Soares Feitosa
O Círculo Hermenêutico Periférico
Capítulo IX
Gêmeas eram as senhas das torres gêmeas
ou
O homem limpo de coisas é a medida do homem
Guardo no memorial dos olhos um velho trem, numa tarde de quase sol posto, entre Senador Pompeu e Quixeramobim, Ceará, comigo dentro dele. Éramos eu, minha mãe e tio (Adaucto), mais algumas centenas de passageiros e outro quase tanto de bichos de vasta fauna. Num ranger súbito, lá se estava o velho trem a se espatifar lá embaixo, ali na curva: dez, os mortos.
Ah, meu caro leitor, se você estivesse aqui agora, veria com seus olhos o meu arribar de beiço, fazendo o gesto: "ali", e, com as mãos, a virada do trem, pei-pei! Contente-se pois com meu descrever canhestro e amplie tudo com sua imaginação, por favor.
Uma montanha de feridos, inclusive minha mãe, um galo de sangue na testa, do tamanho de um limão, lá nela, tonta e zonza por quase um mês. Eu, uns 16 anos, forte como um bicho bruto, ganhei apenas umas boas pancadas nas costelas — para aprender a andar de trem! —, mangofava o tio, Adaucto, que ganhara só uns arranhões, dizendo que a cerveja o salvara, no que a irmã (minha mãe) recriminou:
— Foi Nossa Senhora, meu irmão, quem nos salvou! — E, ligeira, benzeu-se três vezes e três vezes beijou os escapulários bentos. Também por três vezes, exigiu ouvir, bem alto, a voz do filho (eu), dizendo que estava bem. Sim, estava.
— Graças a Deus! — e três vezes se benzeu novamente — ela disse, dissemos.
Desordem plena no trem. E, em paralelo com o agora, como se o tempo fosse um tempo-unitário — talvez até seja mesmo —, dois aviões entupidos de trevor-suicidas: o ataque às torres gêmeas do nunca mais.
Lições? Eis o desafio: o que poderia haver de senhas comuns entre transportes tão díspares e gentes tão distantes? Que julgados a elaborar? Dentro ou fora dos autos, o quê?
Não, não havia terroristas dentro do meu. Era apenas um velho trem pacífico, da linha Sul, entre Crato e Fortaleza, correndo no mormaço da tarde no longínquo ano de 1960. A eles — o trem daqui e os aviões de lá —, comum foi-lhes a morte. Também comuns foram-lhes coisas. Porque no trem daqui e nos aviões de lá, as pessoas portavam e levavam coisas.
Já lhe conto como eram as coisas nossas, dentro do trem, naquele tempo. Havia os vagões de primeira e os vagões de segunda. Na segunda classe, os bancos de pau rústico, de conforto nenhum. Na primeira, poltronas estofadas e escamoteáveis de um jeito que botávamos duas frente a frente, ótimas para conversar e olhar. Em ambos os graus, de pobre ou de rico, janelas, amplas, fartas, cheias de paisagem.
Um dia, noutras viagens, um menino chegara a se assustar com a estreitura dos vergalhões das pontes altas, ainda lá de longe, à curva- precipício, de uma certeza de quase não...
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Por que o senhor
engenheiro não botou estas pedras Riu-se ele do susto: — Não vai bater! Não consigo confiar |
O problema não era o risco dos varões das pontes altas, calculadas de correto como garantira o imaginário engenheiro-agrimensor. O problema eram as coisas. Surrões de rapadura, sacos de farinha, bodetes devidamente engaiolados em cestos de cipós trançados, chamados grajaus. Porcos, ditos bacorotes, desde que não muito taludos, à mesma embalagem. Malas, caixas, caixotes, sacos de todo o gênero, achas de lenha, caibros, ripas, carvão. Baforadas de cachimbos e cigarros de palha; cusparadas ingênuas dos mascantes de fumo de rolo. Rezas, terços, cegos e cantorias. Tudo, em suma, devidamente misturado com as gentes, porque aqui, ou pelo menos lá, aquelas coisas eram uma coisa só: coisas & gentes — nós.
Claro que aquilo tudo não era permitido. O passageiro, da primeira ou da segunda classes, deveria pelas normas da companhia de trens, despachar a bagagem. Contudo, por não confiar no "despacho", nem querer pagar nada quando o peso excedesse o limite permitido, ou ainda para desembarcar bem rápido, sem os atropelos de esperar bagagens quase sempre extraviadas, ninguém despachava (nem pagava!) coisa alguma. Sob um consenso mudo, ainda que pesasse em desconforto contra todos, ninguém reclamava. Nem mesmo os fiscais do trem diziam nada, eles também gente dali mesmo, compadres, comadres.
No trem da primeira classe não se chegava a ponto de embarcar bacorinhos, bodes e cordeiros. Mas as malas, as caixas, os embrulhos, os pacotes, tal qual na banda pobre do trem, lá estavam, em toda parte, no piso, por entre os bancos, em cima dos bancos, debaixo dos bancos. Até mesmo os cabides, próprios para um chapéu ou uma toalha, entupiam-nos com rapaduras, queijos de coalho, garrafas de manteiga-da-terra, fardos de carne-seca, atilhos de avoantes, cestas de ovos e alfenins.
Janelas. E o trem no mundo!
Quando, senão quando, nessas mínimas traições do destino, o trem a se desmanchar ao abismo. Lembro, sim — eu estava lá, dentro dele! — o bicho-trem girando, virando, louco, manco, torto, virado, morto. Retorcido. No durante, um instante só, de jamais apagar, eu vi uma quartinha. Sabe o leitor distinto o que é uma quartinha? Pois já lhe conto, com sua licença:
Ora, a sede, porque afinal, somos da Seca! Naquele tempo não havia essa idéia de vender água. Parecia-nos bíblica a obrigação de dar, gratuita, a água de beber, de modo que soaria blasfemo cobrar dinheiro por um copo d'água. Logo, se não havia água para comprar, quem não levasse a sua, é óbvio, ficaria com sede. Daí a quartinha. Dita noutros cantos lusófonos moringa, bilha, bulhão, aqui é quartinha. De barro cozido, vermelha, algumas com enfeites coloridos, outras com o sinal do oleiro ou arabescos de santidade. Arte!, e cheias d'água, uns quatro litros. Pesadas!
Então, por detrás de cada poltrona, tanto nos vagões da segunda como nos da primeira, a prosaica quartinha, ali, de plantão, e um caneco de alumínio, de uso múltiplo (para todos!) a lhe tampar a boca.
Primeiro, foi a chuva de canecos, com seus sons de chocalho. Como se os buscassem, desesperadas por terem sido destampadas assim de surpresa — eu vi, conto que vi, eu estava lá! — uma multidão de quartinhas aos emboléus, voando atrás dos respectivos canecos, a se espatifarem rijas na cabeça dos viventes. As malas, as caixas, os caixotes, e os caixões, como se subitamente enlouquecidos, voando, caindo, ferindo, matando. Os animais de asas, também os de quatro pés, súbitos papagaios, galinhas, araras, perus, pebas e teiús, em fuga por entre os moribundos. Ah desassossego! Bodes, carneiros, porcos, ovos, farinhas, bolos de feira e muita água a espoucar das quartinhas.
Contamos os mortos, dez, e socorremos os vivos, muitos. Ninguém esmagado. Os mortos e os feridos foram-no sob a grossa pancadaria dos OVPIs, objetos voadores perfeitamente identificados: coisas.
Depois, me mudei do velho trem para os aviões de carreira. Porcos, patos, bodes, perus, não, nunca os vi na cabine de um avião. Contudo, um gato maracajá conto que vi. Era um militar que retornava da selva numa época em que nem se pensava em proteger bicho feroz. Trazia de lembrança ao filho pequeno aquele filhote de fera. Solto. Era novinho, mas taludo o suficiente para uma boa unhada. Manso, todavia. Ninguém lhe opôs um pio: o dono do gato, fardado de oficial, jovem e garbo. Por cima, os tempos eram de chumbo.
Pecado meu, sou doido por gatos. Entre a repugnância do gesto em si — trazer um bicho selvagem ali entre os passageiros — e a beleza mesma do gato, desempatei pró fera. Acarinhei-o como se fosse a uma criança pequena. [E se fosse uma serpente...? E... se a farda do oficial fosse falsa?]
Voltemos ao trem, por favor. Em poucos minutos, uns caminhões de carregar pedras que trabalhavam no trecho, muitos, encostaram e subimos neles em direção à cidade, Quixeramobim, uns 10 quilômetros, não mais. A cidade esperava-nos. Puxavam-nos à hospitalidade. Os mortos, devidamente encaminhados em rezas; os doentes ao modesto hospital; os demais, às casas da cidade. Tocou-nos uma casa de negros. Não, não eram ricos. Gente modesta, não lhes guardo os nomes — afinal, eu era apenas um adolescente —, e a quem poderia perguntar, mãe e tio, cum Christo sunt.
Um parêntese sobre as "coisas": basta proibir que os viajantes de avião levem coisas. Nenhuma bolsa, nem maleta, nem frasqueira, nem estojos de barbear. Nada! De mãos abanando. Nem livros, que dentro de livros cabem lâminas, revólveres, pistolas. O homem limpo de coisas é a medida do homem.
Quem viaja de avião sabe o transtorno do monte de pacotes, maletas, berimbaus, embrulhos que muitos carregam. É o sufoco de acomodá-los nos gavetões, sem caber, que atrasa o embarque ou desembarque. Se o trem meu e o avião dos americanos viajassem sem "coisas", não teríamos morrido tantos. Volto, agora, aos negros.
Qualquer descrição que tente fazer daquela hospitalidade será pura blasfêmia. A água para lavar os pés, as mãos, o rosto, que esse negócio de banho à-toa não é coisa com que se gaste água assim sem mais nem menos. As redes e os lençóis, modestos mas limpos. E o riso amplo. Alvar!
Desconfio que foi ali, naquela casa de negros, que me dei conta que os livros, muitos, de Agassiz a Sílvio Romero, estavam completamente errados. O Homem é único. Isonômico. Árabe, judeu, nórdico, nordestino, negro, mulher, tanto faz: Homem. A isonomia absoluta. Não é apenas uma isonomia-perante-a-lei; é ela pura, total, sem adjetivos: à face do Homem!
No dia seguinte, depois do café com tapioca, ali, quentinha, feita pela dona da casa e filhas; o pai a nos animar em boa palestra — e palestra de nordestinos obviamente passa pelas chuvas vindoiras — fomos todos levados à praça da cidade. Lá, uma placa de loja que já nem lembro o que vendia. Guardo-a no memorial dos olhos: um nome incomum nesta selva de Silvas, Oliveiras, Franciscos, Raimundos — era Skeff.
Se ele, o dono da loja, é judeu, se é árabe? Peço até que ninguém nunca me conte. Tanto faz! Se é ele parente do Bin Laden, primo do Saddan, sobrinho do Ariel? Cunhado do Sharon? Pois o tal Skeff, que não lhe sei o primeiro nome, junto com os cidadãos daquela pólis grega implantada no sertão, partilhavam, ali, àqueles aflitos, aquela mesma sofreguidão de servir, dos negros, da noite bem-dormida — eu, a mãe, o tio. Era a única possível... a face de Deus ... no... Outro. Qualquer um, Deus, e todos ao mesmo tempo, Deus, incluso o Não-Acreditado.
Ah, ia esquecendo: os livros e as revistas do avião já estarão lá dentro. Escrevo uma ficção (Salomão) em que um prisioneiro do Carandiru (em cima de fatos reais) funda uma Biblioteca a ser inaugurada na noite do Século Cem, de Ésquilo. Os livros do senhor Bibliotecário Djalma, meu caro Skeff, esperam por ti — sob todos os nomes e raças que possas ter, porque Todos é o meu nome, porque Todas é a minha raça — na noite súbita do Século Cem, de Ésquilo!
Fortaleza, Ceará, Brasil,
Soares Feitosa,
5º dia a contar da queda das torres gêmeas