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Parou de chover.
Resta apenas um chuvisqueirinho muito brando, quase bruma rala. O poeta
olha para o pico do Caga-Fogo lá
adiante, todo
Iluminado. E entre ele e o pico gotículas d’água refletindo cambiantes
cores entre o verde e o azul. O Poeta navegara
e fora muito longe no
reino mágico do seu estro. Bela a chuva, belo o pico, belas as luzes.
Mas e o preço que fora e estava sendo
pago por essas
luzes? Barragens, desmatamentos, choques ecológicos de profundas
conseqüências...
Estaríamos no fim?
Não, não era ainda o ômega, era o psi, o bendito e maravilhoso psi.
Mas o psi, letra do
grego, a penúltima, tinha uma forma bastante peculiar, que tinha tudo a
ver com tudo que o preocupava.
Em sua forma
maiúscula, podemos associá-la a algo grandioso, santo, sagrado,
glorioso. Fogo, luz, glória!
Em sua forma
minúscula, deitada para a direita, podemos associá-la ao mandacaru, à
seca, à resistência. A algo também grandioso, também sagrado, também
glorioso.
E nisso tudo, tanto
no pequeno, como no grande, há algo de maior, de teluricamente maior,
de metafisicamente maior. Algo que transcende a todo nível aparencial.
Há algo de épico, de ontocósmico.
As senhas, onde estão
as senhas para a proposição?
Apoiando-se em
Borges, ele percebe que precisa de uma notícia justa, o mais justa
possível, que retrate o mais fidedignamente
aquele momento único
e múltiplo que está vivendo, levado pelas asas de sua imaginação. Como
ser o profeta de coisas exatas, de
coisas necessárias,
que retratem fielmente aquele momento de êxtase, de arrepio?
O Gerardo Mourão, ele
tocou em algo dessa natureza, ao buscar na natureza e no seu derredor as
coisas que eram dele, as coisas
que ele sentia fazer
parte da sua mesma seidade. Esse será o primeiro momento do trinete,
da sua trindade particular.
Apoiando-se em
Mourão, descobre que essas coisas essenciais poderiam ser representadas
naquele momento por seu novilho, por
seu garrote. Que
belezura de concepção, que belezura de execução. Que engenheiro teria
arquitetado tanta formosura? Só
poderia ser o
Agrimensor. O Supremo Arquiteto do Universo. Esse o segundo momento do
seu trinete.
Agora só precisava de
uma notícia de grande repercussão, de grande importância social ou
quejanda. Uma notícia que tivesse de
ser veiculada para
que todos dela tomassem conhecimento. Uma notícia que fosse transmitida
não pelo rádio ou televisão, porque
dela se tem o
impacto, mas não a decantação. Uma notícia para ser decantada tem de
levada pelo panfleto, pelo boletim a ser
distribuído a todos
nas ruas e nas casas.
E a notícia do
momento era:
“O
surgimento de 11 casos positivos de raposas com raiva,
“Dez
mil cartilhas serão distribuídas pelos agentes de saúde,
“as raposas surgem em bando, geralmente ao final da tarde e perto de
localidades com água. São animais magros,
já apresentando queda dos pêlos. Nélio acredita que isto aconteça
por conta do desequilíbrio ecológico causado
pela seca. Os animais, devido o instinto de sobrevivência,
estão migrando de seus territórios para outros, gerando inclusive
ataques entre eles e transmissão maior do vírus da raiva animal.
Assinalamos em
negrito alguns pontos cruciais da notícia. Esse o terceiro momento do
trinete.
E aqui termina a
proposição. O Poeta se propõe a entender o momento presente que o mundo
está vivendo globalmente.
O poema a partir
daqui se organiza em 9 cantos. Dez não poderiam ser, pois dez seria o
ômega e sua preocupação é preservar
o psi.
Examinemos, então, o
poema, canto a canto.
Façamos antes um
elenco dos cantos, para termos uma visão de conjunto do poema:
CANTO I -
DOMINANDO A SERPENTE
CANTO II - A
BUSCA
CANTO III - O
ENCONTRO
CANTO IV -
CONFIDÊNCIAS
CANTO V -
PERSEGUIÇÕES
CANTO VI -
TALENTOS & CRUELDADES
CANTO VII -
ENGODOS & ESPERANÇAS
CANTO VIII -
AVENIDA COMADRE
CANTO IX -
O CIRCO
CANTO I -
DOMINANDO A SERPENTE
O Poeta diz que no
tempo em que não se cogitava sequer de ecologia, ele matou uma cascavel,
e a enterrou, e não contou nada para ninguém. Mas o segredo todo não
está nisso aí mas no fato de a cobra ser pau, de o pau ser cobra. É
dessa serpente que ele quer
falar: da antiga
serpente que se trasveste de mil formas para enganar o homem. Claro que
essa passagem nos lembra do cajado que
se transforma em
serpente nas Escrituras. E isso nos mostra que o que está se falando é
algo mais sério do que simples (?)
preocupação
ecológica.
E aproveita o canto
para introduzir a segunda personagem do poema: a Raposa. A qual ele
diz nunca ter matado. Que raposa será
essa, que conviva com
esse clima de sagrado?
CANTO II - A
BUSCA
E põe-se a procurá-la
por tudo quanto é lugar, por tudo quanto é língua. Parece privilegiar o
Francês, influência de La Fontaine, certamente.
Estava a ponto de
desistir quando se lembrou de que Francisco de Assis tinha-lhe dado a
senha (ele conversava com os animais e
era autoridade nessa
questão). A vista da Basílica, no Canindé, sob a chuva que caía o
inspirara. Se chamá-la de Raposa, ela não
vai atender, pois
esse nome está carregado muito negativamente por sugerir malandragem,
esperteza ou maldade. Tenho de
chamá-la por um nome
mais amigável, mais íntimo: “Comadre” acho que pode funcionar, pois
Assis era um compadre dos
animais, pode se
dizer.
E retoma a busca, por
brenhas e brenhas. Ananias o autorizara a isso. Ananias, o esposo de
Safira, que foi fulminado por ter
mentido à congregação
do Senhor. Ananias foi um enganador. Por que ele também não o podia
ser? Eventualmente...
CANTO III - O
ENCONTRO
Chama-a por Comadre e
ela se apresenta, pois certa estava a senha. De nada adiantavam o
grego, as neolatinas, o francês. Tinha
de ser coisa da
gente, do nosso dia a dia afetivo e amical.
E ele a viu num
estado lastimável!
E arrepiou, porque se
condoeu.
E arrepiou, porque
tinha de ser ananias.
E continua o
narrador. Viu os três cabelos duros pretos, no rabo, coisa do Coisa,
como diz a superstição.
E viu a Comadre
reduzida a quase nada, fungando e suspirando. Que diferença de como era
antes, quando ...
E viu dentes, não
todos, havia falhas, o raspar do pé, o pizzicato, o rugido-gemido que
lembrava o plangente tanger do violino ao
ser tocado pelos
dedos nervosos do virtuose.
E se arrepiou de
medo. E saiu em debandada. Não estaria ali o cabrão, o Capeta,
disfarçado?
—
Foi medão, Comadre!
—
Não tema, Compadre,
os três-cabelos,
deixo
de lado...
O Poeta em conflito sabe
que precisa ficar do lado do panfleto, que é preciso debelar o perigo
representado pela raposa, mas sente que esse perigo não é tão grande
assim. Mais ainda: ele sabe que de alguma maneira ele é responsável
por a raposa estar agindo
da maneira como está.
Pois na verdade ela não agindo, mas reagindo...
CANTO IV - CONFIDÊNCIAS
O Compadre começa oferecendo à Raposa alguma água
para mitigar a sua sede, inspirado pela caridade de Francisco de Assis.
O Poeta, através da boca da Raposa, alinha
argumentos que possam defendê-la. Seria ela, mesmo, um atentado à
segurança do povo?
E a Raposa diz que tudo o que de mal dela falam,
falam de pura invenção ou inveja. Pois ela é citada nominalmente nas
Sagradas Escrituras como tendo direito a ter o seu covil. Nenhum outro
animal teve esse privilégio. Isso, diz ela, é assim porque Ele o quis,
doando esse privilégio a ela e a ela tão somente. E que esse negócio de
cabelos pretos duros não é para levar a sério. Daguerre ... (ótipos)
por todo lado, e veja como me encontro: fraca, mal arrumada, mal
tratada. Não seria possível um pouquinho de atenção positiva para
comigo?
O Poeta sente que está havendo algum exagero – e
muito grande – por parte das autoridades sanitárias constituídas: a
raposa não representa ameaça tão grave para a população. (Cisma Poeta,
cisma, que o teu cismar é pura Poesia!)
CANTO V - PERSEGUIÇÕES
A Raposa prossegue se lamentando, dizendo que o
único animal que está se saindo bem é o urubu. E diz que vê muita
injustiça em ser tratada como bandida, com cartazes de busca-se para se
eliminar. Dez mil! È demais. E eu que estou louca... Eles é que estão
loucos!
CANTO VI - TALENTOS & CRUELDADES
E a Raposa se diz injustiçada também pelo fato de,
enquanto ela é perseguida para ser exterminada, outros animais gozarem
da proteção das autoridades. E para eles tudo que é bom. Para ela...
E o Compadre lhe diz que um dia choverá para ela,
e ela também terá tudo quanto é fruta e tudo bem rasteiro, até as uvas.
Ela não terá mais de passar pela vergonha de dizer frustrada: “Estão
verdes.”
O Poeta acha que há de haver uma solução para o
problema ecológico que a raposa está vivendo...
CANTO VII - ENGODOS & ESPERANÇAS
E a Raposa diz que quando puxarem um canal do São
Francisco, não haverá falta de uvas, não é mesmo?
E as uvas serão variadas e bem baixinhas, bem
rasteiras. Nada de uvas lá no alto!
O Compadre vai dizendo que sim, que sim. E a
Raposa começa a ficar radiante de alegria: haveria salvação para ela.
Entendamos que tudo isso são cismares do nosso
Poeta, colocados nessa tão maviosamente forma poética!
Então o Poeta se lembra de que onde houve
irrigação, as raposas foram totalmente eliminadas, a bem da boa e
farta produção de frutos. E ele começa a perceber que este não seria um
bom caminho para impedir a extinção da raposa cinzenta.
Vejam como se expressa o Poeta, num tom
entrecortado e sombrio:
—
Comadre, é que.......................................
..................................................por... lá...
nem gostaria....................................
............................................... eles...
aca... ... ...
acabaram.............................
com... .... .... com as...
com.....................
Com com as rar-ra-rar-ra-
raposas!
Acabaram!
Neste ponto do poema, um
ícone. Um grande psi minúsculo, roxo, em fundo negro
|
y
a Penúltima.
Se minúscula:
Seca, cardeiro,
mandacaru, sofrimento & resistência. |
Ah! Não chegaremos à última: haverá sempre uma
penúltima, que permita a propagação da espécie, com sofrimento, com
resistência. E os pelos das raposas voltarão a ser lustrosos, como que
submetidos meticulosamente a um cardeiro. Haja seca, há esperança.
Logo a seguir, as duas colunas cinzentas que
delimitam o campo do poema exibem ao lado a estátua Pietá, de
Michelangelo. É hora de piedade, antes que seja tarde demais.
E a Raposa se prepara para fugir da sanha dos
homens bons. E pede que o Compadre registre em fotografia sua imagem.
Pelo sim, pelo não. O Poeta se recusa a fazê-lo.
A Raposa nota o embrulho que o Compadre traz e lhe
pergunta o que é.
— É
um lençol, Comadre,
do melhor linho...
esses potinhos: incensos, aromas...,
vim preparado, Comadre!
- Para que? Para me embrulhar? Para me vender por
menos de trinta moedas? Por que não me beija logo e consuma sua
traição?
Afinal, quem é você?
—
Comadre, sou Piros...
Acompanho os Heróis,
Francisco não lhe disse?
Piros, Fogo, alumia, aquenta, calcina. Aquele
que na Pira acompanha os Heróis. Olímpicos e outros. Francisco, o de
Assis, deveria tê-la avisado disso. O Poeta encontra-se movido por uma
grande emoção, um fogo forte acicata-lhe a alma: aquenta sua esperança,
calcina sua esperança? Ou tenta lançar sobre o trilema uma pouca mais
de luz?
—
Tão manso de coração, o irmãozinho...
Eu o notei preocupado...
Chico Pires, Compadre,
é assim mesmo a sua graça?
O tom da Raposa é de
desconfiança, de insegurança. Piros é um pouco perigoso, Pires seria
menos perigoso...
O Poeta busca um novo
caminho que o afaste do trilema anterior, e que lhe aponte novos rumos
para o seu cismar. No imo do seu coração não via solução para a raposa,
para a sua sobrevivência, para a sua não-extinção.
—
Não deixa de ser também, indiretamente...
Chico, de Francisco, faz parte da senha...
Pires, não é nele que colocam o lume?
O Candelabro,
a penúltima letra...
Mas parece que tudo o
leva para o mesmo ponto. Mas a esperança é a penúltima que morre... O
fogo brilhará e será luz, e será Luz! Será redenção para a Raposa. O
Candelabro (menorá) sagrado que representa os sete dias da criação (e
outros arquétipos mais, como o três, por exemplo) na sua perpetuidade há
de garantir que a vida seja eternamente protegida pela Vida. Se Deus
fez, fez por uma boa razão (“E viu Deus que era bom”) e Ele garantirá
a sobrevivência da espécie de um jeito (que a gente possa ver) ou de
outro (que a gente não possa ver com os olhos da carne). Será sempre,
quando menos, a penúltima letra, jamais a última.
E a Raposa pergunta,
refutando o panfleto, se a última, o ômega, não seria mais rica, mais
definitiva? Mais favorável para a sua situação, que ela já intui
delicadíssima. E o Compadre diz-lhe que melhor não existir a última,
porque nada consegue permanecer último. Já o penúltimo sempre tem
alguma chance de continuar... a existir e a criar, e a procriar. O Poeta
se firma na necessidade de, quaisquer que sejam os desdobramentos da
situação (burocratizada) manter pelo menos um casal. Adão e Eva da
espécie em extinção programada ou suscitada pelos meandros negros da
civilização.
—
Compadre, o seu mestre-escola
não perseguia o Dez?
Contentar com o Nove, Compadre,
não seria inferior?
Estaria o Compadre justificando
esse um faltante,
ao discípulo,
o direito de discordar?
Se eu fosse a última
raposa... E se chegarmos à última raposa, ainda haverá esperança? Mas
por que duas, se posso ter nove ou
dez ou mais? O Poeta
cisma: quem sabe uma campanha, como a que foi feita como a do
mico-dourado, não pudesse salvar o
animal em burocrática
extinção?
—
Comadre, nada é Dez,
nada
é Ômega,
já expliquei...
O correto é Psi, a penúltima,
sempre tem vaga...
Ômega é Ele,
você interpretou direito,
nunca esqueça,
fique com o Candelabro!
—
Compadre, por que o Candelabro,
nestes matos secos?
vão-me tocar fogo?
Os três cabelos...
Nunca fui bruxa,
é tudo inveja, já disse!
O
Poeta, dividido entre a razão (coluna esquerda, a do Compadre) e a
emoção (coluna da direita, a da Comadre),
esses dois lados de sua consciência, oscila entre os dois pólos, ora
pensando com o coração, e se emociona e se compadece, ora sentindo com a
razão, e se meiamente endurece, deixando que os argumentos da Higiene e
da Saúde
se
sobreponham sobre o seu sentimento. Mas, mesmo raciocinando, ele sente,
ele sabe, ele intui, que a esperança
mais
factível é a preservação de um casal. Seria uma campanha mais simples
de ser tocada adiante.
—
Não, não, Comadre!
O candelabro é a maiúscula;
o mandacaru é a minúscula...
Mera questão de escolha, Comadre.
Veja, aqui está o brasão:
Se
fizermos uma campanha baseada na piedade, essa será uma campanha fadada
ao fracasso. A campanha terá muito mais chance se for fundamentada em
pressupostos da razão,
Yy
mas tem de ser uma razão
alicerçada no Candelabro de Fogo: e que alumie os corações, e que
alumie as almas. O mandacaru, que inspira compaixão, tem também de
estar presente, mas em posição de subordinação (o psi minúsculo está em
posição inferior) e de maneira que seu negror (tristeza, mágoa,
tradição) não impeça a razão de brilhar soberana, porque hoje o homo
demens, se acha homo sapiens. E não pode haver limites
pré-estabelecidos nem para uma linha de argumentação, nem para a outra.
Há que haver liberdade no encaminhamento dessa proposição ou campanha de
salvamento.
—
Mas sou Piros,
o Fogo, grego, Comadre!
—
Queima o que, Compadre, esse seu fogo?
Tão gentil, abrasa corações?
Um espelho, Compadre,
você tem um?
E a Raposa pergunta ao
Compadre a função do Fogo que ele é. Se abrasa corações? E, num rompante
de vaidade, pergunta-lhe se ele tem um espelho. O Poeta vê que a razão
com que deve lidar tem muitas facetas, sendo muito antigo e pensa:
poderia ao menos preservar sua imagem. E o Compadre diz ser muito
antigo: esteve presente no episódio de Abraão e Isaque e em quantos e
quantos lugares do mundo, quase sempre queimando, destruindo, em nome e
ação de quantos e quantos Heróis... E arremata:
Senti o cheiro da Glória,
por isto estou aqui...
O Poeta rememora: em
nome da Razão, quantas atrocidades foram cometidas no mundo, e sempre
com o endeusamento de um ou outro heroículo... E houve louros e todos
emurcheceram e já não são. E também em nome da fé... Da Fé, diziam.
E a Raposa diz que não há herói ou Herói que possa salvá-la. E o
Compadre insiste: a Raposa não deve fugir: apesar dos reveses, deve
lutar. E a Raposa pergunta-lhe:
Agora me diga, Compadre:
o lençol,
as essências,
afinal,
para quê?
, desconfiada das
intenções do Compadre. O Poeta sabe que não há para onde fugir. Onde
as matas e brenhas que dantes havia?
E sente, contristado,
que o que há a fazer é entregar a situação à situação. Cruzar os
braços: de que vale uma gota no oceano?
Que a Raposa se vire por
si mesma: que fuja, que invente uma estratégia de sobrevivência. Ele é
apenas um Circo, onde
acontecem muitas
coisas: umas arriscadas, outras hilárias, outras atraentes, e algumas
até degradantes... O Circo apenas vê, nem sequer vê. Apenas abriga em
seu interior os pseudodramas e pseudo-heroísmos da existência. O Poeta
sente-se mero espectador de um drama que ele não construiu. “Que tenho
eu lá com isso?” “Que panfleteiem, que conscientizem, que levantem
clamores e indignações!” Não, não um espectador, mas um continente que
abriga, que deve abrigar, interiormente o drama. A Raposa
encerra o canto, digo, a
nênia, com as seguintes palavras:
Os
fabulistas, Compadre,
foram eles,
pregaram uma peça no Compadre!
Brigar, como poderei?
Eles
são fortes!
E se
eu morrer?
O Poeta sente que foi
condicionado, como tantos outros: seria a raposa um animal realmente
nocivo? E se a espécie desaparecer o que acontecerá com a cadeia
ecológica, com um (ou mais?) elo a menos?
CANTO VIII -
AVENIDA COMADRE
E se essa raposa for
eliminada, logo outras e outras mais o serão, até o dia em que se erija
a lápide para a espécie:
Um
obelisco,
um pedr’e-cal,
letras de bronze:
A Comadre!
E se sobrarem raposinhas
nos covis, logo também elas se tornarão Comadres e estarão
inexoravelmente caminhando pela Avenida Comadre. Comadre, aquela que
viveu, sofreu, resistiu e morreu. Hoje, mero nome de rua.
E dela ficarão apenas
lembranças esfiapadas guardadas com carinho no imo do ser. Mas, quando
já todas tenham percorrido o calvário da Avenida Comadre, ainda assim
resta ao Poeta uma esperança. Transcendental:
Sucessivas dobras,
deste lençol de linho,
aromas e essências...!
Este intertexto com o
momento em que é aberto o Túmulo e ele se acha gloriosamente vazio é de
tocante sensibilidade. Se Ele, o nosso Salvador, ressuscitou, não
haverá para as espécies extintas uma espécie de perdão, de retorno?
E neste momento mais um
ícone:
yYy
Agora temos três psis:
um maiúsculo flamante como até aqui ladeado por dois minúsculos negros.
O maiúsculo em nível superior.
O psi maiúsculo ascende
acompanhado pelos dois minúsculos mais abaixo. O destino é um só: o
Alto. E os psis minúsculos estão
se movimentando da
esquerda para a direita. Da Razão para a Emoção. A Razão ocupa o
centro, soberana. A campanha, se houver, há de ser orientada por esse
esquema: a Razão, a Glória, o elogio, há de ser o centro no qual se
focará o discurso. E os argumentos relativos ao Sentimento, à
perseverança, à resistência a envolverão, de uma maneira tão sibilina
que todos ao lerem
terão uma sensação
imediata e permanente de que são homens sábios, e uma sensação quase
subliminar de que são heróis. E sobre
o discurso há de pairar
um como clima de santidade... :
—
Uma liturgia sagrada, respeitosamente,
levarei a oferenda a Canindé!
O Santo, doce e solenemente, a receberá;
remeterá, regozijado, a Ártemis,
mais carinhosamente ainda,
com um séquito de Ninfas,
a colocará nos braços de Zeus!
E diz o Compadre que
numa liturgia sagrada e ecumênica há de se dar à espécie em extinção um
tratamento solenemente sagrado. Mostrará a sua origem divina e o seu
destino divino. E se não ressurgir aqui na terra, que importa?
—
Ele a soltará nas vinhas do Olimpo,
Hosana, nas alturas,
assim tem sido!
E as raposas poderão se
fartar desimpedidamente para todo o sempre. E sua Fé (essa razão de
ordem superior) lhe diz que assim tem sido! Se há um paraíso para os
homens, por que não para os animais?
CANTO IX -
O CIRCO
De cisma em cisma...
Ah! Se os homens têm condições de lutar, as raposas também têm! E será
esta uma luta imparcial, em que
ambos têm condições
de vencer: o homem sobreviveu até hoje, a raposa sobreviveu até
hoje... E replica a raposa:
— O
Compadre está louco!
Vão
fazer um panfleto,
contra você também, Compadre!
— De
onde saíram essas idéias,
de
lutar até morrer?
Você
é doido, Compadre!
—
Comadre, de onde saíram, não sei,
só perguntando aos Heróis,
mas, assim tem sido,
reconhecidos, só eles,
os Heróis!
E o conflito continua:
Mas seria essa uma idéia de jerico? Mas não é isso que fazem os
aclamados heróis, seja por patriotismo, seja por patriotada? Cada qual
cuidando do seu, e tentando dilapidar o do outro.
E nesse ponto acode ao
Poeta um novo esquema, terrível este: um pobre psi negro fugindo para a
direita em busca de compaixão, rodeado por dois sanhudos psis
sangüíneos. Ah! O psizinho vai ser inexoravelmente esmagado!
YyY
Barulho, pisadas, pigarro, chinelas de currulepo,
cacete de vara-pau,
o homem,
a Besta:
Eis que avulta na
imaginação do Poeta o homem. Sem piedade, sem arrependimento, sem
perdão, perdão (de quê?). Truculento, violento, violentamente armado.
Dominado pelos instintos da Besta: Ecce homo! E o Poeta se investe do
seu papel de membro da comunidade e passa a matar a raposa em sua
mente. E agora, neste estado consciencial já não valem argumentos
alicerçados na compaixão, na realidade da compaixão, na compaixão da
realidade:
—
Ah, maldita, agora tu me pagas,
estás toldando a minha água!
—
Não estou, compadre Homem,
bebi
da borracha-de-sola!
—
Alto lá, quero respeito, raposa safada!
Não sou teu compadre!
Vou-te matar,
estás doida!
—
Não estou doida, senhor Homem,
tá’qui o atestado,
Adolfo Lutz:
normal!
Agora vale tudo, o
maquiavelismo, principalmente. Mais ainda, se aliado a isso houver
algum benefício próprio:
— Se
não estás,
vais ficar!
Vou-te matar de qualquer maneira,
quero a borracha-de-sola,
para jogar
na Loteria dos Dados!
E nesse ponto, a
surpresa final: quem está no centro, está no centro: não tem de fugir
coisa nenhuma! Tem é que se centrar e sentir em si a pujança, a
potência do ponto em que se está. O que temos são ainda os dois psis
flamantes lado a lado de um robusto e ereto psi verde. E todos como que
se estivessem se dando as mãos num momento de comunhão e solidariedade.
A Raposa (Emoção) agora ocupa o centro, sendo amparada pela Razão, que
dela vela com atenção. O que aconteceu é que a Raposa em
YYY
Um
pulo,
eriça-riça, eriçados os pêlos,
todos!!!
Os do rabo também!!!
Um
vento, elétrica, magnética, caquética,
a Comadre,
logo quem!?
Pois é! A Raposa se
transforma, plenamente centrada em si mesma, assume sua verdadeira
feição, sua verdadeira identidade de guerreira. O Poeta agora sente,
agora sabe que a raposa não vai deixar de existir porque ela tem sabido
se adaptar às mais desfavoráveis circunstâncias, provocadas pelo
bicho-homem e que todos os átomos do Universo, desde o Big-Bang
primordial concorrem para isso unissonamente:
Todos os átomos do Universo...
Big-Bang primordial!
Uníssonos!
Uníssonos:
E ela se volta para o
Compadre e diz:
— Vá
matar o Cão, desgraçado,
desta vez te pego primeiro!
E o Compadre,
Pernas para que te quero, o valentão!
Sentiu o arranco da Comadre,
mijou-se todo,
fugiu, o covarde!
Num rastro de panfletos derramados...
O Poeta centrado em si
mesmo, tendo por base a vontade de resistir, de não se entregar, resolve
lutar contra todos os argumentos contrários à sobrevivência da raposa, e
espanca, botando para correr, a sem razão dos homens razoáveis...
E neste ponto do poema o
ícone sagrado, um menorá. Um psi maiúsculo cujas hastes se
tresdobraram, produzindo diversos arquétipos: o três, a esquerda, a
direita, o centro, o sete, o pináculo.
O problema já não é mais
pequenino, circunstancial. Ganhou foros de matéria altamente sagrada.
Já não se trata da raposa, da sobrevivência de uma espécie. Trata-se de
focar o mesmo Sanctum Sanctorum. E aqui as palavras falecem. Mesmo
porque cada
um tem desse assunto,
primeiro do que todos, as suas concepções, as suas crenças.

Escureceu e Choveu!
A chuva,
hesitante e ventilado borrifo,
ternamente,
um pingo maior;
insistentemente,
um pingo menor;
a chuva...
apagou todos os rastros...!
E
veio a bendita chuva e com ela todos os rastros negros do cismar do
Poeta.
Desmancharam-se nas poças turvas,
de uma vez e para sempre,
todos os Panfletos!
O
Poeta agora sabe muito bem o que quer e não se deixará enredar pelas
idéias de outrem. Principalmente neste
terreno altamente sagrado a que chegou no seu caminhar.

O último ícone, o mais
belo: o cálice sagrado que recolhe o sangue do Cordeiro imolado para que
todos possam ter vida e vida em abundância. (A raposa, também,
claro!) Estão conseguindo ver a forma do psi maiúsculo e ereto nele?
Quando parou de
chover,
noite escura ainda,
Pico do Caga-Fogo,
urupemba
finíssima...
peneirando pontinhos de luz
verd'azulados;
infinitos pontinhos
apagavam e acendiam
infinitamente
o pico do Caga-Fogo,
I l u m i n a d o !
Usamos essa estrofe acima
como início do nosso comentário.
*********************
Fortaleza, noite alta, 12 de novembro de 1993
Mais
de dez anos são passados, e o poema continua novinho em folha!
Feitosa, este me deu trabalho e reflexão que não foi mole, não.
Não
sei se consegui atingir alguma coisa da intenção do Poeta,
mas
muito me esforcei para isso.
Em
muitos passos eu tive de abreviar em muito os comentários suscitáveis,
para
não tornar demasiadamente longo este texto.
Muito
mais haveria para se comentar em tão magistral poema.
Este é
um dos poemas mais lindo, pode pôr Pessoa nessa relação, que jamais
li.
Noitinha de chuva, um panfleto na mão, o pico adiante delineado, as
luzes, os revérberos
nas
gotículas d`´agua. Este o material concreto à mão, presumo. E quanto
engenho,
e
quanta arte!
Do
amigo e admirador de sempre,
Romero
Abraços cordiais.
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