NAVEGANDO NO ...
                                         Ritmo

                                         Mário Quintana

Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco

Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes

No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa

até que enfim
                           se desenrola
                                                   a corda toda
e o mundo gira imóvel como um pião!



1 - GARIMPANDO ...

Vamos, agora, a fim de pôr a descoberto alguns pontos de estranhamento, apresentar duas versões "normalizadas" do poema, com base num paralelismo construído a partir da estrutura estrófica geral:

RITMO 1

Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco

Na sala
a escovadeira escova o piso
escova o piso
escova o piso

No tanque
a lavadeira lava a roupa
lava a roupa
lava a roupa

até que enfim
                          chega a cabo
                                                   a faina toda
e o mundo gira célere como um pião!


RITMO 2


Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco

No tanque
a lavadeira lava a roupa
lava a roupa
lava a roupa

No quintal
a capinadeira capina a terra
capina a terra
capina a terra
até que enfim
                           chega ao fim
                                                    a labuta toda
e o mundo gira plácido como um pião!

*****

A um ler desatento ou descompromissado, pouca ou nenhuma mudança as versões acima (e outras mais que poderiam ser facilmente produzidas) teriam provocado no nível essencial do poema: o fundamental estaria preservado, em seus aspectos fundamentais, no todo da mensagem veiculada. Apenas, haveria ligeiras transformações no nível mais superficial do texto, transformações que não afetariam, de maneira significativa, o conteúdo básico daquilo que o poeta buscava exprimir: algo assim como a omnipresença do ritmo, da ação ritmada, monotonamente ritmada, que se manifesta vário e único nos múltiplos quefazeres do homem. Tudo bem: da mulher. Da mulher, como um espécime do ser humano. Por extensão: do homem. Mas, não nos esqueçamos: estamos diante de um poema. De um poeta, de um senhor poeta! Uma pessoa a quem a palavra é algo quase sagrado, a quem cada palavra tem uma realidade única, singular, mergulhada nos mesmos mistérios do Verbo! Para ele, não há diferenças pequenas, não há diferenças grandes: o que há são diferenças, marcas únicas e profundas de identidade que se manifestam através, não de marcas evidentes, mas de marcas, às vezes, extremamente sutis.

Vejamos, agora, a estrutura básica do poema:


 

1 2 3 4 5 6 7 8 9
  Nível   Tempo   Lugar   Atuante   Conector   Ação   Definidor   Objeto   Modo
  micro     Na porta   a varredeira     varre   o   cisco   nihil
  nihil   Na pia   a menininha   escova   os   dentes   nihil
  nihil   No arroio   a lavadeira   bate   nihil   roupa   nihil
  macro   até que enfim   nihil   a corda toda     desenrola     se   nihil
  nihil

                                                                        e

  nihil   o mundo     gira       imóvel ...
  como um pião


Algumas considerações:

1. Como podemos notar, o conteúdo do poema se manifesta em dois níveis: o microcósmico e o macrocósmico. O primeiro se refere ao universo das relações humanas consideradas dentro de uma óptica de especificidade, centrada nas ações individuais do ser humano. O segundo se reporta ao universo das relações humanas consideradas dentro de uma óptica de generalidade, centrada nas ações generalizantes sustentadoras do mundo. Veremos no devido tempo que há uma relação muito forte entre um nível e outro, podendo-se aplicar aqui o preceito da filosofia perene que diz que "assim como é embaixo, assim é em cima, e assim como é em cima, assim é embaixo."

2. Os atuantes humanos, que se apresentam no nível microcósmico, são todos do sexo feminino: não há aí a presença do fator masculino. O poeta parece ter querido desconsiderar o fator masculino desse nível. Seria o fator feminino preponderante nesse nível? E quais seriam as características básicas, primais, desse fator?

3. Não se notam conectores entre os atuantes do nível microcósmico: tudo se passa como se não houvesse relações claramente detectáveis entre esses atuantes: as relações, se é que existem, parecem estar envoltas em densas brumas que as dissimulam ou ocultam.

4. Os atuantes do nível macrocósmico são dois: a corda e o mundo. A corda é coisa, coisa objetiva, impessoal. O mundo é ambíguo: é coisa e é gente, é objetivo e subjetivo, é impessoal e pessoal. Nele se combinam as duas linhas de força, formando um todo indefinido em que um atuante mascara o outro.

5. No nível macrocósmico há claramente expresso entre um atuante e outro um conector que estabelece incisivamente uma relação entre um e outro: aquilo que se passa com a corda e sua problemática tem diretamente a ver com aquilo com que se passa no mundo.

6. Analisando a coluna 2, notamos a presença forte da expressão
até que enfim relacionada com o desenrolar da corda toda. Essa expressão, de difícil recorte semântico, procura traduzir, de maneira altamente econômica, uma série de nuanças significativas: demora do empreendimento, dificuldade da tarefa, complexidade da problemática, triunfo pelo ter realizado. Mas o que mais parece sobressair é a idéia de ter realizado um trabalho hercúleo, no afã de ver o essencial do mecanismo que faz o mundo girar e girar para nunca sair do lugar. Nesse afã exaustivo de ver para além do véu de sombras que mascaram maquiavelicamente o mundo das relações humanas. Difícil é procurar ver o que está atrás e no fundo de uma lavadeira, de uma menininha e de uma lavadeira!

7. Examinando a coluna 3, notamos a suspensão de lugar naquilo que se refere ao macrocósmico. Onde a corda toda se desenrola? Em nenhum lugar definido, em nenhum lugar exclusivamente determinado; em todo lugar, em cada lugar do mundo, em todos os seus estratos e patamares, porque em todos estão presentes, invisíveis e fortes, aqueles três atuantes femininos básicos. Onde o mundo gira imóvel como um pião? Em nenhum lugar definido, em nenhum lugar exclusivamente determinado; em todo lugar, em cada lugar do mundo, em todos os seus estratos e patamares, porque em todos estão presentes, invisíveis e fortes, aqueles três atuantes femininos básicos. Onde há corda, há mundo; onde há mundo, há corda.

8. Na coluna 4, todos os atuantes são constituídos de definidor + substantivo: o poeta está falando de coisas claramente definíveis, objetivamente entendíveis, singularmente interpretáveis. Este é um poema que parece apontar, pela riqueza de indicadores consistentemente apresentados, para uma única interpretação: se caminharmos com cautela e coerência, poderemos chegar bem próximos daquilo que o poeta quis registrar com seu estro ímpar. Notamos, ao demais que o atuante corda tem além do definidor (não é de uma corda qualquer que o poeta está falando), um totalizador integralizante: a corda inteira, de ponta a ponta, tem sempre o mesmo comportamento básico, preenchendo em cada porção dela o objetivo a que se propõe. Não interessa considerar as condições diferentes ou diferenciadas em que atue: ela funcionará sempre com o mesmo intento, quer estejamos num sistema capitalista, comunista, xiita ou quejando. Ela se sobrepõe, soberana e determinante, a todos os sistemas... Bem, é isso que o poeta parece querer dizer...

9. Observando a coluna 9, notamos que o modo da ação está elíptico ou implícito no que se refere às ações do nível microcósmico, podendo ser deduzidos facilmente a partir da análise do ritmo de cada ação considerada, como fazemos abaixo. Em relação ao desenrolar da corda, no nível macrocósmcico, veremos oportunamente que é um modo síntese que congloba os modos das ações do nível microcósmico.

10. Na coluna 4, o artigo a está claramente indicando que a corda mencionada é a corda com que o poeta vem trabalhando desde o início do poema: é, na verdade, a corda que ele vai a custo desenrolando... em três momentos básicos, primais. Trata-se de uma corda que faz o mundo girar, para continuar sempre no mesmo lugar...

Deduzamos, agora, o modo, analisando objetivamente o ritmo de cada ação arrolada no nível microcósmico. 

Vemos, agora, que a alternativa  lavar seria pouco mais que redundante, quanto a este aspecto, e que  bater, pela sua dinâmica única (o sentido vertical do movimento), deve ter sido escolhido por alguma razão bastante ponderosa!

Analisando essa distribuição, notamos claramente que o escovar (da menininha) e o varrer (da varredeira) se integram complementarmente, num processo de sustentação mutuamente simbiótica; e essa harmonia é quebrada pela presença do bater (da  lavadeira), em que o cognato (da varredeira) já não mais funciona.  Ela não lava, mas bate a roupa...  Na planície tranqüila e forte da complementaridade, ergue-se abruptamente o outeiro fraco e forte da (passiva) confrontação vertical.

Examinando o aspecto da cognatalidade,  notamos que apenas a varredeira (que é uma profissão) se apresenta em redundância de si mesma.  A varredeira se perpetua indefinidamente nesse quadro de auto-limitação, de auto-definição, de autocontrole.  A varredeira é e sempre será varredeira:  alguém que faz, como seus predecessores o fizeram, algo não para seu proveito próprio, mas para o de outrem.  A menininha,  sujeita pela horizontalidade à varredeira, tem algo que ela não tem:  a liberdade de exercer apenas as coisas que a beneficiem, pois que está isenta da necessidade da profissão.  O papel da menininha é ser apenas menininha, eternamente menininha:  será sempre um centro de recepção de benesses gratuitas.  Sempre haverá alguém para cuidar dela: de suas necessidades, de seus caprichos, de seus egoísmos, de seus luxos...  Estará eternamente rodeada de escravos, de lacaios, de servos, que para ela trabalham, entregando-lhe o resultado do suor de seus corpos, da mortificação silenciosa e cooptada de suas almas.  Para isso nascem as varredeiras:  para varrer, para manter limpa, a residência da menininha, dos seus patrões, dos seus donos.  Para fazer a lavagem da pecúnia espuriamente angariada...  E mais poderíamos dizer, explorando a riqueza inesgotável que o Poeta, num momento de elevada inspiração, consegue mobilizar de uma maneira consistente, fractalmente consistente, os arquétipos que constroem a nossa injusta realidade social...  O espuriamente acima aventado, por exemplo, pode ser derivado do fato óbvio de que a menininha não conta, ao seu dispor,  com nenhuma ação autodefinidora, autolegitimadora:  não existe, vemo-lo bem, um verbo tal como menininhar...  (É de se notar, nesse particular, que a lavadeira tem um verbo autodefinidor, mas não se entrega a ele, num gesto (inconsciente?) de  revolta, de subversão...

Em relação à corda, precisamos nos deter um pouco, examinando objetivamente a dinâmica que preside o ato de colocar um pião (brinquedo de criança) em movimento.  Para um pião entrar em movimento, são necessários dois momentos: o de enrolar a corda (ou o barbante) e o de desenrolá-la.

Para enrolar, o movimento é de baixo para cima e de fora para dentro: é um movimento de esconder, de ocultar o pião  E este movimento de fora para dentro está totalmente relacionado com a menininha.  O de baixo para cima está parcialmente relacionado com a lavadeira.

Para desenrolar, o movimento é de cima para baixo e de dentro para fora.  É um movimento de  revelar, de mostrar, de pôr à mostra.  E este movimento de dentro para fora está totalmente relacionado com a varredeira.  O de cima para baixo está parcialmente relacionado com a lavadeira.

E, ao desenrolar-se, a corda produz, ao demais, três efeitos claramente discerníveis:
. impulsiona;
. determina;
. revela.

Uma mola que se desenrola baseia-se em um impulso; um fato que se desenrola é um fato que se estabelece; um pergaminho que se desenrola vai revelando cousas antes ocultas ...

Mas, continuemos, em nossa lide (fascinante) de garimpeiros ...
Algo que podemos notar, sem muito esforço (depois de dito, insere-se na categoria do “óbvio ululante!), é que:
.  A vassoura é feita de cerdas.
.  A escova é feita de cerdas.
.  A roupa é feita de cerdas .
E a corda do nosso poeta também é feita de cerdas! Das cerdas - entrançadas, confundidas, confusas - da vassoura, da escova e da roupa. Uma corda bastante peculiar, não há dúvida nenhuma!
E o mundo é propulsionado, tal como um pião, por esta corda de fibras entrelaçadas, que têm origem em três planos:
.  plano da varredeira;
.  no plano da menininha;
.  no plano da lavadeira.
Examinemos a questão dos artigos:


. Para a varredeira,   o       cisco.        Pode até ser dela.   Sendo singular,  tende para a unidade, para o pouco.
. Para a menininha, os      dentes.     São dela. Sendo plural, tende para o muito.
. Para a lavadeira,    nihil  roupa.      Não é dela. Sendo nada, para o nada tende.

Uma última consideração. O poema todo se organiza num ritmo ternário, tanto num plano formal, como num plano semântico. E é exatamente este seu caráter que permite um aprofundamento cada vez maior em direção à inesgotabilidade de sua mensagem.  Dela poderemos, tão-somente,  delinear o essencial do essencial, tendo plena consciência de que o que tenha sido dito será apenas uma imagem especular um tanto distorcida (mas já bastante assintótica) daquilo que o poeta procurou comunicar de uma maneira tão econômica e bela (também)!


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2- ORGANIZANDO O GARIMPADO

A corda que impulsiona o mundo normalmente se apresenta enrolada, ocultando-se a si mesma, em suas particularidades mais marcantes. E é representada por três segmentos altamente significativos, os quais a fazem inteira. Esses são os três segmentos essenciais a que podem ser reduzidos todos os demais. É neles que está a chave para se entender a corda. E, para isso, mister é estendê-la, desdobrá-la, desenrolá-la. O poeta, ao desenrolar a corda, com grande esforço, para não deixar se iludir pelo aparencial, logo se depara com um segmento que ele representa pela varredeira, que se acha cognatamente dedicada a seu ofício. Logo a seguir, encontra a menininha e não uma outra -eira ou -deira da vida. E, finalmente, tem de voltar ao -deira, chegando à lavadeira. Podemos notar que o segmento nuclear, que está no centro, é a menininha, que quando faz, faz para si mesma, em um investimento pessoal (de algo que não pode ser delegado). Para a menininha, o mínimo trabalho, e só em benefício direto próprio. E isso em um lugar altamente reservado. É menininha: uma aura afetiva a envolve. É menininha: é frágil, necessita de proteção. É menininha: é um ser de pouco significado, de pouco peso, na ordem das coisas: o que faz ou pensa não tem qualquer reflexo no mundo. E quem é, na ordem das coisas, a menininha? - Não a patroa de hoje, mas a de amanhã: a garantia de que o mundo girará, sim, mas para ficar imóvel, para permanecer imutável no âmbito de suas relações fundamentais. A menininha se envolve, qual um pião, em estado de pré-impulsão, em uma aura de beneplacitude, ocultando aquilo que ela realmente é da vista de todos. E é nesse movimento de ocultar-se que ascende cada vez mais na escada social em direção ao sempre mais alto. Tal como se pode ouvir na conhecida música popular: “Analisando esta cadeia hereditária, quero me livrar desta situação precária, onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece: o de cima sobe E o de baixo desce.” A menininha não precisa fazer para ser, para entrar na posse do poder. É na pia (batismal) que lhe é conferido o poder hereditário de comer, de consumir, de exercitar os dentes em tudo que lhe aprouver. Limpamente, sem se deixar manchar, sem jamais ter do que se envergonhar por isso. (E haveria a consciência de crime de lesa-humanidade naquele que, dominado pela ambição desmedida, ou pela ambiência da ambição desmedida - aqui a força do artigo os - condena seu semelhante à miséria?) O segmento “de cima”, periférico em relação ao núcleo, é representado pela varredeira, que se avizinha da casa (está-lhe à porta), não para dela desfrutar, mas para mantê-la em ordem para outrem. Para ela, que varre, o cisco, a sobra, aquilo que pode ser jogado fora por imprestável. Para ela o pouco, o minimamente suficiente. O movimento de desenrolar a corda está para ela, o de dentro para fora, está associado com o de cima para baixo: é seu “destino” descender cada vez mais na escala social. Mas, tanto para a menininha como para a varredeira, o ritmo ternário (de começo, meio e fim), sendo o começo igual ao fim (num perpétuo girar vicioso), se processa num plano horizontal, sintagmático, de contigüidade pacífica, em que ambas experimentam um certo tipo de posse. Para uma, com a posse centrada no os (no plural, no muito), predomina o movimento para dentro, de acumulação para si mesma. Para a outra, com a posse centrada no o (no singular, no pouco, no mínimo, no “mínimo”!), predomina o movimento para fora, para lá de quem faz, fazendo pouco para si (e muito para o outro). O outro segmento, o “de baixo” (absolutamente de baixo), situado num plano periférico, marginal, inferior, distanciado da casa e das relações do poder (do poder ter, sem pouco ou nada fazer), apresenta um ritmo também ternário, mas num sentido vertical. (Bate roupa usa o poeta! Poderia ter usado lava, mas não o fez, desprezando uma solução mais simples e direta - e de alto potencial poético!) A lavadeira, que representa os totalmente despossuídos, tem, em relação ao girar imóvel do mundo, um ritmo que, processando-se num plano vertical, lhe permite contemplar o alto e o baixo, opondo-se, destarte, drasticamente, aos dois dois segmentos anteriores. Aqui, o nível paradigmático, que poderia propiciar substituições, movimentações, alterações no quadro do status quo. O segmento correspondente a esse nível poderia fazer alguma coisa, mercê da alta consciência descompromissada de vida de que é portador, mas não o pode, já que, relegado à margem do arroio, não faz parte do seu fluxo vital. Da margem, tem uma vista privilegiada do arroio, mas nada pode fazer em relação à maneira como flui, mesmo porque não flui para ele, o marginalizado. O ritmo vertical do bater, enfatizando o esforço, a força, o poder, a potência, mostra que é neste segmento que jaz inerte um alto potencial megatônico de mudança. E o que é preciso para que este poder entre em erupção, redimindo a miséria total em que milhões de humanos malvivem? O patético do homem-gabiru, dos meninos que moram em cloacas, de homens que revolvem lixos e lixeiras em busca de detritos repugnantes que possam mitigar-lhes horrendamente a fome? E nas margens da vida, os miseráveis sem opção vão batendo, surrando, puindo os escassos trapos com que se cobrem , acossados pelo vergastar incessante (ternariamente eterno) da fome, do frio, da morte. (É isto que sugere o movimento de bater, de subir e descer, batendo e espancando.)

                                          ********

 Assim, no mundo, na sociedade humana  -  humana (? ) -  há três patamares, três degraus:

  o dos que têm, muito possuindo,      
 (em demasia)   tendo    herdado;    
   o dos que fazem, para que  os que  
   têm tenham cada vez mais e mais;  
     o dos  que  estão  à margem,   alijados
     do   esquema   (porque   supérfluos?).
     Os   que realmente sentem, na  ausên-
     cia  de  qualquer  artigo essa   grande,
     grande,  imensa,  injustiça  do mundo.
     

Depois desse estrênuo desenrolar da corda, o poeta pode dizer: “até que enfim”! Análise feita, nada mais há para se dizer de substancial.

Assim como a cordinha, ao desenrolar-se, faz girar o pião, assim também o desenrolar de toda a corda (em seus três segmentos essenciais) faz com que:

. através das cerdas fortes que estão na vassoura,
. através das cerdas frágeis que estão na escova,
. através das cerdas frouxas que estão na roupa,
                                                                                                       o mundo gire com um objetivo: para que nada mude.

O verbo desenrolar, no poema, se reveste de três sentidos:


1) acontecer;
2) propulsionar;
3) revelar,
que se relacionam, respectivamente, com o alienamento da menininha, com o fazer não-para-si da varredeira, com o desvelamento cru da injustiça do mundo, que se mostra em toda sua terrível força na lavadeira.
As coisas meramente ACONTECEM, num processo natural (aparentemente) de adição, de agregação, de acumulação, para uns. De aqui, a força aditiva do e, do único e em todo o poema.

As coisas se REVELAM em toda sua crueldade, mas isso não é o suficiente para que se detenha, ou mesmo se atenue, o processo:  a consciência das menininhas e também das varredeiras parecem estar anestesiadas. De aqui, a força adversativa (intensamente dramática) daquele e.

As coisas se PROPULSIONAM, são propulsionadas, são feitas por alguém que pode fazê-las. Se algo existe, como expressão cultural, é porque alguém o fez. E é dentro desta óptica que repousa a grande justificativa para os desencontros e desequilíbrios do mundo. Ideologizado, o conceito passa a subjazer a toda explicação das desigualdades sociais: a causa do que acontece no mundo tem origem no esforço que cada um despende (ou despendeu) na vida, aproveitando a sua liberdade de iniciativa. Os ricos muito fazem (ou fizeram) e com muita eficiência; os remediados pouco fazem, com pouco se contentando; os miseráveis nada fazem, por isso que são descartáveis. A causalidade se absolutiza. De aqui, a força explicativo-causal daquele e.

A menininha tem instrumento, mas não quer que nada mude.
A varredeira tem instrumento, e bem mais forte que o da menininha, mas foi cooptada por ela.
A lavadeira poderia provocar mudanças, mas não tem instrumento.

Uma última reflexão. O possível porquê de todos os atuantes do nível microcósmico serem do sexo feminino. Uma primeira razão é que menininha tem uma carga afetiva muito mais forte santificante do que menino. Estabelecido esse atuante, os outros, por paralelismo, teriam de ser do mesmo sexo. Mas parece haver uma outra razão que reside no plano dos arquétipos, das idéias primais. O caráter masculino se caracteriza pelo movimento básico de dentro para fora: seu papel é atuar, agir, transformar. O caráter feminino se caracteriza pelo movimento básico de fora para dentro: seu papel é reagir, copiar, manter. E o mundo atual dentro dessa óptica é bem feminino...

Procuramos aproveitar nesta seção o máximo do material garimpado. É bem possível que algo tenha ficado para garimpar e é bem possível que tenhamos deixado de aproveitar mais adequadamente algum material garimpado. Fica aqui um convite para o leitor refazer a navegação...

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

No dia 04/05/93, no Largo do Paissandu, em São Paulo, por volta das 21 horas, um homem em cerdas puídas, junto de sua desconjuntada carrocinha-albergue. E em cima da carga de coisas jogadas fora que amealhara, um cartaz em letras bem grandes e nítidas e negras e masculinas:

NÓS TEMOS O DIREITO DE VIVER!

Aqui, talvez, o esboçar-se de um instrumento ...

wwwwwwwwwwwwwwwwwwww

J. Romero A
CB, 24/05/93

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O presente trabalho de interpretação de texto pretende exemplificar um tipo de abordagem que tem a  ver diretamente com a concepção de que todo poema  –  em maior ou menor grau  –  é baseado numa poiesis, num fazer básico, que tem por objetivo desvelar relações antes invistas, inéditas de um objeto qualquer.  A poiesis aqui se alicerça fundamentalmente sobre o verbo desenrolar , termo núcleo-organizante, que bem sugere a preocupação básica de desvelamento, de desnudação, de revelação de alguma coisa relacionada com o mundo.  Todo poema, em maior ou menor grau, ocupa-se fundamentalmente com o erguer de um véu, às vezes de um espesso e tênue véu.  Todo mundo vê a coisa, e não percebe o véu quase invisível que a envolve.  Esse o mister do vate:  ver para além do aparente, do engano, da ilusão, do mascaramento. Ver para além do óbvio.  Ao demais, todo poema é a expressão de uma preocupação, de um problema, freqüentemente de um conflito.  E todo conflito se organiza em torno de dois pólos antagônicos.  E o leitor, o interpretador, precisa estar ciente disso, para, em cima disso, tecer uma metodologia apropriada para bem interpretar o que esteja lendo.  Em linha com o que foi dito acima, podemos asseverar que todo poema  –  ainda o mais reles, ou assim tido  –  organiza-se em torno de idéias primais que se manifestam através de signos referentes ao sensível.  Essas idéias primais, os arquétipos, funcionam como o reflexo daquilo que representam.   Interpretar um poema tem a ver, portanto, com 1) um levantamento desses arquétipos e das relações que se estabelecem entre si e 2)  com uma tentativa de dar-lhes sentido no plano a que remetem, dentro de estritos critérios de consistência e coerência.  Alguns poemas se reportam simultaneamente a uma multiplicidade de planos: de aí a possibilidade de um poema agasalhar mais de uma (legítima) interpretação.  Em nossa metodologia, o que primeiro precisamos determinar é o nível de realidade a que se refere  o poema. Vejamos: o desenrolar tem a ver com a corda, a corda com o mundo, o mundo com a varredeira, a menininha e a lavadeira, e dois desses três elementos representam claramente profissões. Temos aqui duas empregadas.  O terceiro elemento deveria, portanto, representar o outro pólo da relação empregatícia: o patrão, o empregador, aquele que aluga a força de trabalho de outrem em benefício de projetos próprios.  E aqui estranhamente esse pólo aparece representado não por um patrão cruel, dominado pelo sentimento e antimística do capitalismo selvagem, mas por uma doce e encantadora criatura: a menininha.  Aqui um ponto de profundo estranhamento que merece uma cuidadosa reflexão.  Examinando o “destino”, a história possível e provável do porvir da menininha, que placidamente escova os dentes no resguardo tranqüilo do lar, veremos que,  herdeira de uma situação para a qual pouco contribuiu,  será, sim, amanhã a representante, ou atuante ou meramente fruinte, do espólio histórico a que tem direito.  É ela um dos pólos fortes da certeza de que o sistema continuará tal como está:  com seus espoliadores e seus espoliados.  O adjetivo imóvel, já pelo paradoxo em que se insere  (“gira imóvel”), aponta claramente para um conflito centrado no mundo:  no modo como o poeta vê o mundo.  Reconhecendo-o como imóvel, num contexto exclamativo, que tanto pode sugerir maravilha ou espanto como desolação e indignação,  o poeta deve estar desejando-o mais móvel.  É de se notar que esse modo de entender essa parte do poema se insere harmonicamente no todo do quadro interpretativo.  O tom do poema, mesmo para fazê-lo mais dramático e poeticamente significativo, tem de ser de indignação. Destarte, o poema trata de um ritmo formado por um compasso ternário em que dois tempos são dedicados ao trabalho alienado e alienante e um ao usufruto dos bens  desse trabalho por outrem.  Esse o ritmo da horrenda sinfonia do trabalho no mundo:  muitos trabalhando em benefícioco de poucos.  Esse parece ser um contexto forte, autorizado pelo próprio poema,  para desenvolvermos com isso uma rede interpretativa consistente e coerente com o todo da mensagem.