| Um
osso um pau uma pedra uma lâmina o disparador de fogo deviam estar ao acaso e o acaso e ao acaso uma dor de cabeça uma rápida desconexão neural
.......................................................... Gustavo
21 anos
menino bom
bem comportado
responderá perguntas insólitas
e ter-se-á mudado
inexorável
para o outro lado
e um tiro
mais um tiro
e outros tiros
ribombarão
em teu silêncio.
A besta sob a Besta: o pai a mãe a irmã a avó o avô tombaram tombaram todos tombamos nós também aos tiros do jovem Gustavo: Ao mergulho no Lethes
não sei não lembro, não é verdade, hoje mesmo eles virão-me visitar. Althusser,
Voltar...
................................................................. e
desse rio tem volta ?
—— Cesse Eis,
Vem, meu irmão,
Também é certo: se não sabemos,
Tarde.
Fortaleza, noite, 14.11.94
|
| Notas
para A Outra Margem: 01. Gustavo, Brasil, São Paulo: tragédia, um jovem de bom comportamento assassina a tiros os pais e a irmã, dirige cem quilômetros até a casa dos avós; conta a estes o ocorrido e os elimina também a tiros. Foi declarado insano. 02. um osso, um pau: redução temporal, pois o fato, apesar de absurdo, tem-se repetido ao longo da história do ser humano desde os tempos. 03. Lethes: um dos rios do Inferno, na mitologia grega: quem bebesse de sua água padeceria do esquecimento eterno. Coerentemente com o Lethes, as vítimas do distúrbio de que foi acometido o jovem Gustavo, na maioria das vezes, demonstram absoluto esquecimento da tragédia e permanecem a espera dos pais por todo o tempo. 04. insulsa margem: carcaça insulsa, in “spleen III”, Charles Baudelaire, Flores do Mal . 05. Althusser: filósofo, séc. XX, estrangulou a companheira em momento de insanidade. 06. Pound: Ezra Pound, poeta note-americano, crime de alta traição à pátria, apoio ao nazi-facismo; considerado insano, foi internado no hospital Santa Elisabeth, USA, quase até os últimos dias de vida. 07. Quatro rios: Pisom, Geom, Tigre e Eufrates, os rios do Paraíso, Gênesis. 02:11/14. 08. réquiem em ré menor: Amadeus Wolfgang Mozart. 09. em meu irmão: gesto do irmão sobrevivente, Adriano perante a insanidade de Gustavo. 10. O medo é uma loucura breve: frase final de um artigo do psicanalista e escritor Jurandir Freire Costa, Brasil, publicado no jornal Folha de São Paulo, 13.11.94, caderno Mais!. 11. Tarde: logo após chegar da Missa de 7º Dia, da genitora, Anísia. |
Pois comente!
E este o comentário, ensaio, sei lá.
RIBOMBANDO A OUTRA MARGEM
|
O fato disparador é meio antigo. O poema, sua mensagem, resplendem de novinhos. Podia, como o mesmo poema declara, ter acontecido ontem. Estar acontecendo agora. O título imediatamente nos fez lembrar de A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa. Um homem maduro, com mulher e filhos, um dia, depois de preparativos, resolve partir para não mais voltar, remando com seu barco, para, quiçá, atingir a terceira margem do rio, em que só ele parecia acreditar. Algo mais ou menos assim. É leitura antiga, a memória pode falhar. E não disponho mais do texto para conferir. Fica desse jeito. O poema obedece a três alinhamentos, parecendo confirmar a existência da leitura intertextual. Entre o título do poema em garrafais letras vermelhas e o corpo do poema, um ícone que me chamou a atenção. Examinei detidamente e fez-me vislumbrar uma porta de entrada ou de uma igreja ou de um cemitério, tendo do lado de fora, deitado no chão o corpo de um homem deitado. Um sem-teto abrigando-se ao léu? Depois de lido o poema, descobrimos: trata-se do interior de um palácio oriental, em que um paxá lamenta a morte do seu tigre de estimação tombado morto diante dele. O poeta deve ter passado por esse torvelinho mental ao ter reduzido o ícone e comparando-o com seu tamanho magnificado. Pois é altamente poético esse confronto homem x animal, e interior x exterior, e sagrado x profano, e vida x morte. Há apenas uma estrofe alinhada pelo lado direito: |
|
|
Gustavo 21 anos menino bom bem comportado responderá perguntas insólitas e ter-se-á mudado inexorável para o outro lado e um tiro mais um tiro e outros tiros ribombarão |
|
|
em teu silêncio. |
| É aí que temos o fato disparador do poema. Tudo aparentemente à direita. Tudo aparentemente do bem. De repente algo o atira para o outro lado: o esquerdo. O do mal? E não se trata de alguém distante, de terceira pessoa. É alguém com quem falamos, com quem nos comunicamos, ou devíamos nos comunicar. Como? Quem poderia desviar o Gustavo do seu ... destino? A educação, a religião, a mídia? O que temos é um fato inexorável, muitas perguntas, e muito silêncio. E acima de tudo um sentimento não confessado de cumplicidade, de co-responsabilidade. Por isso o nosso silêncio? |
| A primeira estrofe: |
| Um osso
um pau uma pedra uma lâmina o disparador de fogo deviam estar ao acaso e o acaso e ao acaso uma dor de cabeça uma rápida desconexão neural |
|
| tem como primeiro verso: | |
| Um osso |
| É aí que temos o fato disparador do poema. Tudo aparentemente à direita. Tudo aparentemente do bem. De repente algo o atira para o outro lado: o esquerdo. O do mal? E não se trata de alguém distante, de terceira pessoa. É alguém com quem falamos, com quem nos comunicamos, ou devíamos nos comunicar. Como? Quem poderia desviar o Gustavo do seu ... destino? A educação, a religião, a mídia? O que temos é um fato inexorável, muitas perguntas, e muito silêncio. E acima de tudo um sentimento não confessado de cumplicidade, de co-responsabilidade. Por isso o nosso silêncio? |
| Alinhado pela esquerda. E faz-nos lembrar do osso que o macaco atirou para o ar em 2001, Odisséia do Espaço, desencadeando com seu gesto aparentemente desmotivado toda essa civilização que ele desencadeou. Com seus males e seus ... males. Tudo começa no osso, na carne, na carne humana, no homem carnal. E, tendo descoberto a maneira de ofender ao próximo, logo chega ao canhão de laser e a outros brinquedos da chamada arte marcial. |
| Para a mente carnal, desvinculada do lado direito, do menino bom, tudo é arma de homicídio: um osso, um pedaço de pau, uma pedra, um revólver, uma bazuca. E seriam essas coisas fruto de um acaso ou de uma mens abhorrecens? E o que nos predispõe a isso? Uma dor de cabeça, uma discussão, interesses ofendidos, honra conspurcada? Tudo isso são coisas que estão na coluna do meio, da motivação imediata. Basta para a coluna da esquerda uma rápida desconexão neural, cuja causa está longe de ser entendida. Porque o homem se esquece do básico: de que ele foi criado para ser um bom menino. E por que ele deixou de ser um bom menino? |
| A terceira estrofe: | |
|
A besta Sob a Besta: o pai a mãe a irmã a avô tombaram tombaram todos tombamos nós também aos tiros do jovem Gustavo: |
|
| é de arrepiar. A besta, que pode ser entendida como arma (e se lê bésta) e como componente animal (em oposição a espiritual) do homem. E essa besta, em todos os seus sentidos, está sob o domínio da Besta, que se apresenta totalmente à esquerda, tornando indevassáveis os seus domínios: ali ela reina absoluta. Absoluta (?). E todos que participaram do drama direta ou indiretamente estão sob a sua ação: os ofensores, os ofendidos, os espectadores. Quando um mal acontece no universo, ele se reflete sobre todos aqueles que ocupam o universo. A responsabilidade é uma realidade para todo aquele que vive nesta terra: para uns ela é mais densa, mais marcada; para outros, é mais diluída, mas está sempre presente em todos, porque todos que não escaparam de suas garras a ela, à Besta, estão sujeitos. | |
| E os que participam (observe-se bem o estrato visual da estrofe) são como títeres que fazem sem saber exatamente por quê. O reino das trevas, da esquerda, só tem acesso a ele a Besta. Por isso Gustavo nem sabe mais o que fez. | |
| Ali, á esquerda, | |
|
Ao mergulho no Lethes esverdeado em gosma turvo ao cálice à insulsa margem: |
|
| Gustavo, que não sabe que ali está, está mergulhado em esquecimento, afundado num mar de limo e gosma, que tem a margem insossa, sal estragado que não serve mais para alimentar os prazeres da vida. A vista turvada já não pode perceber o cálice que por ele foi bebido até a última gota, libertando-nos de tão terríveis logradouros. Já não tem acesso à vida profana de prazeres, já não tem acesso à vida espiritual que o poderia remir. | |
|
——— Não,
não sei não lembro, não é verdade, hoje mesmo eles virão-me visitar. |
|
| E sobre Gustavo a mente obnubilada é puro esquecimento. Na coluna do meio, da motivação, dos porquês e para quês mal revelados, não se lembra daquilo que ficou enterrado no Lethes: uma espécie de fantasia substitui-lhe a consciência e supõe ainda vivos aqueles a quem matou. | |
|
Althusser,
alfa, beta, gama, delta e as facas... Pound e outros habitantes do outro ..................... alter te farão companhia e as balas... neste outro lado e os gritos... existencial e as pedras... do drama mais um drama visceralmente ligado, o drama à queda expulsão do vale daqueles quatro rios definitivamente perdido o vale: hoje de lágrimas tragi, tragi-drama réquiem Condição Humana em ré menor. |
|
|
Esta estrofe acima, minuciosamente elaborada, de alinhamento central, de perscrutação da Condição Humana, apresenta, ela mesma, três alinhamentos: o da esquerda, em sangue, o das causas bestumanas; o central, o da motivação, consegue determiná-la vagamente, atribuindo-a à queda, à expulsão do Éden em caráter definitivo. O terceiro alinhamento, o dos fatos, das conseqüências: as dores, os dramas, a morte, a condição do homem enquadrado como réu menor. Gustavo, você não está sozinho, nunca esteve, nunca (?) estará. |
|
| E continua magistralmente o Poeta: | |
| Voltar...
voltar desse rio?! |
|
| E depois que alguém cai nesse mar terrível, há possibilidade de uma volta, de uma remissão, de uma salvação? Será esse um sonho possível a alguém como tantos Gustavos? O alinhamento à esquerda nos explica: estamos no terrível domínio da Besta, de onde tudo é esquecimento, inconsciência. | |
| ................................................................. e desse rio tem volta ? | |
| E desse rio cujos reflexos produzem tão graves motivações, há a possibilidade de volta? Para voltar, ter-se-ia de atravessar uma série de pontinhos indefinidos em qualidade e em quantidade. Isto é, seria um caminho totalmente inviável. | |
| —— Cesse
calem-se cesse tudo infinitamente tudo calem-se todos: |
|
| Aqui, neste plano da condição humana, das motivações, não vamos encontrar nem quem responda nem quem resolva o problema, pois a ninguém nascido de mulher é dado perscrutar o inescrutável, e menos ainda chegar até lá e voltar. | |
|
Eis, Ecce Homo, Agnus Dei qui tollit peccata Mundi. |
|
| Mas eis que nem tudo está perdido. O homem comum não pode enfrentar sequer o problema, pois ele tem raízes na Queda, e sobre a Queda apenas o mistério paira solene. |
| Eis o Homem, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Este Homem, Filho do Homem, tem ele, somente, o poder de ir aos domínios mais últimos, mais extremos da esquerda, aos quais se chega só pela morte e de lá voltar, tirando com esse ato os pecados do mundo. É de se observar que na Vulgata está peccatum e não peccata. Singular e não plural. O Cordeiro não só tira os pecados do mundo como o livra dessa espécie de coisa. Ele traz a possibilidade de se matar o pecado em geral, já como ser gnômico, já como categoria existencial. E Ele morreu e desceu aos infernos, derrotando os que lá estavam exercendo domínio, e matou o pecado, e matou a morte. Pagou com o sangue próprio a grande dívida oriunda da Queda, que ninguém mais poderia pagar. |
|
Vem, meu irmão, tu és um de nós; o medo é uma loucura breve, nem todos sabem o que fazem. |
| E o Poeta se dirige a cada um de nós, Gustavos em potencial, deuses em potencial, lembrando que todos estamos sujeitos a passar pela loucura, mas que ela sendo breve, pode ter resultados massacrantes. “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem.” Mas, seja a loucura em que estivermos, enquanto nela estivermos, estaremos sem saber o que fazemos. E o Pai está pronto para nos perdoar. Redimir-nos da Queda e de suas conseqüências. |
| Também é certo: | |
| Depois que o Homem-Deus conseguiu descer à esquerda e derrotá-la, a mesma esquerda se ilumina, e o homem já não precisa mais ser um títere das Trevas. | |
|
se não sabemos,
mesmo assim, poderíamos ter feito um pouquinho mais e melhor. |
|
| Agora a estrofe alinha-se pelo meio, invadindo um pouquinho a esquerda. A nossa motivação para o mal já não mais está presidida pelo mal absoluto (?). Podemos detectar suas raízes primeiras e últimas e atacá-la como de raízes primeiras, através de Jesus Cristo, como de raízes últimas através da educação, da mídia, da política. E sempre podemos atuar um pouquinho mais e melhor tanto num setor como no outro. E o remédio para o mal, esteja ele em que fase esteja, é sempre Jesus Cristo. O único que conseguiu descer aos infernos e de lá retornar vitorioso, para com todos os que nele crêem repartir as benesses do seu triunfo. | |
| Tarde. | |
|
ltima estrofe. Singela. Intensa. Para além do factual a que ela remete, fica-nos uma mensagem. A motivação é sempre tarde. Temos de combater antes que ela se manifeste. |
|
...............