A UM POETA

   
   
   
   

Interpretar, construir um texto-intersecção.

Quando felizes, grande a área comum.

Quando falhamos...

Sempre: um novo texto com suas singularidades,

Com seu sopro vital próprio.

Às vezes...

(E sempre haverá luz.)

(E sempre haverá dor.)

Esse o risco,

Esse o gáudio do interpretador.

   

Poeta,

Apraz-me navegar nas tuas águas,

Sempre as mesmas,

Nunca as mesmas!

Não por obrigação,

Não por dever,

Mas por desafio,

Por instigância,

Mas por prazer!

   

Usava viajar FP.

Hoje isso já não me apraz,

Não tanto quanto antes.

Descobri-lhe a chave,

(Acho que descobri.)

A senha, a senha maior,

Que todo poeta esconde:

Nem ele sabe qual,

Nem ele sabe onde...

   

Tu aí estás,

Estuante,

Nato,

Renato, a cada momento,

Novo, sempre novo,

A cada instante!

   

Gosto de quebrar o malho

Na bigorna do teu verbo.

Gosto de me surpreender,

De me assombrar,

De quedar-me extático,

De recordar-me, de relembrar...

   

Gosto de voar, de revoar,

Gosto de inflar velas,

E navegar, e navegar...

   

Peço-te:

Põe-te ao mar,

E navega e navega:

Há páramos a descobrir.

Há horizontes a explorar!

   

Vai:

Traze-nos alforges refertos

Do vasto verbo!

Vai:

Traze-nos pérolas muitas,

De  luz-sombra,

De  sombra-luz!

Vai:

Essa a tua missão,

A tua santa cruz!

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