AUTOPSICOGRAFIA - UMA TENTATIVA DE INTERPRETAÇÃO

 

Muito já se escreveu e se disse sobre um dos poemas mais famosos e citados de Fernando Pessoa : Autopsicografia. Depois de termos penetrado, levemente embora, a estrutura-teor do universo poético de Fernando Pessoa, queremos, agora, fazer uma tentativa de interpretar aquele poema à luz de tudo aquilo que falamos da obra do Autor.
Procuraremos ser coerentes com tudo o que lá se expôs, mesmo porque esse poema é de extrema importância no conjunto de sua vida-obra, de sua obra-vida.

Comecemos pelo título, que, podendo ser facilmente desdobrado como psicografia do próprio eu, se reporta a uma escrita que é ditada por um eu que certamente não é o eu com o qual tem contacto quotidiano. Tem de ser um eu especial, que habite as mesmas reentrâncias recônditas desse seu eu de todos os dias. Seria algo assim como um profundo mergulhar no seio da própria entidade, buscando ali como que uma pessoa interna, uma das pessoas internas, que o é, ou que o foi. Seria estabelecer contacto com alguma parte do seu eu maior, que traz ali registrados todos os fatos de sua existência infinita em forma latente/suspensiva deste existir.
Essa preocupação responde diretamente àquela que manifestou em outros momentos quando se perguntava a si mesmo quantos eus havia nele mesmo. O fato cultural da psicografia está diretamente atrelado à concepção místico-religiosa da reencarnação, que sustenta que o ser, em geral, e o ser humano, em particular, tem uma existência eterna feita de inumeráveis vidas associadas a diversas personas ou personalidades, que já por essa terra passaram. E há um ser maior, omniabrangente, que, comportando todas as inumeráveis personalidades que passaram pela roda da carne, é a individualidade, que tem dentro de si, vivas, cada uma, à sua maneira, cada uma em seu plano de manifestação, todas aquelas personalidades históricas que, de uma forma miraculosa, viajam no seu seio, no seu universo.
Um dia, todas essas personalidades acordarão por força de uma, a redentora, aquela que se entregou incondicionalmente ao seu Cristo Interno, e se saberão, de uma maneira até então inefável, que sempre e sempre foram um só ser miraculosamente uno e múltiplo. E cada um terá a sua consciência total de tudo por que passou, de tudo que viveu, e cada um terá também a consciência plena e total de que são um. E cada um será o outro, que será a si mesmo, sendo o outro, e será também o todo que todos contribuem para ser. E
R poderá vivenciar-se como R, ou como P, sua co-persona anterior (do alto, ou do baixo desse hoje falamos), ou como A, sua entidade maior para esse plano, e um dia, até mesmo como M, a entidade suprema que redime o ser do plano anterior, em que já esteja, para levá-lo, em consciência outra, para outras jornadas mais do que gloriosas em outros planos de causação.

A consciência jamais se perderá, mas aprenderá a vivenciar, individualmente-em-igreja, novas dimensões e estados do ser. E isso numa viagem infinita, em que a GLÓRIA é o limite. É óbvio que esse contexto acima coloca uma série de questões em relação aos heterônimos... E haveria uma maneira de contactarmos esses inúmeros eus que, de alguma maneira, habitam vivos e íntegros a nossa alma? É isso que o Poeta pretende fazer com sua autopsicografia.

*** Abrindo um marcador de trecho. O que for tratado desde o parágrafo seguinte até o ponto de fechamento, foi escrito, com pequenas modificações, em 1986, ano em que parte deste trabalho, então numa versão bem mais incipiente, foi publicada, em seções, no Suplemento Literário do Minas Gerais, de Belo Horizonte - Imprensa Oficial de Minas Gerais.

Abrindo parêntesis.

Antes, entretanto, de passarmos à análise e interpretação do poema em foco, gostaríamos de referir o método de que nos valemos em nossas especulações. A ele denominamos de escavação ingênuo-maiêutica. Procuramos alicerçar esse instrumento em uma atitude em que houvesse, por parte do interpretador, um grau, sempre mais elevado, de simpatia, de requinte, de descondicionamento, de isenção de ânimo, de unção.
De simpatia, pois é importante que procuremos nos sintonizar com o estado de espírito do autor, com o seu conteúdo vivencial-espiritual. Ou no dizer de Fernando Pessoa: "Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada, - todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar." (FPOP, p. 8)
De requinte, pois é preciso estar preparado para o totalmente novo, para o inesperado, para o insólito. O óbvio deve estar sempre pronto para ceder lugar ao especulativo. Para isso são de grande valia o pensamento-paradoxo e o processamento dialético.
De descondicionamento, pois é preciso, à vezes, abandonar ou recalcar certos dados e informações tidos como inquestionáveis legados pela tradição,ou avalizados pelo establishment. Lembremo-nos de Caeiro.
De isenção de ânimo, pois tanto a atitude de pronta aceitação, como a de sistemática repulsão, devem ser deixadas de lado. A regra é nada aceitar ou refutar, sem que haja o magistério da razão e da reflexão conseqüente.
De humildade, pois é preciso crer que, assim como há os que não nos entendem, assim também há os que nós não entendemos.
De unção, porque de coisas santas freqüentemente falamos, sem nos darmos conta disso...

Fechando parêntesis.

Vejamos, agora, o texto, na íntegra:

AUTOPSICOGRAFIA

   O poeta é um fingidor.
   Finge tão completamente
   Que chega a fingir que é dor
   A dor que deveras sente.

5 E os que lêem o que escreve,
   Na dor lida sentem bem,
   Não as duas que ele teve,
   Mas só as que eles não têm.

      E assim nas calhas de roda
10 Gira, a entreter a razão,
      Esse comboio de corda
      Que se chama o coração.
                                                        (FPOP, p. 98)

 Procuremos aplicar ao poema a abordagem ingênuo-maieûtica. As perguntas, muito simples (tais como: Se o poeta é um fingidor, o que ele faz?), que estão por detrás das afirmações do argumento, por óbvias, ficarão subentendidas.

1ª estrofe: (versos 1 e 2):
a. O poeta finge.
b. O poeta finge de uma maneira completa, inteira, em que o fingimento é só fingimento. (versos 3 e 4):
c. O poeta sente, realmente, uma dor.
d. O poeta sente a dor real como dor fingida. Portanto, o Poeta transmuta a dor real em dor fingida, num processo de sublimação, processo esse que é a sua faculdade de fingir. Sente ele, então, duas dores, perante a dor que esteja sentindo:
1. a dor real, no sensível;
2. a dor fingida, no inteligível.

Abrindo parêntesis.

É esse - releva ressaltá-lo - um dos mecanismos mais freqüentes na estética pessoana, tendo ele origem em requintada cosmopatia. Podemos chamá-lo de desdobramento. Vejamo-lo em atuação neste poema:

" Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse: eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver."

                                       (FPOP, p. 385)

Há aqui, na verdade, um desdobramento, seguido de um redesdobramento. Vejamos: na criança, há duas consciências: a que se ocupa do brincar (consciência física) e a que se ocupa do sentir-se brincar (consciência reflexiva). O processo complica-se, visto que há, um estágio ulterior mais profundo, em que há aquele que se vê a ver brincar...

Fechando parêntesis.

Voltando, após esse parêntese, que se nos figurou necessário como documentação validadora de raciocínio, ao poema em tela, teríamos, esquematicamente:

 

2ª estrofe:
(verso 5):  Em referência a um poema, há aquele que escreve (o codificador) e os que lêem (o decodificador). Podemos, então, partir da premissa de que o poema é uma expressão (exteriorização) em busca de comunicação (comunhão) e estabelecer que, neste processo, o poeta se relaciona com o leitor, que, ao decodificar
(verso 6): a dor lida (já sublimada e codificada), sente, de maneira categórica, iniludível,
(verso 7): não as duas (a real e a fingida) que passaram pela experiência-consciência do poeta; outrossim, não na sente, sequer, como
(verso 8): nenhuma dentre as que ele, leitor, possa ter ou possa ter tido, no real ou no inteligível (no seu fingível).
Assim, o leitor, o decodificador, diante da dor codificada (no inteligível), decodifica-a, não atingindo nenhuma das duas dores originais, nem conseguindo (pois ele sente que isso seria impossível) identificá-la com alguma que tenha tido. Vale dizer: o leitor recodifica-a novamente. Há, então, uma como ulterior sublimação da dor. Teríamos, agora:
1. a dor real (vivida) (no sensível) do poeta;
2. a dor fingida (codificada) (no inteligível) do poeta;
3. a dor fingida-fingida (decodificada-recodificada) (no inteligível), nem do poeta, nem do leitor.

Ou esquematicamente:

3ªestrofe:
Antes de passarmos à sua análise, examinemos algumas expressões, aplicando-lhes o princípio da analogia, procurando atingir, pelo que está em baixo (o denotado), o que está em cima (o conotado):
. calhas de roda - corresponderiam ao conteúdo semêmico de trilhos (de estrada de ferro), isto é, caminhos que levam a um determinado lugar, passando sempre pelos mesmos sítios. Dariam, então, a idéia de pré-destinação, fatalidade. (Uma concepção fatalista da existência?...);
. gira - rodopia, descreve um movimento circular turbilhonante; rodopia, agita-se vertiginosamente, mociona-se, emociona-se, comociona-se. Essa última associação leva-nos à idéia de sentimentos (em oposição a razão);
. comboio de corda - série de carros arrastados por um elemento motor, no caso, a corda. Se comboio de corda corresponde a coração (Cf. versos 11 e 12), temos, por uma operação analógica:
. comboio - carros arrastados (puxados, tirados): sentimentos, anseios, esperanças, preocupações, recordações, que o homem arrasta, através de e em o coração, pela existência em fora;
. (de) corda - elemento que impulsiona, durante certo lapso de tempo, tendo, previamente, sido impulsionado. E aqui fica uma pergunta latente, angustiante: impulsionado por quem? ... e sem resposta ... .
. a entreter - para entreter, ocupar, fornecer elementos, dados, para. Haveria, é verdade, paralelamente, sugerida a idéia de distração, entretenimento, que, conquanto válida, menos pertinente. Entreter, entre outros significados, tem o de manter, conservar. Daqui podemos derivar: fornecer alimentos ou elementos de manutenção para. E, por generalização, teríamos: fornecer algo (aquilo que o coração pode oferecer (CF. item comboio, acima), no caso, sentimentos, emoções, ... para;
. assim - desta maneira, da maneira apresentada nas estrofes 1 e 2, girando, o coração (através dos sentimentos, do sentir) gera dor no sensível. Após essa escavação final, podemos concluir. A dor gerada no sensível é manipulada, remanipulada, re-remanipulada ... pelo intelecto, que a sublima cada vez mais. Resultado: o intelecto, ao cabo, é o que recebe as honras, e o coração fica esquecido, abandonado, mero auxiliar ou joguete ou bufão da razão. O coração, vemo-lo, está predestinado, inexoravelmente, a desempenhar o seu papel, que é fornecer dados à razão. E tal qual um comboio de corda, um dia, quando tiver cumprido sua missão, na grande comédia épico-trágica da vida, ele deixará de funcionar, de existir...

*** Fechando o marcador de trecho.

O que então foi escrito é verdadeiro e válido, mas faltou ao interpretador um tanto mais de humildade e unção, pois não conseguiu ver que havia, ainda, um tênue e espesso véu encobrindo uma verdade maior. Hoje sabemos que os véus que recobrem o verbo são infinitos, já que o símbolo apresenta infinitos níveis de significação, que vão-se distinguindo um dos outros pela qualidade distintiva de cada universo a que se reporta. Os véus, quanto mais sutis, mais distintivos - e mais indistintivos - são. Para a consciência do viajor, cada plano é singularmente diferente de todos os outros; para a consciência do Ser, cada plano é exatamente igual a todos os outros. Para o viajor, os véus da ilusão são a garantia de um jornadear eterno, em padrões cada vez mais elevados de glória. Para o Ser, não há véus de ilusão: todo o seu reino está inundado da mais excelsa luz. Os que viajamos estamos inundados dessa luz que é a única verdadeira, mas não na podemos ver, porque sobre ela projetamos o nosso querer; e a luz, amorosa, se automodula em ilusão, para nos atender. É preciso que tenhamos em mente essa questão dos véus, para entendermos um pouco mais profundamente o poema Autopsicografia.
Mas, antes de abordarmos esse poema tão fascinante, tão denso e tão difícil de entender, vamos nos valer de um outro, que lá foi ligeiramente trabalhado: Brincava a criança, pois esse poema nos fornece o contexto para interpretação de Autopsicografia. Adentremos a Caverna, com humildade e unção. Vamos abordar uma série de arcanos sagrados, que se velam de símbolos, que se desvelam em arquétipos.
Façamos, então, uma leitura das duas primeiras estrofes, procurando fazer um levantamento de arquétipos básicos que ali estão presentes, disfarçados por um tênue véu.

Leiamos o poema "Brincava a criança" antes de prosseguirmos:

Brincava a criança
 
Brincava a criança 
Com um carro de bois. 
Sentiu-se brincado 
E disse, eu sou dois ! 

Há um brincar  
E há outro a saber, 
Um vê-me a brincar 
E outro vê-me a ver. 

Estou atrás de mim 
Mas se volto a cabeça 
Não era o que eu qu'ria 
A volta só é essa... 

O outro menino 
Não tem pés nem mãos 
Nem é pequenino 
Não tem mãe ou irmãos.  

E havia comigo 
Por trás de onde eu estou, 
Mas se volto a cabeça 
Já não sei o que sou. 

E o tal que eu cá tenho 
E sente comigo, 
Nem pai, nem padrinho, 
Nem corpo ou amigo, 

Tem alma cá dentro 
'Stá a ver-me sem ver, 
E o carro de bois 
Começa a parecer. 

 

 

 Versos  Arquétipos
 Brincava a criança  CRIANÇA BRINCANDO
 Com um carro de bois  UM CARRO; BOIS
 Sentiu-se brincando  CRIANÇA SENTINDO; CRIANÇA BRINCANDO
 E disse, eu sou dois!  EU; DOIS

 Esquematizemos o até aqui:

 

 Versos  Arquétipos
 Há um a brincar  UM A BRINCAR
 E há outro a saber:  OUTRO A SABER
 Um vê-me a brincar  UM VEDOR; EU A BRINCAR
 E outro vê-me a ver.  OUTRO: VEDOR DO VEDOR

E agora, incorporando elementos, temos:

 Não nos esqueçamos de que o UM que figura acima é ele, mesmo, o arquétipo primal, do qual já falamos ligeiramente. Organizemos, agora, esses arquétipos linearmente sobre o eixo do ser-existir, que se estende do mais sutil inteligível ao mais denso sensível:

 

 

 Percebemos que os arquétipos se dispõem em uma seqüência progressiva, que, partindo do nível do altamente sensível, com BOIS, atinge, com EU, um nível do altamente inteligível.
Agora, dispomos de um contexto forte, um tanto vago ainda, que vai nos permitir caminhar mais seguramente.
"Estou por trás de mim"
Sabemos que é próprio do Poeta partir do sensível para o inteligível, o a que assistimos em inúmeros poemas seus, constituindo isso um dos mais fecundos recursos estéticos do seu exprimir-se. E esse dado é chave para o deslindamento do enigma.
Se "estou por trás de mim", é porque eu antes estava numa posição mais dianteira, a mais dianteira possível, a mais mergulhada no sensível, ou seja, na do BOI ou dos BOIS. (Consulte o esquema acima.)

 E o que o BOI faz? Ele ara a terra. Trabalha a terra. Ele labuta em cima da terra, arrastando atrás de si um carro de rodas, um carro que se move ao giro das rodas. À cada volta da roda, mais, ou menos ligeira, desce um que vai passar a arrastar o carro, e sobe um que vai ter seu descanso no carro. E quem é aquele, no eu do Poeta, que se esfalfa sobre esta terra, arrastando o carro que está atrás de si? Obviamente, a personalidade então atual, a personalidade em atuação, a personalidade de turno, o locus personativo Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
E onde está o Poeta, já que, agora, está atrás do BOI? É óbvio que no CARRO.

 

 E o carro de rodas para que serve? Qual a sua finalidade? Transportar, carregar, descarregar. Transportar o quê? Deve ser uma carga especial, altamente específica, uma carga que é o atrás do eu personativo atuante. E o que esse eu tem atrás de si, nas brumas do passado? A sua história de existência. Assim, a carga do carro tem a ver diretamente com a história ou proto-história da personalidade atual. E essa história é feita de personalidades inúmeras que se sucedem na tarefa de puxar o carro.
O UM que é CARRO transporta no seu seio as personalidades que, para Fernando Antônio Nogueira Pessoa, estão atrás de si , no passado, naquilo que chamamos de passado. E essa dimensão do seu EU é a INDIVIDUALIDADE, uma entidade una que se divide-multiplica em inumeráveis PERSONALIDADES.

Nesse momento, Fernando Antônio Nogueira Pessoa sabe que ele é o que desceu do carro para arrastá-lo durante algum tempo, para logo retornar a ele...
"Mas se volto a cabeça" E há algo mais para além do CARRO. Se ele olhar para trás, a partir do ponto em que ele está, que é o CARRO, ele vai ver a CRIANÇA BRINCANDO. (ReportE sempre ao esquema básico.)

Sabemos bem do apreço inestimável que o Poeta tinha pela Bíblia. Lembremo-nos da epígrafe ao poema Christian Rosencreutz.
Sabemos, também, que ele dedicou toda sua vida a serviço do sagrado, à busca do mistério. Vamos às Sagradas Escrituras, portanto.
CRIANÇA BRINCANDO. Quem será a personagem por detrás desse arquétipo? Alguém que numa situação de seriedade absoluta, agiu como uma criança, brincando com o sagrado. Alguém que, diante de um fato miraculoso que lhe é transmitido pelo Sagrado, ao invés de entrar em êxtase, explode em riso. Alguém que foi o pai desse riso inconseqüente, e que batizou o filho da carne com esse nome, para que hoje pudéssemos entrar com alguma luz na Caverna. CRIANÇA BRINCANDO, então, é Abraão, que aos 100 anos de idade, depois de ter rido do anúncio, teve um filho chamado Isaque, cujo significado em hebraico é Cf. Gênesis, 18:1 a 18:15 e 21:1 a 21:3.
E Abraão, que se chamava Abrão (= Pai exaltado), significa Pai de multidão. De Pai exaltado, pai que está para além de todos os pais das personalidades, passou a ser chamado por Deus de Pai de Multidão, recebendo uma como promoção cósmica, porque passou a agasalhar em seu seio inumeráveis individualidades, sendo habitadas estas por personalidades. É ele o UM que é muitos: os muitos que é UM.
Continuando.
Se olha para Abraão,
"Não era o que eu qu'ria." <
Mas se olho para Abraão, eu vejo que não era o que eu queria. Quando estava no seio de Abraão, no meu repouso, antes da descida, o que eu queria não era isso; o que eu queria era outra coisa. Não era isso. Eu não queria descer até a individualidade, para lá me dividir-multiplicar em muitos. O que eu queria era continuar um, sempre eu mesmo, sem jamais me perder ou me dispersar como eu mesmo. O que eu queria, então, era ser eterno, como um único eu, que tivesse um carro só para si. E de lá eu apearia e ficaria algum tempo fora do carro, livre, sem nada a arrastar atrás de mim. E depois de algum tempo, eu voltaria de novo para o carro para desfrutar das coisas que o carro tem , mas sempre com uma contínua e clara consciência de mim mesmo, sem qualquer oblívio. E o que tenho agora é olvido sobre olvido e um carro que tenho de compartilhar com muitas co-personas de mim mesmo. Em Abraão, eu era uma individualidade, com um só corpo e uma só alma. De lá desci e me fragmentei ... entrei na escala de serviço, cumprindo agora o meu turno, tendo perdido quem antes me fui, para perder-me em quem me será.
Eu não queria:

"A volta só é essa."
Volta tanto pode significar giro, como regresso.

tanto pode significar sozinho como apenas.
Então, teríamos:
O regresso do giro, a sós, é apenas esse. Esse torneio frásico procura englobar os principais níveis de sentido da expressão tão econômica utilizada pelo Poeta. O fato de esse foco personativo estar aqui hoje na ativa pode ser entendido como um regresso da sua individualidade a este plano, já que ela, sendo uma, está inteira em todas as suas partes. Quando um desce do carro, ela desce com ele. E também pode ser entendido como um giro da roda da encarnação, pela qual já passaram todas as personalidades que o antecederam, e pela qual ele estava passando naquele então.
E o que o compunge é o fato de que essa vai ser a única vez em que ele terá vindo sozinho, como ele mesmo, a este plano. A outra vez que ele voltar, e provavelmente ainda voltará, ele já não será ele mesmo, Fernando Antônio Nogueira Pessoa; ele será um outro que talvez nem saiba que ele estará em repouso no seio da individualidade a que este outro também pertence. Com um pouco de sorte, talvez seja lembrado, em consciência de saber, pela persona que estará no seu futuro. E, talvez, venham até a se confraternizar...
E ele diz queria, e não: quero.
Porque naquele então em que estava existindo sobre esta terra já de nada adiantava o seu querer...
Mas, continuemos nossa jornada.
"O outro menino"
O termo
outro, no poema, está referido a A SABER e VEDOR DO VEDOR.

"Não tem pés nem mãos"
Esse OUTRO MENINO não tem pés: já não precisa caminhar, está para além desta roda evolutiva; não tem mãos: já não precisa fazer, já não precisa agir, está em perfeita paz consigo mesmo, em seu pleno contentamento.
"Nem é pequenino"
Em Marcos, 10: 14,15, Jesus, repreendendo a alguns que procuravam reprimir algumas crianças, disse que no reino de Deus só poderia entrar quem o fizesse como um daqueles pequeninos.
Para entrar no reino de Deus, o homem tem de agir inocentemente e puramente como uma criança, como um pequenino. Portanto, a entidade a que o Poeta se reporta está no reino de Deus, mas não é um pequenino. Muito pelo contrário: é um ser de altíssima envergadura.
"Não tem mãe ou irmãos."
Tem pai, o Senhor Deus; não tem mãe, não tem irmãos: não tem genealogia, não é filho de mulher, e deve ter alguma relação com Abraão. Ora, a personagem com quem Abraão se encontrou, tendo pago a ela o dízimo que sabia lhe dever, é Melquisedeque, rei de paz e de justiça. E Jesus é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.
"E havia comigo"
Por trás de onde estou,"

Para podermos continuar a decifrar o enigma, precisamos, antes, determinar onde está o Poeta em sua viagem para dentro de si mesmo. A última vez o deixamos olhando para Abraão. Terá chegado até Abraão, e, uma vez lá, teria voltado a cabeça? Tudo leva a crer que sim, pois o sentido do seu caminhar é este: do menos sutil para o mais sutil. Além disso, o e que inicia a estrofe parece estabelecer uma relação com a estrofe anterior, em que se trata de Melquisedeque. O que faria com que ele estivesse no VEDOR.

 

 

Ocorre que a 6ª estrofe vai nos ajudar a resolver essa questão, pois o Poeta diz ali onde ele está. Vejamos.
"E o tal que eu cá tenho"
O termo
implica agora. O que ele cá tem é o que ele tem agora. É onde ele está agora. Como nessa estrofe se trata de Cristo, como veremos logo mais, então na estrofe anterior, ele está falando do outro, daquele que está atrás de Cristo. Tudo se encaixa: Jesus, o Cristo, é sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque.
Vamos incorporar ao nosso esquema prévio os dados que levantamos até aqui.   

Agora podemos voltar à estrofe 5.
Vejamos seus dois primeiros versos:
"E havia comigo

O que podemos entender ainda vagamente é que:
Havia comigo em Melquisedeque.
Quando no seio de Melquisedeque, havia com ele algo que ele não sabe o que é, que ele não consegue verbalizar. Mas ele sabe nitidamente que era com ele, e, se era com ele, é porque ele era em consciência de ser-existir. O que havia com ele era um haver absoluto, em que, sentindo-se como o todo, podia sentir-se como ele mesmo. Ele existia-em-sendo, em um estado de consciência que não consegue exprimir. Mas, até esse ponto, até esse além, ele consegue rastrear o seu eu.
"Mas se volto a cabeça
Já não sei o que sou."

Mas se ele se dispõe a olhar para o mais além, para além de Melquisedeque, ele já não consegue saber o que é, se é que é. O haver absoluto foi o último grau de sutilidade a que conseguiu chegar com o seu saber-ver. No mais além, o que se lhe depara são densas trevas onde o EU supremo, conglobante de todos os seres, viaja, imóvel, sua paz e seu silêncio...
Continuando.
"E o tal que eu cá tenho"

Há um que o tenho cá dentro de mim.
"E sente comigo"
Esse ser sente comigo o que sinto e sabe o significado que a dor tem para mim.

"Nem pai, nem padrinho,"
Qual a personagem bíblica que não teve um pai de carne?
E que não foi batizada por homem, mas pelo Espírito Santo?
"Nem corpo, nem amigo"
Que tem corpo, mas não o corpo que temos? Que tem um corpo especial, transubstanciado em glória?
E que não tem amigo? Quem é aquele, que na noite da alma, ficou sem amigo, sem um só amigo?
Aquele que, sendo mais do que amigo, teve a desdita de ser negado três vezes por aquele que poderia ter-se comportado como se fosse um amigo, e que era seu discípulo?
Tudo isso aponta para Jesus, o Cristo.
"Tem alma cá dentro"
E Cristo não é um ser exterior a mim; é um ser que tem alma dentro de mim, que vive dentro de mim, que se alegra com minhas alegrias, que se compunge com meus tropeços.
"'Stá a ver-me sem ver."
É ele o VEDOR, que me vê, mas não me vê. É o ser de olhar manso que olha placidamente para as minhas venturas e desventuras, vendo nelas algo além daquilo que qualquer outro ser poderia ver. Cristo vê no homem , não o pecador, mas o ser redimido que ele comprou com o seu sangue, e aguarda, paciente, que ele o saiba e o assuma.
"E o carro de bois
Começa a parecer."

E o CARRO de BOIS começa a parecer o quê? Aquilo que é: CARRO de BOIS.
E a INDIVIDUALIDADE começa a parecer INDIVIDUALIDADE.
O Poeta está voltando, de sua viagem ao centro dele mesmo...



*** Voltemos a
Autopsicografia.

"O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente,
Que finge que é dor
O que deveras sente."

Poeta é um termo que se origina de um verbo do grego que significa fazer.  Assim, poeta é o fazedor, o criador, o construtor.
O verbo
fingere, do latim, tem, entre outros, os seguintes significados básicos:
1) modelar em barro;
2) modelar em qualquer matéria plástica;
3) moldar, esculpir, reproduzir os traços;
4) representar;
5) imaginar, inventar, produzir, criar;
6) fingir.
(In Dicionário Escolar Latino-Português - MEC - 1962)

O poeta é um modelador que usa o barro do sensível, o material que ele tira da terra, enquanto na terra, para fazer seus versos, tecer seus sonhos.
O poeta é um modelador que usa qualquer matéria plasmável para urdir seus poemas, seus universos, seja ela os êxtases de um santo, seja ela os orgasmos lúbricos de um devasso, seja ela o sagrado, seja ela o profano, seja ela o solene, seja ela o irreverente.
O poeta esculpe, com sua criatividade, paisagens de sonhos em que gostaria de viajar, calabouços de trevas em que precisa estar.
O poeta representa, para si mesmo, tudo o que lhe aprouver: aquilo que não tem e almejaria ter, e, até mesmo, aquilo que já tem e almejaria ter. Se já tem, como almejaria ter? Aqui o que o identifica para sempre com um selo altamente distintivo. Ele quer o que tem, do jeitinho que tem, mas em outras condições de existir: ele quer suas dores, seus percalços, seus medos, seus anseios, suas ambições, suas alegrias, seus afetos, as pessoas todas com quem convive e conviveu, mas não nestas condições limitantes de luz-em-trevas, mas em outras circunstâncias, em que tudo isso que lhe é caro seja tocado por uma luz um pouco mais luz, que lhe dê um sentido de existir mais pleno, mais aberto, mais franco, mais liberto, mais amor.
O poeta, como um plasmador, é aquele que, saindo do nível de mero experienciador, se alça ao nível de fazedor consciente. O homem comum vive a realidade como algo que parece estar acontecendo a ele; o poeta sabe que está criando a realidade que está experienciando. Ele sabe que é o seu querer que cria o universo em que vive. Ele entendeu bem o profundo sentido da fala de Jó:

"aquilo que temo me sobrevém; e o que receio me acontece." (Jó, 3:25)

Porque o medo é uma poderosíssima força de querer. Então ele sabe perfeitamente que o coração não apenas experiencia coisas, como também cria as coisas e situações que ele experiencia.

"Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida." (Provérbios, 4:23)

O poeta sabe, portanto, que a dor que esteja sentindo tem sua origem no coração, que, algum dia, de alguma maneira, recebeu a semeadura do seu querer. E o grande problema é que esse querer é intransitivo: tanto faz querer a minha dor, como a dor do meu semelhante: ela nascerá no lugar em que foi gerada. E é por isso que

"Finge tão completamente,
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente."

O seu fingir, o seu plasmar de realidade, tinha de ser completo, para que nada se perdesse. O que ele queria para si não era um novo universo de existir, o que ele queria era este mesmo universo ligeiramente modulado para uma ambiência de mais luz.
Os homens, quando fingem, em sua maioria, fingem o melhor de si mesmos. Ou o melhor para si mesmos. Fingem sempre que são o que não são, parceladamente. Ora é preciso fingir que são honestos, que são fiéis; ora é preciso fingir que estão doentes, que estão carentes.
Já para o poeta, tudo é matéria para o seu fingir. Vai agindo como um passarinho, que, com paciência infinita, vai construindo o seu ninho, com os mais diversos materiais...
O poeta consegue até mesmo fingir que não é real aquilo que para todos os demais é real. E ele passa a ver tudo como fingimento, a que ele mesmo dá origem. A casa em que mora é fingimento, é ilusão, é construção ectoplasmática sua, em tudo aquilo que lhe diz respeito. Os amigos e camaradas com quem convive são fingimento, são simulação da sua alma para seres de quem ele só vê as sombras, que são como projeções que fluem da sua alma. O mundo todo, com seus acertos e desacertos, nada mais é que um grande fingimento coletivo, em que, cada um, à sua maneira, contribui com sua parcela ectoplasmatizante de realidade. O mundo de ilusão em que vivemos é, na verdade, um grande holograma, resultado dos infinitos quereres dos seres que o compõem sinergeticamente. E o poeta, tendo entendido tudo isso, sabe que tem de fingir à exaustão, para construir um universo seu - que seja para todos os seus - que seja uma imagem e semelhança do seu mais alto querer. Megalomania? Sim, mas uma megalomania santa.
A dor, que é um termo-súmula dos males que assolam o homem, torturando-o no corpo e na alma, essa, principalmente, tem de ser completamente fingida, para ganhar novas dimensões mais sutis, mais leves, menos mortificantes, menos pungentes. Em seu universo há que haver dor, mas que seja levemente pungente, suavemente gozosa. Uma dor que machuque um pouquinho, para que o indivíduo não caia em pleno contentamento, e se cristalize numa ventura de mesmice eterna, deixando de caminhar, e deixando de aspirar a coisas novas para o seu querer.
E o poeta sabe mais: que, estando no sensível, a dor é, na verdade, uma ilusão. Assim, recolhe-se, em consciência, até o VEDOR, Cristo, que já o redimiu, e, dali, passa a assistir a si mesmo às voltas com a dor que esteja sentindo no real.
O VEDOR parece ser o plano mais elevado a que ele pode ascender, em consciência. Cristo, entidade altamente ascensa, que lhe deu a salvação, habita dentro dele: Cristo é o distante mais próximo do homem. Afinal, foi ele, nosso Deus, que se fez homem, podendo, assim, sentir as coisas como se fosse homem e como Deus.
Além disso, os versos já examinados:

"E o tal que eu cá tenho
E sente comigo,
Nem pai, nem padrinho,
Nem corpo, nem amigo,
Tem alma cá dentro
'Stá a ver-me sem ver."

reforçam o que dizemos. Cristo é o tal que ele tem, que sente com ele, que tem alma dentro dele, que o vê sem ver. Portanto, Cristo é o nível mais alto de seu eu, a que pode chegar em autopsicografia.
E a dor que ali sente é, então, totalmente fingida, uma dor em que não há nada que não seja ficção; porque, estando acima dela, vê-a em sua plenitude de fingimento, de ilusão.
Para melhor entendermos a questão da autopsicografia, que se erige sobre a estrutura cosmogenética acima delineada, vejamos o que diz o Poeta em carta a Casais Monteiro, datada de 13 de janeiro de 1935:

...................... "Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo. Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara: compreendo porém a sua intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não." Por essas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (exceto a Maçonaria anglo-saxônica) a expressão "Deus", dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer "Grande Arquiteto do Universo", expressão que deixa em branco o problema de se Ele é Criador, ou simples Governador do mundo. Dadas essas escalas de seres, não creio na comunicação direta com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos." .............
                                                                                                                                          (FPO em P, p. 99)

O primeiro que devemos notar é que Fernando Pessoa cria na existência de mundos superiores criados ou organizados por um Grande Arquiteto. E esses mundos se ordenam cosmicamente numa escala de sutilidade, que parte dos mais densos para os menos densos, dos mais materiais para os mais espirituais, até chegar ao UM Supremo. E no poema "Brincava a criança," ele nos apresenta de maneira velada alguns desses encaixantes universos:
1) o universo em que habitam as PERSONAS;
2) o universo em que habitam as personalidades no seio da INDIVIDUALIDADE;
3) o universo em que habitam as multidões de ABRAÃO;
4) o universo em que habitam os redentos de CRISTO;
<5) o universo em que habitam os dizimistas de MELQUISEDEQUE.

O segundo que devemos notar é que o Poeta cria na comunicação com esses seres cada vez mais altos, que, na verdade, são como extensões cada vez maiores de si mesmo. Aqueles seres superiores que ali acima estão arrolados: INDIVIDUALIDADE, ABRAÃO, CRISTO, MELQUISEDEQUE, são seres em que a PERSONA habita, são seres que a PERSONA é em estado potencial de ser-existir. E, com esses seres, dentro de certas condições adequadas, é possível a comunicação, através de um processo que bem poderia ser denominado de autopsicografia. Pois, é ela, na verdade, uma forma de a persona se comunicar com os seres-dimensões maiores de si mesma, buscando escrever, nos dois sentidos do termo, aquilo que de cima recebe. O poema é, muitas vezes, vezes sem conta, o resultado de uma autopsicografia. E algumas coisas que vivemos na vida, em certos momentos especiais, tocados de uma aura singular, são coisas que são vividas em outro plano de ser de nós mesmos. São escritas que se projetam em experienciação sobre o quadro cotidiano do nosso viver. Uma intensa dor, um choque, uma situação paroxística, podem fazer com que escrevamos de uma maneira diferente o nosso viver. São, sim, momentos de exceção, mas quem já não passou, ainda que fugazmente, por eles? Esses são momentos em que autopsicografamos mensagens-atos de um ser superior nosso, que, momentaneamente, assume o nosso escrever, o nosso viver, que, de outra forma, nos seria insuportável. É óbvio que a autopsicografia para um poeta assume uma outra dimensão de significado. Para o poeta fazer isso, tem de desdobrar-se no que sente e no que pensa, para assumir, já como personalidade atual, a consciência de contemplação da própria dor: ele precisa escrever, do ponto de vista do VEDOR, o drama que esteja desempenhando.
É como se ele chegasse até o VEDOR, até o padrão de consciência do VEDOR, e copiasse, em atitudes e posturas, aquilo que lá presenciou. E, como o VEDOR, aquele que só vê, aquele cujo ver é apenas o ver, aquele que não julga, que não elogia, que não censura, é uma dimensão mais elevada do seu mesmo eu, quando ele escreve sua vida da maneira como o VEDOR o faria, o que ele está fazendo, na verdade, é uma autopsicografia. Uma escrita que ele recebe e que vem do além da sua própria alma.

"E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm."

E os outros? Aqueles demais BOIS que já não podem escrever, e que recolhidos estão no seio da individualidade? O que significa para esses a dor que o poeta leu no mundo? E a dor que ele reescreveu, quando ao mais alto de si mesmo ascendeu? Esses, quando lêem, lêem as duas dores que o poeta sentiu. Eles estão num estado de ser-existir, em que podem experienciar uma e outra dor, em total fingimento, e não conseguem reconhecer em nenhuma delas o seu jeito de sentir. Cada uma dessas personalidades teve um coração real, quando por aqui esteve encarnada, e cada uma teve um coração seu, diferente do das demais. Agora têm uma espécie de coração mais sutil, que pode recuperar o coração que tinham, pois ele está vivo em sua memória. E, assim fazendo, percebem que aquelas duas dores são bem diferentes daquelas que costumavam experienciar. O coração não deixou de existir, mas está em suspensão de existência, podendo ser ativado a qualquer momento, e sentir, mas em fingimento, como uma representação, a dor, que pode ser sentida profundamente, sem provocar qualquer impacto no ser.
Esses que lêem, diante da dor de nível superior que o poeta consegue plasmar, não na podem reconhecer, pois nunca a haviam experienciado; só haviam experienciado a dor real (quando eram personas) e a dor sublimada (própria do seu nível de existir).
Vale dizer: o poeta consegue, pela sua maneira singular de plasmar universos, com a assistência do Alto, introduzir no seio da individualidade um novo tipo de realidade que antes não existia nela. O poeta é aquele que engendra o novo, aquilo que ainda não havia como manifestação no seio da individualidade. Ele contribui poderosamente para regenerar a mesma estrutura-em-experienciar-se da individualidade a que pertence.
Antes dele, havia duas maneiras de sentir a dor: a dor como real, e a dor como sublimada pela razão da própria personalidade, e que é a maneira de sentir da individualidade em seu funcionamento normal. E as personalidades todas, dotadas de uma mesma espécie básica de razão, e de uma mesma espécie básica de coração, tinham, diante do experenciando, duas maneiras básicas de sentir: uma que implica um total envolvimento do ser que se vê anulado por ela, e outra, que implica um total alheamento.
E de repente desponta no seio da individualidade uma nova maneira de sentir, em que há uma como síntese das duas possibilidades anteriores, e ainda mais sublimadas (já que do ponto de vista do VEDOR, que está acima de ABRAÃO), e que passa a poder ser comungada pela personalidade!

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Procuremos sintetizar num gráfico a dinâmica do processamento dos dados colhidos pelo coração, e isso num âmbito aprofundado do conceito de EU. Esta será, na verdade, uma primeira aproximação para entendermos melhormente o sentido da estrofe:

"E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."


 

P - Personalidade
I -  Individualidadeb
A -  Abraão
C -  Cristo
Os retângulos em tons de vermelho representam o coração.  Os em verde, a razão.
Os círculos representam a dor.
A matização representa os níveis cada vez mais sutilizados de cada plano referido.

 

 

 

Este gráfico explica bem o processo de sublimação da dor, que colhida no real sensível, pelo coração real da persona, alimenta a razão da persona que a sublima. O coração volta ao real, carrega-se com ele... e entra num circuito sem fim. E a Dor, já sublimada, chega à individualidade, que poderá ou não ter o coração mais sutil ativado por uma ou várias personalidades que a compõem. A razão de nível superior da individualidade sublima a Dor já sublimada, e a Dor já sublimada transforma-se em DOR sublimada-sublimada que, assim, de sublimação em sublimação, acaba por chegar ao VEDOR e até mais além... Do sensível para o inteligível, temos o caminho da sublimação, da sutilização, da etereização do sentimento, que não se perde jamais, mas vai ganhando novas roupagens, novos jeitos de se apresentar à consciência.
A autopsicografia representa o caminho inverso, em que a DOR, já sublimada e indolor, chega até a persona; e ela, num esforço singular, a que poucos têm acesso, ascende até as entidades superiores que habitam o seu ser e passa a escrever, não o que ela escreveria, que seria a dor do real, mas aquilo que a entidade superior dita. É óbvio que o termo escrever aqui, além de outros, tem o sentido de vivenciar alguma coisa como se fosse o desempenho de um script de teatro.
Para entendermos melhor o processo, foquemos dele o aspecto nuclear, que se repete como um padrão cósmico nos diversos níveis-universos em que o ser navega o seu caminho:

"E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."



E assim, o coração gira, descendo à realidade e voltando a si, e descendo novamente à realidade, num circuito sem fim, como um comboio que em seus vagões transporta tudo aquilo que ele pode transportar: sentimentos, emoções, temores, esperanças, alegrias, tristezas, dores, afagos ... e memórias, quantas memórias! E esse esfalfar-se do coração tem um objetivo, que ele não consegue ver: o de alimentar a razão, que funciona como um mecanismo filtrador e sutilizador da experiência. E o coração de carne, já por sua natureza, é o que mais sofre com os embates da carne, a ela se entregando, e criando apegos e âncoras e estalagens para o seu sentir. E gira em calhas de roda, seguindo um itinerário do qual não pode se desviar: para ele, só existe esta dimensão para o seu sentir.

Mas o coração - incluindo-se aqui o coração real e os corações mais sutis da individualidade - realiza um outro giro de âmbito maior, como se fora um comboio de corda que se apresenta na forma de inumeráveis vagões-personalidades, que ficam girando sem parar, um na luz do sensível, e os outros na luz do inteligível mais próximo deste plano em que ora viajamos o nosso estar-sendo.
O vagãozinho azul-marinho chegou à linha do nascimento, e já percorreu um bom trecho do caminho na vida, e logo chegará à fronteira da morte, quando voltará , outra vez, à roda da espera. E, enquanto isso, os corações todos vão girando, girando, uns, os que estão fora do palco, num grande giro, outro, o que está atuando, nos giros das rodas do tempo (segundos, dias, anos), entretendo, sempre, a razão, que precisa de matéria-prima para poder trabalhar no seu mister cósmico da sublimação. E esse alimento são as vicissitudes da vida, que, para o coração, seja ele de carne, seja ele sutil, têm um sentido, que é bem diferente do sentido que vai lhe conferir a razão. Para o coração, elas são a razão do seu viver: para a razão, elas são a razão do viver, da vida, da Vida. O coração olha sempre para o passado; a razão fita o porvir.
O carrinho em azul-marinho da persona, que tem o coração voltado para o sensível, está ligado com um fio invisível ao grande comboio, de que, no momento, é uma espécie de locomotiva que vai extraindo do sensível as paisagens por que passa, para que a razão as sublime. Será esse material sublimado usado para plasmar novos universos de manifestação mais sutis que vão-se armazenando em si mesma, e no grande comboio, e no grande Todo.

                                                                                                        ***

Na economia do Cosmos, cada viajor é um herói, que não se sabe como tal, que brinca de lutar contra as trevas, que não existem, para ir criando, no seu devanear gloriosamente quixotesco, os páramos que ainda não existiam e sempre existiram, e isso para o exercício cada vez mais pleno da glória a que tem direito por irrevogável herança do UM.

                                                                                                         ***

 

À GUISA DE EPÍLOGO

 

Fernando Antônio Nogueira Pessoa:
Tu o sabes agora mais do que antes sabias:
Grande, maravilhoso, inefável, é o destino de todo ser individuado;
Seja ele aquele excelso ser que navega sua glória na orla infinitesimalmente próxima do seio do UM;
Seja ele um neutrino, seja ele um ser que viaja sua aparente pequenez nos limites do mais extremo nadir;
Todo ser, cada ser, tem sua vida, tem sua consciência de existir, de ser-existir;
E jornadeia, nas asas de seu querer, em busca de novas aventuras, de novas delícias, de novas promoções...
E sem jamais se perder...
E sem perder nada de si que realmente preze...
E tu, grande vate, que tanto lutaste para entender um pouco da glória do UM,
Certamente estás neste momento, e para sempre, vivo e consciente, e alegre,
Buscando novos contentamentos, nesse teu novo modo de existir que agora estás fruindo.
Que o UM nos abençoe a todos!