Dou-me o direito

 


 

Dou-me o direito

 

De ser alegre,

 

De ser triste,

 

E sendo sempre feliz.

 

 

Dou-me o direito de

 

De ser responsável,

         De ser irresponsável,

 

E com toda a responsabilidade.

Dou-me o direito

 

De ser ousado,

 

De ser tímido,

 

E com toda a intrepidez.

 

 

Dou-me o direito

 

De ser quente,

 

De ser frio,

 

E com todo o ardor.

Dou-me o direito

 

De decidir,

 

De vacilar,

 

E com toda a determinação.

 

 

Dou-me o direito

 

De ser sério,

 

De ser palhaço,

 

E com toda a austeridade.

Dou-me o direito

 

De me encontrar,

 

De me perder,

 

Para jamais me extraviar.

 

 

Dou-me o direito

 

De ser duro

 

De ser flácido,

 

E sem perder a rigidez.

Dou-me o direito

 

De falar,

 

De calar,

 

E sem perder a eloqüência.

 

 

Dou-me o direito

 

De levantar,

 

De cair,

 

E sem deixar de caminhar.

Dou-me o direito

 

De aprender,

 

De ensinar

 

E sendo sempre aprendiz.

 

 

Dou-me o direito

 

De ser sensato

 

De ser louco,

 

E com toda a lucidez.

Dou-me o direito

 

De esperar,

 

De desesperar,

 

E com toda a esperança.

 

 

Dou-me o direito

 

Do encanto,

 

Do desencanto,

 

E sem perder o encantamento.

Dou-me o direito

 

De não ser eu,

 

De nunca ser eu,

 

Para sempre ser eu.

 

 

Dou-me o direito

 

De ser eu,

 

De sempre ser eu,

 

Para ser eternamente eu.

Dou-me o direito

 

De  ser tudo,

 

De não ser tudo:

 

Eu sou o que sou.

 

 

Dou-me o direito,

 

Dou-me a esperança,

 

Dou-me a promessa,

 

Dou-me a certeza,

 

Dou-me a convicção,

 

De ser um pálido eco,

 

Um palidíssimo eco

 

Um vividíssimo ecoar,

 

De ser eu,

 

De sempre ser eu,

 

Do santo Verbo...