

Segundo o coordenador das zoonoses no Estado, Nélio Batista de Morais, a raiva silvestre ainda é um grande problema no Ceará e nos países do primeiro mundo, tais como o Estados Unidos, Canadá, França e Bélgica. Não há prevenção da vacina em se tratando de raposa, morcego e sagüi. Assim, destaca, ser o trabalho de educação em saúde o mais eficaz, sensibilizando o cidadão para evitar o contato.

 

RAPOSAS EM BANDO

De acordo com o depoimento de pessoas agredidas, as raposas surgem em bando, geralmente ao final da tarde e perto de localidades com água. São animais magros, já apresentando queda dos pêlos. Nélio acredita que isto aconteça por conta do desequilíbrio ecológico causado pela seca. Os animais, devido o instinto de sobrevivência, estão migrando de seus territórios para outros, gerando inclusive ataques entre eles e transmissão maior do vírus da raiva animal.

Os casos de raiva, este ano, foram diagnosticados em Acarape, General Sampaio, Mulungu, Pacoti e Horizonte. Ano passado foram sete, dos quais 90% concentrando-se em Tianguá. Através do trabalho educativo do 12º Departamento Regional de Saúde foi possível o ano de 1992, com o foco, e sem ocorrer o registro de raiva humana. Em caso de agressão, Nélio recomenda as pessoas a procurarem urgente a unidade de saúde mais próxima, para se submeterem ao tratamento anti-rábico.

A situação no Maciço de Baturité foi exposta ontem por José Delson Portela de Aguiar e José Eduardo Cabral Maia Junho. A política de saúde da região foi explorada (sic) pelo diretor do 1º DERE, Raimundo Gomes de Matos. Hoje a abordarem será sobre o diagnóstico laboratorial, de cuja mesa redonda, Nélio Morais também participa e a programação se desenvolve ainda com a avaliação dos casos de raiva feita por Francisco Fraga Pereira, concluindo com as propostas para implementação do controle da raiva, no Maciço.

 

 

 

 

 

 

CANTO I

 

DOMINANDO A SERPENTE

 

 

 

Na página anterior,   
sintetizei os jornais,   
mostro o pau e mostro a cobra   
de chocalho,   
dezesseis enrusgas,   
contei e guardei.    

                                                     Consertava...   

—  É com cê ou é com esse?   
    

                   Tanto faz, 

                   água,   
                   água aqui é sempre música,   
                   o pau-da-cacimba do gado,   
                   com o Mitim da dona Cotinha,   
                   areia seca, rio Macacos...   

                   quando ela chegou,   
                   Crotalus terrificus... naquele tempo!   
    

Matei e enterrei,   
buraco do formigueiro.   
    

                   Os jornais de minha terra   
                   nem souberam, nem disseram...   
    

—  E era para saberem?   
    

                   BBC, Voz da América,   
                   Rádio Tirana, nem um pio...    
   

—  E o meu rádio e o meu jornal?   
    

                   Lá em casa não tinha rádio,   
                   muito menos jornal,   
                   os assuntos eram os de sempre,   
                   de manhã, de tarde e de noite,   
                   comeu, trabalhou, dormiu!   
    

 

Agora peço licença   
para contar o silibolo:   

é outro pau,  é outra cobra,

nem é pau e nem é cobra,

é tudo pau, é tudo cobra!   
   

Raposa? Nunca matei!

Pois lá vai tinta: 

 

 

 

 

 

 

 

CANTO II

 

A BUSCA

 

 

 

À notícia dos jornais,   
corri ravinas, malocas, locas,   
espinhos, garranchos, carrapichos,    
buracos, pedregulhos, poeiras, caatingas,   
tocas, ocas, precipícios...   
   
   

       Gritei:   

alwphx (alopex) ?!   
Vulpes?!   
— Renard?    
— Renaaaard
?

Não escutei,   
quase desisti.    
Lembrei Assis, Canindé, Francisco:   
    

— Francisco?!    
    
—  Francisco!?

— Fale simples,

chame a “Comadre”

(disse o Santo),

é a senha,

batei, abrir-se-vos-á!

 
Do oitão da Basílica, Canindé,   
Pico-Alto,    
Pico do Caga-Fogo,    
vaga-lumes apagados...   

Baturité, maciço,    
as brenhas,    
todas as brenhas.   
Ananias autorizou.

 

 

 

 

 

 

 

CANTO III

O ENCONTRO

 

 

 

— Comadre Raposa,    
oi de casa, sou de paz! 
  

— Diga lá, compadre Chico,

   irmão Francisco já avisou...

       escutei o compadre chamar

          Helade, Latium, Gallia

[sem a senha, jamais responderia...],

          muito prazer,

sua criada,

            a Comadre.

   

Avistei a Comadre,    
esquálida, cinza, fulva...   
caídos os pêlos,    
magra,   
pelagra...  

            
Arrepiei!  

Arrepiei!  
  

Três cabelos, pretos, duros,    
do Coisa,   
ponta do rabo,   
a Comadre carrega, dizem.   
sub   
super   
fantástico   
extra-sensorial...!   
    

Quem já viu a Comadre,    
vasqueira,    
chofre!    
Cacimba de praça,   
riachote do gado,   
tardinha barrenta,    
cinza, poeira,  pó:    
Pfummm chiiiuufff chiiiuuufff   
 

Dentes, rapa-pé, garras, hiato, pizzicato!!!   
Arrepio tremido,    
espanto!    
Um susto:    
fugiu!   
Cadê?!    
Cadê!?    
Fumaça:    
sumiu!  
 

Se não assustou,    
é o próprio Capeta...   
ou, finório mentindo,    
cabrão disfarçado.

 

 

— Foi medão, Comadre!   

 

— Não tema, Compadre,

   os três-cabelos,

deixo de lado...

 

 

 

 

 

 

 

CANTO IV

 

CONFIDÊNCIAS

 

 


— Antes que eu me esqueça,    
tá’qui a borracha-de-sola,     
o Santo mandou;    
agora me diga, Comadre,     
é verdade,    
tanta coisa que dizem?!   

 

— Compadre Chico, longas queixas,

   tiraram séculos de assinatura:

cantadores, poetas, profetas,

     escultores, pintores, prosadores

      dizem-me bruxíssima,

       do Coisa-Ruim.

 

 

— Não sou!

   Direitos divinos eu tenho,

    d’Ele!

     “Até a raposa tem sua toca”,

      Mateus, capítulo oito,

       versículo vinte,

        faço questão,

         vá conferir!

 

 

— É tudo inveja, Compadre,

     da doação...

      d’Ele...!

 

 

— Acabem-se os chiqueiros,

     destruam-se os currais,

      estábulos e pocilgas,

      as cavalariças reais,

        acabar-se-ão todos, Compadre...

         menos a minha toca,

          Ele disse:

           é da Raposa!

 

 

— Daí a inveja.

        É tudo inveja, Compadre!

 

 

— Lenda também os três-cabelos...

    Passe a mão, Compadre:

      veludo, maciíssimo...

       só um pouco resseco,

        da Seca, Compadre.

 

— É verdade, Comadre, finíssima seda!

 

— Espertíssima, fabulam;

    democrata, mineira, dizem

      orçamento, empreiteira, CPI,

       fosse verdade, teria eu ficado,

        com sêde, na sêde,

         doida, faminta, varrida?

          Estaria em França, Suíça, Londres,

          circuito das águas...

            faminta, jamais aqui!

 

 

— Uma injustiça, Compadre,

   Esopo, Fedro, La Fontaine,

    La Bruyère, Exupéry,

     sentenças & aforismos.

 

 

      Espertos, eles!

          Pra cima de moi,

           zombam de mim,

tudo inventado, Compadre.

 

 

 

 

 

 

 

CANTO V

 

PERSEGUIÇÕES

 

 


— Agora, o panfleto,

   veja, Compadre,

       a infâmia!:

        Procura-se!

         Bandida!

 

— O que irá dizer compadre Urubu!?

   É só quem está gôoorrrdo, Compadre!...

       Irmão Francisco teria esquecido,

        não mandou um queijinho para ele?

— Ah, sim, mandou, claro,     
por favor, tome,    
entregue você mesma.

— Meu daguerre...  Compadre,

   no portão da feira,

        aeroporto, estação do trem!?

 

 

— Estou tão magra, arrepiada,

         um shampoo,

           uma mise-en-plis...,

           o rouge, Compadre,

            você tem um?!

 

 

 — Dez mil panfletos...?

       é demais, Compadre!

               Estão loucos!

            Eles,

não eu!

 

 

 

 

 

 

 

CANTO VI

 

TALENTOS & CRUELDADES

 

 

 

— Veja, Compadre, a Injustiça:

      Mico-Leão Dourado,

        Baleia, Panda, Peixe-Boi,

            minhas irmãs, Azuis, do Canadá...

             São os Ricos!

             Pobre Raposa Cinzenta...

              Sede, com sede e sede!

              Cacimba, cacete, armadilha,

                  está doida, dizem!

 

— Fosse com eles, os ricos,

       nestas brenhas:

        pires-de-leite,

            nectarinas,

            uvas, Compadre!

             até uvas

               já teriam ajuntado!

— Comadre, confie,    
um dia chove!   
Canapuns, maxixes, melancias,    
rasteiros!   
São seus!

 

 

 

 

 

 

 

CANTO VII

 

ENGODOS & ESPERANÇAS

 

 

 

 

 

 

— Compadre, e um rio,

   dizem que vão puxar,

    nome do Santo, irmão Francisco,

       uvas, dizem,

        é só o que tem!

          É verdade, Compadre,

          tem mesmo?

 

— Moscatel, champagne, itália,  
de-mesa, rosée, lindas, um mel!  
Do tamanho de um oiti!   
Tem, Comadre, tem!

— ........................  Maduras, Compadre?

 

— Sim, Comadre,  maduras!

 

— ............................................ Compadre,

   com esse tamanho todo,

      devem encostar no chão................. não?

        Aqui só entre nós:

        ................(baixinhas), Compadre?

 

— Pode confiar, Comadre, bem baixinhas!

 

— Compadre, é assim mesmo...

       tão fácil... incrível!

           Eles não atrepam os galhos...

            por que, Compadre?

 

— Comadre, é que.......................................   
..................................................por...  lá...  
nem gostaria....................................  
...............................................  eles...   
aca... ... ...   
acabaram.............................  
com... .... ....  com as...  
com.....................   
Com com  as rar-ra-rar-ra-  
raposas!   
Acabaram!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

y 
a Penúltima. 

Se minúscula: 
Seca, cardeiro, 
mandacaru, sofrimento & resistência.

 

 

 

Michelangelo, Pietá

 

Michelangelo, Pietá

 

— Compadre, deixe esse rio pra lá...

       Sei que você trouxe a máquina,

        bata logo o tal retrato,

            ande logo, Compadre,

             é do meu destino:

             vou fugir!

— Comadre, fugir não é destino,  
é fugaz alternativa do ficar e lutar...  
Não trouxe máquina nenhuma,  
nem sei fotografar!

 

— Esse embrulho, Compadre, o que é?

 

— É um lençol, Comadre,   
do melhor linho...  
esses potinhos: incensos, aromas...,   
vim preparado, Comadre!

 

— Preparado para o que, Compadre?

   para me embrulhar,

    para me vender?

        Por que não me beija logo?

         Afinal, quem é você?

 

— Comadre, sou Piros...  
Acompanho os Heróis,  
Francisco não lhe disse?

 

— Tão manso de coração, o irmãozinho...

      Eu o notei preocupado...

      Chico Pires, Compadre,

       é assim mesmo a sua graça?

 

— Não deixa de ser também, indiretamente...  
Chico, de Francisco, faz parte da senha...  
Pires, não é nele que colocam o lume?  
O Candelabro,   
a penúltima letra...

 

— Letra?

      que letra, Compadre?!

          vão escrever o que no panfleto?

           Todas as mentiras de sempre?!

            Por que a penúltima, Compadre?

            A última não seria mais rica,

               O w mega (o ômega)?!

 

— A última não existe, Comadre,  
nada é último...  
Só Ele, quando voltar...  
Último acaba...  encerra... aniquila.  
Penúltimo, nunca esgota,  
sempre é possível   
criar...   
criar por sobre...!  
Tudo em aberto, Comadre!

 

— Compadre, o seu mestre-escola

      não perseguia o Dez?

           Contentar com o Nove, Compadre,

        não seria inferior?

             Estaria o Compadre justificando

            esse um faltante,

             ao discípulo,

                  o direito de discordar?

 

— Comadre, nada é Dez, 

nada é Ômega,   
já expliquei...  
O correto é Psi, a penúltima,   
sempre tem vaga...  
Ômega é Ele,   
você interpretou direito,   
nunca esqueça,   
fique com o Candelabro!

 

— Compadre, por que o Candelabro, 

nestes matos secos?

   vão-me tocar fogo?

    Os três cabelos...

     Nunca fui bruxa,

         é tudo inveja, já disse!

 

 

— Não, não, Comadre!   
O candelabro é a maiúscula;  
o mandacaru é a minúscula...  
Mera questão de escolha, Comadre.

Veja, aqui está o brasão:

Yy

—  Mas sou Piros,  
o Fogo, grego, Comadre!

 

— Queima o que, Compadre, esse seu fogo?

   Tão gentil, abrasa corações?

    Um espelho, Compadre,

     você tem um?

— É um fogo muito velho, Comadre.  
“Eis o fogo e a lenha,   
onde está o cordeiro?”   
Eu estava lá...,   
vi tudo, Comadre!

 

— Onde mais, Compadre, você andou?

 

— Em Varsóvia, no Gueto,  
Toledo, Massada, Termópilas,   
Canudos, Caldeirão, Calvário ...  
Petrogrado, também no Paraguay,   
La Moneda, estive com Mandela...   
Corro o mundo todo... a postos...  
Surja um Herói,   
chego junto, erijo o Altar!  
Trabalho muito pouco,  
difícil surgir um...  
Senti o cheiro da Glória,  
por isto estou aqui...

— Heróis, Compadre, nem pensar.

       Já disse, vou fugir,

           é do meu destino,

            sempre fugi,

nunca deixei de fugir!

— Tem sido por isso, Comadre,  
a outorga... d’Ele!   
Ainda assim fugindo...  
Sempre fugindo...   
A vida...?

— Compadre, por favor, não zombe...

       minha fraqueza,

        não basta a Seca, não basta a sede,

             agora também o panfleto,

             o Compadre acha pouco?!

                  Agora me diga, Compadre:

              o lençol,

              as essências,

               afinal,

                    para quê?

— A Comadre queira dar um basta,  
lute, lute, até o último de seu...  
Estarei aqui, neutro   
nunca intervenho,  
não posso intervir!  
Eu sou o Circo, Comadre,  
o grande Circo,  
eu glorifico,   
só isso,   
eu glorifico!!!

 

— A Comadre arriscaria tudo,   
a vida, claro,  
risco total,   
mas poderá ganhar...  
Fugindo,   
escrava, escrava, escrava!   
Sempre escrava...   
sempre!? 

Os fabulistas, Compadre,

foram eles,

pregaram uma peça no Compadre!

Brigar, como poderei?

Eles são fortes!

E se eu morrer?

 

 

 

 

 

 

 

CANTO VIII

AVENIDA COMADRE

 

 


— Comadre, dez mil panfletos, 
ninguém jamais escapou... 
Se a Comadre batalhar bravamente, 
mesmo que a despedacem... 
as outras raposas virão 
quando o inimigo se retirar... 
Cheirarão um fraco corpinho, 
farão um grande alarido, 
mas dirão: 
estes caquinhos, 
tão magrinhos, 
é a nossa Comadre!

 

— Depois, elas sairão, cabisbaixas, 
de luto, 
engrandecidas, porém, 
sempre voltarão! 
Um obelisco, 
um pedr’e-cal, 
letras de bronze: 
A Comadre!

 

— Muitas raposinhas do próximo inverno, 
de infinitos invernos, 
se chamarão Comadre! 
Orgulhosamente: 
Comadre!

 

— Aquela vereda-maior, 
por onde elas correrão, fogosas, 
folguedos de quando chove, 
onde elas dançarão, viçosas, 
seu alegre fox-trot
será por todo o sempre: 
Avenida Comadre! 

 

— Aqui estou e aguardarei 
presente-e-ausente, 
a pira do Herói 
acesa! 
Invisível!

 

— Logo após a luta, 
bradarei: 
Esta é a Comadre Raposa, 
aos Quatro Ventos, 
Ad Æternum! 

 

— Pegarei, então, 
carinhosamente, 
ternamente, 
todos os seus trapinhos, 
todos os seu pêlinhos... 
Linda, a Comadre! 
Resplandecente! 
Sucessivas dobras, 
deste lençol de linho, 
aromas e essências...!

 

yYy  

 

— Uma liturgia sagrada, respeitosamente, 
levarei a oferenda a Canindé! 
O Santo, doce e solenemente, a receberá; 
remeterá, regozijado, a Ártemis, 
mais carinhosamente ainda, 
com um séquito de Ninfas, 
a colocará nos braços de Zeus!

 

— Ele a soltará nas vinhas do Olimpo, 
Hosana, nas alturas, 
assim tem sido!

 

 

 

 

 

 

 

CANTO IX

 

O CIRCO

 

 

 

— Agora veja, Comadre,  
o lençol é grande,  
sou prevenido!

— O outro poderá lutar,  
heroicamente, é claro...,  
perder ou ganhar, tanto faz...

— O ritual heróico será dele!  
Imparcial, Comadre,  
eis o Circo,  
vença,  
vença o melhor!

— Quero luta heróica, Comadre!

 

— O Compadre está louco!

 Vão fazer um panfleto,

 contra você também, Compadre!

 

— De onde saíram essas idéias,

de lutar até morrer?

Você é doido, Compadre!

 

 

— Comadre, de onde saíram, não sei,  
só perguntando aos Heróis,  
mas, assim tem sido,  
reconhecidos, só eles,  
os Heróis! 

YyY

 

Barulho, pisadas, pigarro, chinelas de currulepo,
cacete de vara-pau,
o homem, 
a Besta:

 

— Ah, maldita, agora tu me pagas,  
estás toldando a minha água!

 

— Não estou, compadre Homem,

bebi da borracha-de-sola!

 

— Alto lá, quero respeito, raposa safada!  
Não sou teu compadre!  
Vou-te matar,  
estás doida!

— Não estou doida, senhor Homem,

       tá’qui o atestado,

       Adolfo Lutz:

       normal!

— Se não estás,  
vais ficar!  
Vou-te matar de qualquer maneira,  
quero a borracha-de-sola,  
para jogar  
na Loteria dos Dados!

YYY

Um pulo, 

eriça-riça, eriçados os pêlos, 
todos!!!
Os do rabo também!!!

 

Um vento, elétrica, magnética, caquética,
a Comadre, 
logo quem!?

 

 

Todos os átomos do Universo...
Big-Bang primordial!

 

Uníssonos!
Uníssonos:

 

 

— Vá matar o Cão, desgraçado,

          desta vez te pego primeiro!

 

 

Pernas para que te quero, o valentão!
Sentiu o arranco da Comadre,
mijou-se todo,
fugiu, o covarde!
Num rastro de  panfletos derramados...

Escureceu e Choveu!
A chuva,
hesitante e ventilado borrifo,
ternamente,
um pingo maior;
insistentemente,
um pingo menor;
a chuva...
apagou todos os rastros...!

 

Desmancharam-se nas poças turvas,  
de uma vez e para sempre,  
todos os Panfletos!

Quando parou de chover,

noite escura ainda,

Pico do Caga-Fogo,

urupemba finíssima...  
peneirando pontinhos de luz

verd'azulados;

infinitos pontinhos

apagavam e acendiam

infinitamente

o pico do Caga-Fogo,

I l u m i n a d o !

 

 

Fortaleza, noite alta, 12 de novembro de 1993

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  Agora, o comentário:  
     
     
 

Parou de chover. Resta apenas um chuvisqueirinho muito brando, quase bruma rala.  O poeta olha para o pico do Caga-Fogo lá

adiante, todo Iluminado.  E entre ele e o pico gotículas d’água refletindo cambiantes cores entre o verde e o azul.  O Poeta navegara

e fora muito longe no reino mágico do seu estro.  Bela a chuva, belo o pico, belas as luzes. Mas e o preço que fora e estava sendo

pago por essas luzes?  Barragens,  desmatamentos, choques ecológicos de profundas conseqüências...

Estaríamos no fim?  Não,  não era ainda o ômega,  era o psi, o bendito e maravilhoso psi.

Mas o psi, letra do grego, a penúltima, tinha uma forma bastante peculiar, que tinha tudo a ver com tudo que o preocupava.

Em sua forma maiúscula, podemos associá-la a algo grandioso, santo, sagrado, glorioso.  Fogo, luz, glória!

Em sua forma minúscula, deitada para a direita, podemos associá-la ao mandacaru, à seca, à resistência.  A algo também grandioso,  também sagrado, também glorioso.

E nisso tudo,  tanto no pequeno, como no grande, há algo de maior, de teluricamente maior,  de metafisicamente maior.  Algo que transcende a todo nível aparencial. Há algo de épico, de ontocósmico.

As senhas, onde estão as senhas para a proposição?

Apoiando-se em Borges, ele percebe que precisa de uma notícia justa, o mais justa possível, que retrate o mais fidedignamente

aquele momento único e múltiplo que está vivendo,  levado pelas asas de sua imaginação.  Como ser o profeta de coisas exatas, de

coisas necessárias,  que retratem fielmente aquele momento de êxtase, de arrepio?

O Gerardo Mourão, ele tocou em algo dessa natureza, ao buscar na natureza e no seu derredor as coisas que eram dele, as coisas

que ele sentia fazer parte da sua mesma seidade.  Esse será o primeiro momento do trinete,  da sua trindade particular. 

Apoiando-se em Mourão, descobre que essas coisas essenciais poderiam ser representadas naquele momento por seu novilho, por

seu garrote.  Que belezura de concepção, que belezura de execução.  Que engenheiro teria arquitetado tanta formosura?  Só

poderia ser o Agrimensor.  O Supremo Arquiteto do Universo.  Esse o segundo momento do seu trinete.

Agora só precisava de uma notícia de grande repercussão,  de grande importância social ou quejanda.  Uma notícia que tivesse de

ser veiculada para que todos dela tomassem conhecimento.  Uma notícia que fosse transmitida não pelo rádio ou televisão, porque

dela se tem o impacto, mas não a decantação.  Uma notícia para ser decantada tem de levada pelo panfleto, pelo boletim a ser

distribuído a todos nas ruas e nas casas.

E a notícia do momento era:

“O surgimento de 11 casos positivos de raposas com raiva,

Dez mil cartilhas serão distribuídas pelos agentes de saúde,

“as raposas surgem em bando, geralmente ao final da tarde e perto de localidades com água. São animais magros,

já apresentando queda dos pêlos. Nélio acredita que isto aconteça por conta do desequilíbrio ecológico causado

pela seca. Os animais, devido o instinto de sobrevivência, estão migrando de seus territórios para outros, gerando inclusive ataques entre eles e transmissão maior do vírus da raiva animal.

Assinalamos em negrito alguns pontos cruciais da notícia.  Esse o terceiro momento do trinete.

E aqui termina a proposição.  O Poeta se propõe a entender o momento presente que o mundo está vivendo globalmente.

 

O poema a partir daqui se organiza em 9 cantos.  Dez não poderiam ser,  pois dez seria o ômega e sua preocupação é preservar

o psi.

Examinemos, então, o poema, canto a canto.

 

Façamos antes um elenco dos cantos, para termos uma visão de conjunto do poema:

CANTO I      -      DOMINANDO A SERPENTE

CANTO II     -      A BUSCA

CANTO III    -      O ENCONTRO

CANTO IV    -      CONFIDÊNCIAS

CANTO V     -       PERSEGUIÇÕES

CANTO VI    -       TALENTOS & CRUELDADES

CANTO VII   -       ENGODOS & ESPERANÇAS

CANTO VIII  -       AVENIDA COMADRE

CANTO IX     -       O CIRCO

 

CANTO I      -      DOMINANDO A SERPENTE

O Poeta diz que no tempo em que não se cogitava sequer de ecologia, ele matou uma cascavel, e a enterrou, e não contou nada para ninguém.  Mas o segredo todo não está nisso aí  mas no fato de a cobra ser pau, de o pau ser cobra.  É dessa serpente que ele quer

falar:  da antiga serpente que se trasveste de mil formas para enganar o homem.  Claro que essa passagem nos lembra do cajado que

se transforma em serpente nas Escrituras.  E isso nos mostra que o que está se falando é algo mais sério do que simples (?)

preocupação ecológica.

E aproveita o canto para introduzir a segunda personagem do poema:  a Raposa.  A qual ele diz nunca ter matado.  Que raposa será

essa, que conviva com esse clima de sagrado?

 

 

CANTO II     -      A BUSCA

E põe-se a procurá-la por tudo quanto é lugar, por tudo quanto é língua.  Parece privilegiar o Francês,  influência de La Fontaine, certamente.

Estava a ponto de desistir quando se lembrou de que Francisco de Assis tinha-lhe dado a senha  (ele conversava com os animais e

era autoridade nessa questão).  A vista da Basílica, no Canindé,  sob a chuva que caía o inspirara.  Se chamá-la de Raposa, ela não

vai atender, pois esse nome está carregado muito negativamente por sugerir malandragem,  esperteza ou maldade.  Tenho de

chamá-la por um nome mais amigável, mais íntimo:  “Comadre” acho que pode funcionar,  pois Assis era um compadre dos

animais, pode se dizer.

E retoma a busca, por brenhas e brenhas.  Ananias o autorizara a isso.  Ananias, o esposo de Safira, que foi fulminado por ter

mentido à congregação do Senhor. Ananias foi um enganador.  Por que ele também não o podia ser?  Eventualmente...

 

CANTO III    -      O ENCONTRO

Chama-a por Comadre e ela se apresenta, pois certa estava a senha.  De nada adiantavam o grego, as neolatinas, o francês.  Tinha

de ser coisa da gente,  do nosso dia a dia afetivo e amical.

E ele a viu num estado lastimável!

E arrepiou, porque se condoeu.

E arrepiou, porque tinha de ser ananias.

E continua o narrador.  Viu os três cabelos duros pretos, no rabo, coisa do Coisa, como diz a superstição.

E viu a Comadre reduzida a quase nada, fungando e suspirando.  Que diferença de como era antes, quando ...

E viu dentes, não todos, havia falhas, o raspar do pé, o pizzicato, o rugido-gemido que lembrava o plangente tanger do violino ao

ser tocado pelos dedos nervosos do virtuose.

E se arrepiou de medo.  E saiu em debandada. Não estaria ali o cabrão, o Capeta, disfarçado?

— Foi medão, Comadre!   

 

— Não tema, Compadre,

   os três-cabelos,

                                                                                                  deixo de lado...

O Poeta em conflito sabe que precisa ficar do lado do panfleto, que é preciso debelar o perigo representado pela raposa, mas sente que esse perigo não é tão grande assim.  Mais ainda:  ele sabe que de alguma maneira ele é responsável por a raposa estar agindo

da maneira como está.  Pois na verdade ela não agindo, mas reagindo...

 

CANTO IV    -      CONFIDÊNCIAS

O Compadre  começa oferecendo à Raposa alguma água para mitigar a sua sede,  inspirado pela caridade de Francisco de Assis.

O Poeta, através da boca da Raposa, alinha argumentos que possam defendê-la.  Seria ela, mesmo, um atentado à segurança do povo?

E a Raposa diz que tudo o que de mal dela falam, falam de pura invenção ou inveja.  Pois ela é citada nominalmente nas Sagradas Escrituras como tendo direito a ter o seu covil.  Nenhum outro animal teve esse privilégio.  Isso, diz ela, é assim porque Ele o quis, doando esse privilégio a ela e a ela tão somente. E que esse negócio de cabelos pretos duros não é para levar a sério.  Daguerre ... (ótipos)  por todo lado, e veja como me encontro:  fraca,  mal arrumada, mal tratada.  Não seria possível um pouquinho de atenção positiva para comigo?

O Poeta sente que está havendo algum exagero –  e muito grande –  por parte das autoridades sanitárias constituídas:  a raposa não representa ameaça tão grave para a população.  (Cisma Poeta, cisma, que o teu cismar é pura Poesia!)

 

 

 

 

 

 

CANTO V     -       PERSEGUIÇÕES

A Raposa prossegue se lamentando, dizendo que o único animal que está se saindo bem é o urubu.  E diz que vê muita injustiça em ser tratada como bandida, com cartazes de busca-se para se eliminar.  Dez mil! È demais.  E eu que estou louca... Eles é que estão loucos!

 

CANTO VI    -       TALENTOS & CRUELDADES

E a Raposa se diz injustiçada também pelo fato de, enquanto ela é perseguida para ser exterminada, outros animais gozarem da proteção das autoridades.  E para eles tudo que é bom.   Para ela...

E o Compadre  lhe diz que um dia choverá para ela, e ela também terá tudo quanto é fruta e tudo bem rasteiro, até as uvas.  Ela não terá mais de passar pela vergonha de dizer frustrada:  “Estão verdes.”

O Poeta acha que há de haver uma solução para o problema ecológico que a raposa está vivendo...

 

CANTO VII   -       ENGODOS & ESPERANÇAS

E a Raposa diz que quando puxarem um canal do São Francisco,  não haverá falta de uvas, não é mesmo?

E as uvas serão variadas e bem baixinhas, bem rasteiras.  Nada de uvas lá no alto!

O Compadre  vai dizendo que sim, que sim.  E a Raposa começa a ficar radiante de alegria:  haveria salvação para ela.

Entendamos que tudo isso são cismares do nosso Poeta, colocados nessa tão maviosamente forma poética!

Então o Poeta se lembra de que onde houve irrigação,  as raposas foram totalmente eliminadas,  a bem da boa e farta produção de frutos. E ele começa a perceber que este não seria um bom caminho para impedir a extinção da raposa cinzenta.

Vejam como se expressa o Poeta,  num tom entrecortado e sombrio:

— Comadre, é que.......................................   
..................................................por...  lá...  
nem gostaria....................................  
...............................................  eles...   
aca... ... ...   
acabaram.............................  
com... .... ....  com as...  
com.....................   
Com com  as rar-ra-rar-ra-  
raposas!   
Acabaram!

Neste ponto do poema, um ícone.  Um grande psi  minúsculo, roxo,  em fundo negro

 

 

 

 

y 
a Penúltima. 

Se minúscula: 
Seca, cardeiro, 
mandacaru, sofrimento & resistência.

 

Ah!  Não chegaremos à última: haverá sempre uma penúltima, que permita a propagação da espécie, com sofrimento, com resistência.  E os pelos das raposas voltarão a ser lustrosos, como que submetidos meticulosamente a um cardeiro. Haja seca, há esperança.

 

Logo a seguir, as duas colunas cinzentas que delimitam o campo do poema exibem ao lado a estátua Pietá, de Michelangelo.  É hora de piedade, antes que seja tarde demais.

 

E a Raposa se prepara para fugir da sanha dos homens bons.  E pede que o Compadre  registre em fotografia sua imagem.  Pelo sim, pelo não.  O Poeta se recusa a fazê-lo.

A Raposa nota o embrulho que o Compadre traz e lhe pergunta o que é.

— É um lençol, Comadre,   
do melhor linho...  
esses potinhos: incensos, aromas...,   
vim preparado, Comadre!

- Para que? Para me embrulhar?  Para me vender por menos de trinta moedas?  Por que não me beija logo e consuma sua traição?

Afinal, quem é você?

— Comadre, sou Piros...  
Acompanho os Heróis,  
Francisco não lhe disse?

Piros, Fogo, alumia, aquenta, calcina. Aquele que na Pira acompanha os Heróis. Olímpicos e outros. Francisco, o de Assis,  deveria tê-la avisado disso. O Poeta encontra-se movido por uma grande emoção, um fogo forte acicata-lhe a alma:  aquenta sua esperança, calcina sua esperança?  Ou tenta lançar sobre o trilema uma pouca mais de luz?

— Tão manso de coração, o irmãozinho...

      Eu o notei preocupado...

      Chico Pires, Compadre,

       é assim mesmo a sua graça?

O tom da Raposa é de desconfiança,  de insegurança.  Piros é um pouco perigoso, Pires seria menos perigoso...

O Poeta busca um novo caminho que o afaste do trilema anterior, e que lhe aponte novos rumos para o seu cismar.  No imo do seu coração não via solução para a raposa, para a sua sobrevivência, para a sua não-extinção.

— Não deixa de ser também, indiretamente...  
Chico, de Francisco, faz parte da senha...  
Pires, não é nele que colocam o lume?  
O Candelabro,   
a penúltima letra...

Mas parece que tudo o leva para o mesmo ponto.  Mas a esperança é a penúltima que morre...  O fogo brilhará e será luz, e será Luz!  Será redenção para a Raposa.  O Candelabro (menorá) sagrado que representa os sete dias da criação (e outros arquétipos mais, como o três, por exemplo) na sua perpetuidade há de garantir que a vida seja eternamente protegida pela Vida.  Se Deus fez, fez por uma boa razão  (“E viu Deus que era bom”)  e Ele garantirá a sobrevivência da espécie de um jeito (que a gente possa ver)  ou de outro (que a gente não possa ver com os olhos da carne).  Será sempre, quando menos, a penúltima letra, jamais a última.

E a Raposa pergunta, refutando o panfleto, se a última, o ômega, não seria mais rica, mais definitiva? Mais favorável para a sua situação, que ela já intui delicadíssima. E o Compadre  diz-lhe que melhor não existir a última, porque nada consegue permanecer último.  Já o penúltimo sempre tem alguma chance de continuar... a existir e a criar, e a procriar. O Poeta se firma na necessidade de, quaisquer que sejam os desdobramentos da situação (burocratizada)  manter pelo menos um casal. Adão e Eva da espécie em extinção programada ou suscitada pelos meandros negros da civilização.

— Compadre, o seu mestre-escola

      não perseguia o Dez?

           Contentar com o Nove, Compadre,

        não seria inferior?

             Estaria o Compadre justificando

            esse um faltante,

             ao discípulo,

                  o direito de discordar?

Se eu fosse a última raposa...  E se chegarmos à última raposa, ainda haverá esperança?  Mas por que duas, se posso ter nove ou

dez ou mais?  O Poeta cisma: quem sabe uma campanha, como a que foi feita como a  do mico-dourado, não pudesse salvar o

animal em burocrática extinção?

 

— Comadre, nada é Dez, 

nada é Ômega,   
já expliquei...  
O correto é Psi, a penúltima,   
sempre tem vaga...  
Ômega é Ele,   
você interpretou direito,   
nunca esqueça,   
fique com o Candelabro!

 

— Compadre, por que o Candelabro, 

nestes matos secos?

   vão-me tocar fogo?

    Os três cabelos...

     Nunca fui bruxa,

         é tudo inveja, já disse!

O Poeta, dividido entre a razão (coluna esquerda, a do Compadre) e a emoção (coluna  da direita, a da  Comadre),

esses dois lados de sua consciência, oscila entre os dois pólos, ora pensando com o coração, e se emociona e se compadece, ora sentindo com a razão, e se meiamente endurece, deixando que os argumentos da Higiene e da Saúde

se sobreponham sobre o seu sentimento.  Mas, mesmo raciocinando, ele sente, ele sabe, ele intui, que a esperança

mais factível é a preservação de um casal.  Seria uma campanha mais simples de ser tocada adiante.

 

 

— Não, não, Comadre!   
O candelabro é a maiúscula;  
o mandacaru é a minúscula...  
Mera questão de escolha, Comadre.

Veja, aqui está o brasão:

 

Se fizermos uma campanha baseada na piedade, essa será uma campanha fadada ao fracasso.  A campanha terá muito mais chance se for fundamentada em pressupostos da razão,

Yy

mas tem de ser uma razão alicerçada no Candelabro de Fogo:  e que alumie os corações, e que alumie as almas.  O mandacaru, que inspira compaixão,  tem também de estar presente, mas em posição de subordinação  (o psi minúsculo está em posição inferior) e de maneira que seu negror (tristeza, mágoa, tradição)  não impeça a razão de brilhar soberana,  porque hoje o homo demens, se acha homo sapiens.  E não pode haver limites pré-estabelecidos nem para uma linha de argumentação, nem para a outra.  Há que haver liberdade no encaminhamento dessa proposição ou campanha de salvamento.

—  Mas sou Piros,  
o Fogo, grego, Comadre!

 

 

— Queima o que, Compadre, esse seu fogo?

   Tão gentil, abrasa corações?

    Um espelho, Compadre,

     você tem um?

 

E a Raposa pergunta ao Compadre a função do Fogo que ele é. Se abrasa corações? E, num rompante de vaidade, pergunta-lhe se ele tem um espelho.  O Poeta vê que a razão com que deve lidar tem muitas facetas, sendo muito antigo e pensa: poderia ao menos preservar sua imagem.  E o Compadre diz ser muito antigo: esteve presente no episódio de Abraão e Isaque e em quantos e quantos lugares do mundo, quase sempre queimando, destruindo,  em nome e ação de quantos e quantos Heróis...  E arremata:

Senti o cheiro da Glória,  
por isto estou aqui...

O Poeta rememora: em nome da Razão, quantas atrocidades foram cometidas no mundo, e sempre com o endeusamento de um ou outro heroículo... E houve louros e todos emurcheceram e já não são.  E também em nome da fé...  Da Fé, diziam.   E a Raposa diz que não há herói ou Herói que possa salvá-la.  E o Compadre insiste: a Raposa não deve fugir: apesar dos reveses, deve lutar. E a Raposa pergunta-lhe:

Agora me diga, Compadre:

              o lençol,

              as essências,

               afinal,

                    para quê?

, desconfiada das intenções do Compadre.  O Poeta sabe que não há para onde fugir.  Onde as matas e brenhas que dantes havia? 

E sente, contristado, que o que há a fazer é entregar a situação à situação.  Cruzar os braços:  de que vale uma gota no oceano? 

Que a Raposa se vire por si mesma:  que fuja, que invente uma estratégia de sobrevivência.  Ele é apenas um Circo, onde

acontecem muitas coisas:  umas arriscadas, outras hilárias,  outras atraentes, e algumas até degradantes...  O Circo apenas vê, nem sequer vê.   Apenas abriga em seu interior os pseudodramas e pseudo-heroísmos da existência.  O Poeta sente-se mero espectador de um drama que ele não construiu.  “Que tenho eu lá com isso?”  “Que panfleteiem, que conscientizem, que levantem clamores e indignações!”  Não, não um espectador, mas um continente que abriga, que deve abrigar, interiormente o drama.  A Raposa

encerra o canto, digo, a nênia,  com as seguintes palavras:

Os fabulistas, Compadre,

foram eles,

pregaram uma peça no Compadre!

Brigar, como poderei?

Eles são fortes!

E se eu morrer?

O Poeta sente que foi condicionado, como tantos outros:  seria a raposa um animal realmente nocivo?  E se a espécie desaparecer o que acontecerá com a cadeia ecológica, com um  (ou mais?) elo a menos?

 

CANTO VIII  -       AVENIDA COMADRE

E se essa raposa for eliminada,  logo outras e outras mais o serão, até o dia em que se erija a lápide para a espécie:

Um obelisco, 
um pedr’e-cal, 
letras de bronze: 
A Comadre!

E se sobrarem raposinhas nos covis, logo também elas se tornarão Comadres e estarão inexoravelmente caminhando pela Avenida Comadre.  Comadre, aquela que viveu, sofreu, resistiu e morreu.  Hoje, mero nome de rua.

E dela ficarão apenas lembranças esfiapadas guardadas com carinho no imo do ser.  Mas, quando já todas tenham percorrido o calvário da Avenida Comadre, ainda assim resta ao Poeta uma esperança.  Transcendental:

Sucessivas dobras, 
deste lençol de linho, 
aromas e essências...!

Este intertexto com o momento em que é aberto o Túmulo e ele se acha gloriosamente vazio é de tocante sensibilidade.  Se Ele, o nosso Salvador,  ressuscitou,  não haverá para as espécies extintas uma espécie de perdão, de retorno?

E neste momento mais um ícone:

yYy  

Agora temos três psis:  um maiúsculo flamante como até aqui ladeado por dois minúsculos negros.  O maiúsculo em nível superior.  

O psi maiúsculo ascende acompanhado pelos dois minúsculos mais abaixo.  O destino é um só: o Alto.  E os psis minúsculos estão

se movimentando da esquerda para a direita.  Da Razão para a Emoção.  A Razão ocupa o centro, soberana.  A campanha, se houver, há de ser orientada por esse esquema:  a Razão, a Glória, o elogio, há de ser o centro no qual se focará o discurso.  E os argumentos relativos ao Sentimento, à perseverança, à resistência a envolverão, de uma maneira tão sibilina que todos ao lerem

terão uma sensação imediata e permanente de que são homens sábios, e uma sensação quase subliminar de que são heróis.  E sobre

o discurso há de pairar um como clima de santidade...  :

  — Uma liturgia sagrada, respeitosamente, 
levarei a oferenda a Canindé! 
O Santo, doce e solenemente, a receberá; 
remeterá, regozijado, a Ártemis, 
mais carinhosamente ainda, 
com um séquito de Ninfas, 
a colocará nos braços de Zeus!

E diz o Compadre que numa liturgia sagrada e ecumênica há de se dar à espécie em extinção um tratamento solenemente sagrado.   Mostrará a sua origem divina e o seu destino divino. E se não ressurgir aqui na terra,  que importa?

 — Ele a soltará nas vinhas do Olimpo, 
Hosana, nas alturas, 
assim tem sido!

E as raposas poderão se fartar desimpedidamente para todo o sempre.  E sua Fé (essa razão de ordem superior)  lhe diz que assim tem sido!  Se há um paraíso para os homens, por que não para os animais?

 

CANTO IX     -       O CIRCO

 

 

De cisma em cisma...  Ah!  Se os homens têm condições de lutar, as raposas também têm! E será esta uma luta imparcial, em que

ambos têm condições de vencer:  o homem sobreviveu até hoje, a raposa sobreviveu até hoje...  E replica a raposa:

— O Compadre está louco!

 Vão fazer um panfleto,

 contra você também, Compadre!

 

— De onde saíram essas idéias,

de lutar até morrer?

Você é doido, Compadre!

 

 

— Comadre, de onde saíram, não sei,  
só perguntando aos Heróis,  
mas, assim tem sido,  
reconhecidos, só eles,  
os Heróis! 

E o conflito continua: Mas seria essa uma idéia de jerico?  Mas não é isso que fazem os aclamados heróis, seja por patriotismo, seja por patriotada?  Cada qual cuidando do seu, e tentando dilapidar o do outro.

E nesse ponto acode ao Poeta um novo esquema, terrível este:  um pobre psi negro fugindo para a direita em busca de compaixão, rodeado por dois sanhudos psis sangüíneos. Ah!  O psizinho vai ser inexoravelmente esmagado!

YyY

 

Barulho, pisadas, pigarro, chinelas de currulepo,
cacete de vara-pau,
o homem, 
a Besta:

Eis que avulta na imaginação do Poeta o homem.  Sem piedade, sem arrependimento, sem perdão,  perdão (de quê?).  Truculento, violento,  violentamente armado.  Dominado pelos instintos da Besta:  Ecce homo!  E o Poeta se investe do seu papel de membro da comunidade e passa a matar a raposa em sua mente.  E agora, neste estado consciencial já não valem argumentos alicerçados na compaixão,  na realidade da compaixão,  na compaixão da realidade:

 — Ah, maldita, agora tu me pagas,  
estás toldando a minha água!

 

— Não estou, compadre Homem,

bebi da borracha-de-sola!

 

— Alto lá, quero respeito, raposa safada!  
Não sou teu compadre!  
Vou-te matar,  
estás doida!

— Não estou doida, senhor Homem,

       tá’qui o atestado,

       Adolfo Lutz:

       normal!

Agora vale tudo, o maquiavelismo, principalmente.  Mais ainda, se aliado a isso houver algum benefício próprio:

— Se não estás,  
vais ficar!  
Vou-te matar de qualquer maneira,  
quero a borracha-de-sola,  
para jogar  
na Loteria dos Dados!

E nesse ponto,  a surpresa final:  quem está no centro, está no centro: não tem de fugir coisa nenhuma!  Tem é que se centrar e sentir em si a pujança, a potência do ponto em que se está.  O que temos são ainda os dois psis flamantes lado a lado de  um robusto e ereto psi verde. E todos como que se estivessem se dando as mãos num momento de comunhão e solidariedade.  A Raposa (Emoção) agora ocupa o centro, sendo amparada pela Razão, que dela vela com atenção.  O que aconteceu é que a Raposa em

YYY

Um pulo, 

eriça-riça, eriçados os pêlos, 
todos!!!
Os do rabo também!!!

 

Um vento, elétrica, magnética, caquética,
a Comadre, 
logo quem!?

Pois é!  A Raposa se transforma, plenamente centrada em si mesma,  assume sua verdadeira feição, sua verdadeira identidade de guerreira.  O Poeta agora sente, agora sabe que a raposa não vai deixar de existir porque ela tem sabido se adaptar às mais desfavoráveis circunstâncias, provocadas pelo bicho-homem  e que todos os átomos do Universo, desde o Big-Bang primordial concorrem para isso unissonamente:

 

 

Todos os átomos do Universo...
Big-Bang primordial!

 

Uníssonos!
Uníssonos:

E ela se volta para o Compadre e diz:

  

— Vá matar o Cão, desgraçado,

          desta vez te pego primeiro!

E o Compadre,

 

 

Pernas para que te quero, o valentão!
Sentiu o arranco da Comadre,
mijou-se todo,
fugiu, o covarde!
Num rastro de  panfletos derramados...

O Poeta centrado em si mesmo, tendo por base a vontade de resistir, de não se entregar, resolve lutar contra todos os argumentos contrários à sobrevivência da raposa, e espanca, botando para correr,  a sem razão dos homens razoáveis...

E neste ponto do poema o ícone sagrado, um menorá.  Um psi maiúsculo cujas hastes se tresdobraram, produzindo diversos arquétipos: o três, a esquerda, a direita, o centro, o sete, o pináculo.

O problema já não é mais pequenino, circunstancial.  Ganhou foros de matéria altamente sagrada.  Já não se trata da raposa, da sobrevivência de uma espécie.  Trata-se de focar o mesmo Sanctum Sanctorum. E aqui as palavras falecem.  Mesmo porque cada

um tem desse assunto, primeiro do que todos,  as suas concepções, as suas crenças.

Escureceu e Choveu!
A chuva,
hesitante e ventilado borrifo,
ternamente,
um pingo maior;
insistentemente,
um pingo menor;
a chuva...
apagou todos os rastros...!

E veio a bendita chuva e com ela todos os rastros negros do cismar do Poeta.

Desmancharam-se nas poças turvas,  
de uma vez e para sempre,  
todos os Panfletos!

O Poeta agora sabe muito bem o que quer e não se deixará enredar pelas idéias de outrem.  Principalmente neste

terreno altamente sagrado a que chegou no seu caminhar.

O último ícone, o mais belo: o cálice sagrado que recolhe o sangue do Cordeiro imolado para que todos possam ter vida e vida em abundância.    (A raposa, também, claro!)  Estão conseguindo ver a forma do psi maiúsculo e ereto nele?

 

Quando parou de chover,

noite escura ainda,

Pico do Caga-Fogo,

urupemba finíssima...  
peneirando pontinhos de luz

verd'azulados;

infinitos pontinhos

apagavam e acendiam

infinitamente

o pico do Caga-Fogo,

I l u m i n a d o !

Usamos essa estrofe acima como início do nosso comentário.

********************* 

Fortaleza, noite alta, 12 de novembro de 1993

 

 

Mais de dez anos são passados, e o poema continua novinho em folha!

Feitosa,  este me deu trabalho e reflexão que não foi mole, não.

Não sei se consegui atingir alguma coisa da intenção do Poeta,

 mas muito me esforcei para isso.

Em muitos passos eu tive de abreviar em muito os comentários suscitáveis,

para não tornar demasiadamente longo este texto.

Muito mais haveria para se comentar em tão magistral poema.

Este é um dos poemas mais lindo, pode pôr Pessoa nessa relação, que jamais

li.

Noitinha de chuva, um panfleto na mão, o pico adiante delineado, as luzes, os revérberos

nas gotículas d`´agua.  Este o material concreto à mão, presumo.  E quanto engenho,

e quanta arte!

Do amigo e admirador de sempre,

Romero

Abraços cordiais.