A POESIA FERNANDO PESSOA
Fernando Pessoa tem diante da poesia uma atitude muito sua e única. Para ele, a poesia é muito mais do que uma arte; é, para além disso, um instrumento de investigação do sentido íntimo, primal, do universo. Poesia, de um verbo do grego que significa fazer, tem, assim, um significado que a aproxima bastante da filosofia, entendida como uma disciplina que tem por escopo investigar o sentido primeiro e último das coisas, do ser. Mas é mais do que isso: é como se fosse uma propriedade invisível das coisas, espécie de manual de instrução que inerentemente se acopla às coisas, estando codificado na mesma coisa. A coisa seria, assim, uma espécie de manual descritivo de sua mesma essência.
A poesia tem como finalidade epistêmica a investigação do ser naquilo que ele tem de fundamental, de transcendental. Poesia, dentro desse entendimento, é uma atividade de desvelamento, de desvelamento-encantamento. Mas é mais ainda do que isso: é um modo de ver em deslumbramento, que tem agregado intimamente a si um caráter de fazer. A poesia não apenas revela, mas também procura fazer algo, tendo, portanto, uma finalidade pragmática. Procura, através da comoção e do espanto, sensibilizar, para convencer, para arrastar, para transformar.
Essa é a poesia que o Poeta tem em mente, e à qual declara ter dedicado sua vida. Ouçamos o que ele diz, em manuscrito datado provavelmente de 1910: "Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo." (Fernando Pessoa - Obras em Prosa. Editora Nova Aguilar S. A., Rio de Janeiro, 1986 - p. 36)
A poesia para o Poeta era um modo de maravilhar-se, mas era, acima de tudo, um instrumento que lhe permitia ver, nas mínimas coisas, ainda nas mais humildes, um reflexo vívido da grandiosa "alma poética do universo". O universo, para ele, tinha uma alma poética, um sentido íntimo basicamente poético: o universo, tendo provindo do poder do Verbo expresso no glorioso "Fiat", tinha de, por força de sua mesma origem, ter gravado em si, em sua mesma carne, em sua mesma matéria, para todo o sempre, a divina melodia, em cujo berço veio à luz. E essa sinfonia, ininterruptamente executada, em uma orquestração de que participa todos os seres que o constituem, ou grandes ou pequenos, ou solenes ou humildes, ou grandiosos ou mesquinhos; essa sinfonia pode ser captada pela sensibilidade do poeta, que com ela se afina, que com ela se harmoniza, para dela participar com sua ária, com sua ode, com seu estro.
"A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio. Encontra-se também na cidade - não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo de um operário, que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue." (Id., p. 36 e 37)
As coisas, ecoando o Verbo, que lhes foi origem, são, por si mesmas, poéticas, pois não estão estanques no universo, não estão limitadas por elas mesmas: fazem parte de um grande todo em que, de alguma maneira miraculosa, são também esse mesmo todo. Olhar para um alfinete é estar olhando para o universo, é estar focando dele um aspecto holoimplicante, holoabreviante, que se manifesta nesse humilde objeto. Um alfinete traz impressas em si todas as ressonâncias maviosas do Verbo que, de alguma maneira, contribuem para que ele se individualize como tal, sem se perder como tal, mas tendo de si, em si, um sentido muito maior que ele mesmo. As coisas todas, relacionadas que estão entre si, gozando de uma mesma origem, de um mesmo sentido básico, trazem em si gravadas indelevelmente todos os poemas que já foram escritos, todos os poemas que estão por se escrever. Para ouvir a poesia das coisas é preciso mais do que os cinco sentidos; é preciso estar aparelhado com uma sensibilidade poética, com um sentido interno que consiga captar o ecoar, ainda que pálido, do Verbo, para, num esforço de recordar-se, registrar o que esteja sendo, de alguma maneira, revelado.
O poeta é alguém que consegue captar a mensagem poética das coisas, por conseguir contactar-se com elas de uma maneira singular, que não é própria dos seus semelhantes não poetas. E é por isso que o Poeta diz: "Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens. Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um significado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo." (Id., p. 37)
O poeta é aquele que consegue ver "uma plenitude de sugestão espiritual" nas coisas e seres e fatos mais comezinhos da realidade quotidiana. As coisas têm, para além delas mesmas, tais como as vemos, um significado que as transcende, que as mergulha nas mesmas profundezas insondáveis do espírito, desse sopro divino que anima todo ser. As coisas todas, e cada uma delas, têm, para aquele que tem a sensibilidade devidamente afinada, uma dimensão espiritual, que as relacionam diretamente com sua divina origem, sendo de si mesmas como sombras, que, esquecidas de si mesmas, trazem em si impresso o eco daquilo que são em realidade, em essência. E a poesia, propriedade inerente do ser, torna-se o mesmo instrumento que permite essa tomada de consciência pelo poeta, e o seu registro em versos devidamente sintonizados com o sentido transcendental das coisas.
"É que a poesia é espanto, admiração, como um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condições, mas de mais nada se recordando." (Id., p. 37)
Essa a missão do poeta: ler o sentido íntimo das coisas, em tudo que elas têm de poesia, de espanto. A poesia figura um ser que tendo caído dos céus, passa a recordar-se das coisas que lá havia a partir das sugestões que as sombras dessas coisas trazem em si impressas. É um recordar-se precário, limitado, impreciso: é um recordar-se que tão somente se sabe recordar-se, sem poder atingir claramente o objeto original do seu mesmo recordar-se. E, assim, a partir dos reflexos das coisas em si, a poesia cria um novo universo de reflexos, que procura tornar mais próximos da realidade essencial, e mais identificados com o mesmo sentido das coisas. Assim, a poesia, como propriedade do ser, manifesta-se como um fazer que tem por matéria o verbo, o som, a música, a musicalidade e por conteúdo o mesmo sentido que o Verbo conferiu a todas as coisas ao engendrá-las em seu seio. O poeta, consciente daquilo que é, daquilo que deve ser, daquilo que deveria ser, tem também a consciência de que a sua atividade tem, já por natureza, um sentido maior do que aquele que lhe é normalmente imputado. O poeta tem de ser um desvelador, tem de ser um arauto, tem de ser um transformador, pois reconhece naquilo que faz, naquilo que é, uma dimensão metafísica, religiosa, espiritual.
Leiamos um trecho de carta por ele dirigida a Armando Cortes-Rodrigues, em 19 de maio de 1915: "Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a alguém, e não pode ser a outro senão a você, - isto porque só você, de entre todos quanto eu conheço, possui de mim uma noção precisamente no nível da minha realidade espiritual." (Id., p. 53)
Fernando Pessoa sabia-se portador de uma missão, a que se entregou de corpo e alma. Estava bem ciente disso, e assim, estabeleceu para o seu viver um objetivo altamente santo, eminentemente sagrado, que o impossibilitava "de fazer arte meramente pela arte". E isso nos mostra que toda sua obra tem a intenção declarada de estar a serviço "de um dever a cumprir para com nós-próprios, e para com a humanidade." A sua vida não poderia ser malbaratada em coisas menores, o seu estro não poderia ser colocado a serviço da mera expressão do belo, da decoratividade. A sua tem de ser uma poesia de envolvimento, de compromisso. E é atendendo a essa disposição que devemos ler a sua obra. Nela, embora às vezes, não o consigamos ver, não há lugar para o circunstancial, para o prosaico, para o quotidiano como tal. O quotidiano em Fernando Pessoa nunca é como tal...
"Dá-se esta sua capacidade para me compreender porque você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso; e, dos que de perto literariamente me cercam, você sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como almas, propriamente não contam, não tendo nenhum deles a consciência (que em mim é quotidiana) da terrível importância da Vida, essa consciência que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consciência de um dever a cumprir para com nós-próprios, e para com a humanidade." (Id., p. 53)
E essa atitude diante da vida, da arte, da poesia, tornou-o um solitário perdido nos próprios sonhos, nos seus maravilhosos sonhos. Já não havia com quem comungar abertamente os anseios e ambições de sua alma. "Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que bata certo com a minha íntima sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual." (Id., p. 55)
A sua preocupação com o ser, que não podia ser entendida por muitos que com ele conviviam, poderia ser interpretada como um sonho de megalomania, como um desvio psíquico, ou até mesmo como mera fanfarronice. Cortes-Rodrigues, ele o acreditava, saberia julgá-lo com a devida medida, pois poderia ver naquilo que dizia, não os arroubos de uma mente perturbada, mas os ditames de uma vida dedicada à busca do sentido do "doloroso enigma da Vida".
"Como já disse, você é o único dos meus amigos que tem, a par daquela apreciação das minhas qualidades que lhe permitirá não julgar esta carta um documento megalômano, a profunda religiosidade, e a convicção do doloroso enigma da Vida, para simpatizar comigo em tudo isto." (Id., p. 55)
Ele sabia haver entre ele e os que o cercavam uma incompatibilidade essencial, de raiz, pois via na arte que muitos praticavam "arte para vários fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte", e ele não podia compactuar com isso, com essa atitude que poderíamos dizer profana. Essa, a crise em que vivia: não poder encontrar-se em ninguém, nem em propósitos, nem em convicções, nem em prática do fazer poético.
"Escuso agora de lhe explicar o quanto esta atitude - que eu, aliás, não revelo por várias razões, desde a de ser ela uma coisa íntima até a de ser incompreensível às sensibilidades dos que me cercam - me incompatibiliza surdamente com os que estão em meu redor. Não é uma incompatibilidade violenta, disse; mas é uma impaciência para com todos quantos fazem arte para vários fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte, ou como quem arranja uma sala com gosto - gênero de arte esta que dá bem o que eu quero exprimir, porque não tem Além nem outro propósito que o, por assim dizer, decorativamente artístico. E daí a minha "crise" toda." (Id., p. 55)
Mas essa não era uma situação de crise para lamentos, para lamúrias, mas para se firmar na consciência do papel sagrado que a si se atribuía, de investigar um mais Além. Ele sabia, consultando as motivações dos que o cercavam, que era como alguém, que se viu sozinho por ter-se adiantado de mais no caminho. Os companheiros de viagem que ficavam para trás, empolgados pelos fascínios e ouropéis das margens da estrada, não podiam compartilhar dos horizontes que descortinava à sua frente em sua viagem de volta à casa. E como era a viagem? Tranqüila? Repousante? Gratificante? Não no sabe, mas sente que há nalgum ponto do seu jornadear a "Floresta dos Pavores", um lugar ou um estado de espírito que não consegue bem entender, mas que lhe causa indizível terror. E o fim do caminhar, ele o vê como o chegar ao termo de uma infinita estrada, em que Deus, aguarda o peregrino, "no silêncio da Sua grandeza." Depois da tempestade, a bonança?...
"Não é crise para eu me lamentar. É a de se encontrar só quem se adiantou de mais aos companheiros de viagem - desta viagem que os outros fazem para se distrair e acho tão grave, tão cheia de termos de pensar no seu fim, de refletir no que diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsciência guia os nossos passos... Viagem essa, meu querido Amigo, que é entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores... e Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da Sua grandeza." (Id., p. 55 e 56)
Aquela, a indagação básica que o perseguirá durante toda a vida...
J.
Romero A.
Casa Branca - SP - 21 de maio de 2000.